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Drogas, loucura e Marlon Brando: os bastidores de "Apocalypse Now"

apocalypse now sheen - LionsGate/Zoetrope
apocalypse now sheen Imagem: LionsGate/Zoetrope
André Barcinski

André Barcinski é crítico do caderno "Ilustrada" e escreve também no caderno ?Comida?, ambos da ?Folha de S.Paulo?. É diretor e produtor do programa "O Estranho Mundo de Zé do Caixão", no Canal Brasil.

Colunista do UOL

21/07/2020 08h38

Resumo da notícia

  • O documentário "O Apocalipse de um Cineasta", disponível no serviço MUBI, conta os bastidores de "Apocalypse Now", de Francis Ford Coppola

O serviço de streaming MUBI está exibindo - mas apenas por 28 dias! - um documentário sensacional: "Francis Ford Coppola: O Apocalipse de um Cineasta", sobre a filmagem de "Apocalypse Now" (1979), o clássico de Coppola sobre a Guerra do Vietnã.

Dirigido por Fax Bahr e George Hickenlooper, o filme foi lançado em 1991 e traz, além de entrevistas com Coppola e vários atores do filme, como Martin Sheen, Albert Hall, Frederic Forrest, Robert Duvall, Sam Bottoms e Laurence Fishburne, extraordinárias imagens de bastidores captadas por Eleanor Coppola, esposa do cineasta.

Hoje, não é segredo que "Apocalypse Now" foi um pesadelo logístico que ameaçou acabar com as finanças e a sanidade de Coppola. Mas é fascinante observar as imagens de Eleanor e perceber como o processo todo foi se desenvolvendo e como Francis passou do otimismo do início das filmagens ao desespero total ao perceber o buraco em que havia se metido.

"Apocalypse Now" é um épico de guerra inspirado livro "Coração das Trevas", de Joseph Conrad. Coppola decidiu filmar nas Filipinas porque conseguira - à custa de milhares de dólares, claro - apoio do ditador filipino, o sanguinário Ferdinand Marcos, que emprestou aviões e helicópteros das forças armadas locais.

A filmagem deveria durar 112 dias. Acabou se estendendo por 238 dias.

Os atrasos começaram depois das primeiras semanas de filmagem, quando Coppola, insatisfeito com a atuação de Harvey Keitel como Willard, decidiu despedi-lo e chamou Martin Sheen para o papel.

Coppola produziu o filme por meio de sua companhia, a American Zoetrope, e todos os custos dos atrasos acabavam saindo de seu próprio bolso. No início, ele parecia confiante: "Eu tive bastante sucesso com 'O Poderoso Chefão' 1 e 2, e acho que tenho cacife para conseguir mais dinheiro, se necessário'. Depois de algum tempo, quando percebeu o buraco financeiro em que havia se metido, ele muda de postura: "Isso é um desastre de 20 milhões de dólares! Estou arruinado!".

Não vou contar muitos detalhes do filme para não estragar a surpresa, mas a sucessão de infortúnios é impressionante e inclui um furacão, guerrilheiros ameaçando as filmagens e atores que sofrem enfartes no meio da filmagem.

O que mais impressiona no documentário é o crescente clima de insanidade que toma conta da produção. Em certo momento, Coppola diz: "'Apocalypse Now' não é um filme sobre o Vietnã. Ele é o Vietnã!".

Sam Bottoms, Frederic Forrest e Albert Hall contam que o consumo de drogas e álcool entre a equipe era normal. Para filmar as cenas em que os soldados navegam em um barco de patrulha por rios no coração do Vietnã, os atores tomaram ácido e anfentamina, cheiraram cocaína e beberam uísque. "Tudo aquilo parecia um sonho", lembra Forrest.

Mas a parte mais insana estava reservada para o final: Coppola convidou Marlon Brando para o papel de Kurtz, o militar misterioso que monta um exército particular no meio da floresta. E Brando, em 1979, já estava numa fase, digamos, "complicada". Era considerado pelos estúdios um ator desequilibrado e pouco confiável.

Dias antes de chegar às Filipinas, Brando ameaçou não aparecer e ficar com o milhão de dólares que Coppola já havia adiantado. E quando apareceu, estava obeso (o papel exigia que ele estivesse em boa forma física) e não só não tinha lido o roteiro, como nem havia lido "Coração das Trevas" e não tinha a menor ideia de quem era Kurtz. Para piorar, Brando contracenava em várias cenas com o único ator mais louco que ele: Dennis Hopper.

Numa das cenas mais impressionantes do documentário, Francis diz a Eleanor: "Eu tenho três semanas de filmagem com Brando e Hopper e cheguei à conclusão de que não vale a pena tentar seguir nenhum roteiro. Vou simplesmente pedir que eles improvisem e vamos filmar tudo. Com muita sorte, vamos conseguir algo que se assemelhe a um final. Porque eu não tenho um final para esse filme! É um desastre completo!"

André Barcinski