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Neil Young desenterra o disco que o assombrou por 46 anos

André Barcinski

André Barcinski é crítico do caderno "Ilustrada" e escreve também no caderno ?Comida?, ambos da ?Folha de S.Paulo?. É diretor e produtor do programa "O Estranho Mundo de Zé do Caixão", no Canal Brasil.

Colunista do UOL

23/06/2020 09h52

Resumo da notícia

  • Neil Young lança "Homegrown", disco gravado em um período difícil de sua vida e que ficou 46 anos na gaveta

Alguns dos grandes compositores do pop-rock fazem discos que são verdadeiras autobiografias musicais. Se você quer saber sobre a vida de John Lennon, Ray Davies, Stevie Wonder Joni Mitchell ou Raul Seixas, basta ouvir seus LPs em ordem cronológica, e tudo estará lá: os amores, as separações, as crises e as alegrias.

No caso de Neil Young, isso também é possível, mas demanda esforço por parte do ouvinte, porque a discografia do artista é um caos absoluto, com discos lançados fora de ordem e trabalhos importantes que são sumariamente engavetados. Para conhecer a vida de Young, seria necessário ordenar os discos não por ordem de lançamento, mas por ano de gravação.

Em 2017, Young lançou "Hitchhiker". Foi seu 38º disco de estúdio, mas poderia muito bem ter sido o nono, porque fora gravado em 1976. Ninguém sabe a razão pela qual Young decidiu guardá-lo numa gaveta por 41 anos.

Na discografia de Young há vários casos semelhantes: em 1973 e 1974, ele gravou dois discos sombrios e fantásticos: "Tonight's the Night" e "On the Beach". Neil adiou o lançamento de "Tonight's the Night" por dois anos, e "On the Beach" foi posteriormente renegado por ele, que só permitiu seu lançamento em CD quase 30 anos depois.

Neil Young acaba de lançar um "novo" disco, "Homegrown". Na discografia oficial do artista, é o 42º LP. Na realidade, foi o sexto, gravado em 1974. É um disco de sonoridade acústica e meio country, na pegada de seu maior sucesso comercial, "Harvest" (1972). A gravadora de Young, a Warner, estava babando por uma continuação de "Harvest", mas Young deu um banho de água fria nos engravatados e não permitiu o lançamento.

Fãs e colecionadores de Neil Young já se acostumaram a esse caos cronológico e adoram especular sobre as razões que levam Neil a tomar essas decisões.

No caso de "Homegrown", o mistério parece ter sido resolvido pelo próprio Neil, que disse, há mais de 20 anos, ao jornalista e cineasta Cameron Crowe: "Eu nunca lancei esse disco e provavelmente nunca o farei. Eu ficaria constrangido de lançá-lo. É um disco real demais." A outras pessoas, Young descreveu o álbum como "são grandes canções, mas posso viver sem elas".

O período de gravação de "Homegrown" foi um dos mais conturbados da vida de Young. O sucesso de "Harvest" fez dele um multimilionário e lhe deu carta branca para gravar o que quisesse. Artisticamente, ele estava no auge, mas sua vida pessoal e sua saúde estavam em pedaços. Young abusava de álcool e começou a usar cocaína e heroína.

Em 1972, logo depois de lançar "Harvest", ele perdeu o amigo e parceiro Danny Whitten, guitarrista do Crazy Horse. Whitten havia sido a inspiração principal da música "The Needle and the Damage Done" (em tradução literal, "A Agulha e o Dano Causado"), um dos hits de "Harvest".

Cansado dos constantes sumiços e atrasos de Whitten, então viciado em heroína, Young o despediu do Crazy Horse. Horas depois, Whitten morreu de uma overdose de bebida e Valium.

Poucos meses depois, outro choque: seu "roadie", Bruce Berry, morreu de overdose de heroína (Neil homenagearia Bruce com uma citação no verso de abertura da música "Tonight's the Night").

O casamento de Young com a atriz Carrie Snodgress acabou. Na mesma semana em que romperam oficialmente, a mãe de Carrie, que era muito ligada a Neil, cometeu suicídio.

Em 1972, Neil e Carrie tiveram um filho, Zeke, que nasceu com paralisia cerebral (Young teria outro filho com a mesma condição, Ben, nascido em 1978, do casamento de Neil com Pegi Young).

As canções de "Homegrown" nasceram nesse período. São, na maioria, músicas lentas e minimalistas, bem longe da violência de distorção e microfonia de suas "jams" com o Crazy Horse. Young é acompanhado por grandes músicos como Emmylou Harris, Ben Keith, Tim Drummond e dois monstros da The Band, o baterista Levon Helm e o guitarrista Robbie Robertson.

Quando a gravadora Warner ouviu as fitas, achou que tinha nas mãos um novo "Harvest". Mas um incidente curioso fez Neil mudar de ideia. O incidente é narrado em detalhes na antológica biografia "Shakey" (2002), de Jimmy McDonough - que Young, bem ao seu estilo bipolar, apoiou e colaborou, para depois processar o autor e tentar impedir a publicação do livro, praticamente levando McDonough à falência.

O autor conta que Young estava numa suíte de hotel com os amigos Richard Manuel e Rick Danko, da The Band, e dois integrantes do Crazy Horse, Ralph Molina e Billy Talbot. "Era tarde da noite", disse Young a McDonough. "Nós estávamos todos bem fodidos, ouvindo fitas de gravações e tocando." Molina conta: "Danko, Neil e eu estávamos em volta do piano, cantando, e o som parecia divino, porque quando você usa metanfetamina, as harmonias ficam todas lindas. Ouvimos a fita de 'Homegrown', e na sequência, Neil tinha gravado as faixas de 'Tonight's the Night'. Danko enlouqueceu: 'Neil, se você não lançar esse disco, você é um filho da puta (...). Vá com o mais pesado!'". Neil fez exatamente isso: lançou "Tonight's the Night" e engavetou "Homegrown".

Ao longo dos anos, Neil usaria cinco faixas de "Homegrown" - "Little Wing", "Star of Bethlehem", "Love is a Rose", "White Line" e "Homegrown"- em outros discos ("White Line", aqui numa bonita versão acústica com Young e Robbie Robertson, foi regravada, em versão pesadíssima, no álbum "Ragged Glory", de 1990). Mas as outras sete faixas permaneceram inéditas até agora.

Por que Young lançou um disco de tema e sonoramente tão pesados quanto "Tonight's the Night", mas proibiu "Homegrown", que não parece um trabalho tão violento e atormentado? Será que "Homegrown" desperta lembranças desagradáveis?

Como disse o próprio Young em "Powderfinger": "Pense em mim como aquele que você nunca compreendeu".

Uma ótima semana a todos.

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André Barcinski