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Sete ótimos documentários que não parecem documentários

Imagens do trabalho de maquiagem de participantes do documentário "The Act of Killing" (O ato de matar), indicado ao Oscar de melhor documentário em 2014 e que mostra e reencena o massacre de camponeses indonésios na década de 60 - Divulgação
Imagens do trabalho de maquiagem de participantes do documentário "The Act of Killing" (O ato de matar), indicado ao Oscar de melhor documentário em 2014 e que mostra e reencena o massacre de camponeses indonésios na década de 60 Imagem: Divulgação
André Barcinski

André Barcinski é crítico do caderno "Ilustrada" e escreve também no caderno ?Comida?, ambos da ?Folha de S.Paulo?. É diretor e produtor do programa "O Estranho Mundo de Zé do Caixão", no Canal Brasil.

Colunista do UOL

16/06/2020 06h00

Resumo da notícia

  • Sete excelentes documentários - a maioria facilmente disponíveis em Youtube e streaming - que usam narrativas inovadoras e experimentais

O cinema documental é um gênero pouco afeito a experimentalismos narrativos. Grande parte dos documentários que encontramos por aí se limitam a juntar depoimentos e cenas de arquivo. Alguns fazem isso com maestria, outros, nem tanto.

Aqui vai uma lista de sete excelentes documentários que tentaram, cada qual à sua maneira, contar histórias de uma forma nova e inovadora. Pelo menos cinco deles podem ser encontrados com facilidade no Youtube ou serviços de streaming.

Tower (Keith Maitland, 2016)

Um dos filmes mais inventivos e comoventes dos últimos anos, relata os 90 minutos de terror que resultaram na morte de 16 pessoas atingidas por tiros de um franco-atirador posicionado no topo da torre da Universidade de Texas em Austin, em agosto de 1966. O diretor Keith Maitland habilmente mistura cenas de arquivo, depoimentos e animações rotoscópicas para contar a história do crime e das pessoas marcadas pela tragédia.

Voyeur (Myles Kane e Josh Koury, 2017)

Disponível na Netflix, relata a investigação que o veterano repórter Gay Talese fez sobre Gerald Foos, o dono de um motel no Estado norte-americano do Colorado que espionava seus clientes por meio de paredes e tetos falsos. O fim é surpreendente, e a ideia de usar maquetes para reproduzir o motel dá ao filme um tom bizarro de "Viagens de Gulliver".

O Ato de Matar (Joshua Oppenheimer, 2012)

Uma maneira simplória de resumir "O Ato de Matar" seria dizer que é um documentário sobre os esquadrões da morte indonésios que aniquilaram cerca de um milhão de pessoas depois do golpe de Estado de 1965, que pôs na Presidência o sádico Suharto. Mas o filme é bem mais que isso. A maneira que Oppenheimer imaginou para relatar a barbárie foi das mais inventivas: ele convenceu alguns dos membros desses esquadrões da morte a reencenar, em forma de musical, faroeste e filme de aventura, as atrocidades que cometeram. Não há uma cena de arquivo ou violência real no filme. Tudo é estilizado, grotesco e multicolorido, mas as encenações são mais assustadoras que qualquer "thriller", porque refletem a visão de monstros reais e dão forma aos delírios psicopatas de cidadãos comuns que, amparados pelo Estado, puderam liberar seus instintos selvagens.

Leviathan (Lucien Castaing-Taylor e Véréna Paravel, 2012)

Um filme-ensaio, sem diálogos ou narração, que acompanha barcos pesqueiros que passam semanas em alto mar na costa norte-americana. Filmado inteiramente com câmeras GoPro, pequenas e à prova d'água, "Leviathan" é uma brutal experiência visual e sonora.

Superstar: The Karen Carpenter Story (Todd Haynes, 1987)

O grande Todd Haynes ("Velvet Goldmine", "Far From Heaven") - que, aliás, fez um filme que deveria ser visto por todos nessa época de pandemia, "Safe" - estreou no cinema com esse filme biográfico de 43 minutos sobre a trágica vida de Karen Carpenter, a cantora dos Carpenters que morreu de anorexia em 1983, aos 32 anos. Haynes mistura cenas documentais, música, narração e cenas filmadas em maquetes com bonecas Barbie representando Karen, seu irmão Richard, e os pais deles. O resultado é tão estranho quanto emocionante. Infelizmente, o filme só pode ser visto aos pedaços no Youtube, depois que Richard Carpenter processou Haynes por utilizar músicas dos Carpenters sem autorização.

Fast, Cheap and Out of Control (Errol Morris, 1997)

Esse é difícil achar, mas vale o esforço: Errol Morris ("Sob a Névoa da Guerra", "The Thin Blue Line") junta quatro homens estranhos - um topiário (jardineiro que faz esculturas em arbustos), um domador de leões, um cientista que constrói robôs e um pesquisador que dedicou a vida a estudar os ratos-toupeira-pelados da África - e conversa com eles sobre suas vidas e obsessões. Mas a forma como Morris mistura os depoimentos faz parecer que os quatro estão falando sobre a mesma coisa e complementando uns aos outros. Um brilhante exercício de montagem e jornalismo.

Human Remains (Jay Rosenblatt, 1998)

O título diz tudo: "Restos Humanos". O diretor Jay Rosenblatt escolhe cinco das piores criaturas que já pisaram na Terra - Hitler, Stalin, Mao Tsé-Tung, Francisco Franco e Mussolini - e faz perfis intimistas de cada um, usando fotografias, cenas de arquivo e narrações biográficas. Nada é dito sobre os crimes perpetrados por eles. Ver esses genocidas em situações pacíficas e conhecer detalhes curiosos sobre suas vidas (o que gostam de comer, seus passatempos, opiniões sobre artes e filmes), os tornam estranhamente "humanos" e mostram que o mal é, de fato, banal. Não é fácil achar o filme, mas o esforço vale a pena.

NOVIDADES: TWITTER E PODCAST

Caso alguém se interesse, fiz uma conta de Twitter: https://twitter.com/andre_barcinski. Será um espaço para divulgar meus trabalhos e dar dicas de filmes, livros e discos.

E está no ar a terceira edição do podcast que faço com os amigos Álvaro Pereira Jr., André Forastieri e Paulo Cesar Martin. Esta edição homenageia os artistas que perdemos durante a pandemia. Tem Curtis Mayfield, Aldir Blanc, Bill Rieflin, Tony Allen, Stranglers e muito mais. Ouça aqui.

Uma ótima semana a todos.

Visite meu site: andrebarcinski.com.br

André Barcinski