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Beatles, Stones, Elvis, Hendrix, James Brown: 5 histórias de Little Richard

André Barcinski

André Barcinski é crítico do caderno "Ilustrada" e escreve também no caderno ?Comida?, ambos da ?Folha de S.Paulo?. É diretor e produtor do programa "O Estranho Mundo de Zé do Caixão", no Canal Brasil.

Colunista do UOL

11/05/2020 18h15

Resumo da notícia

  • Little Richard, morto aos 87, colecionou histórias com lendas da música como Beatles, Stones, Hendrix, James Brown e Elvis. Aqui estão 5 das melhores.

Em uma carreira de quase sete décadas, Little Richard, morto em 6 de maio, aos 87 anos, viveu grandes histórias. Aqui vão cinco delas.

"ESSES BEATLES NÃO VÃO DAR EM NADA!"

Em 1962, o empresário inglês Don Arden (pai de Sharon Arden, futura Sharon Osborne, esposa de Ozzy Osbourne) contratou Little Richard para uma série de shows na Europa. Arden não sabia que, cinco anos antes, o cantor abandonara o rock para virar cantor gospel.

A epifania religiosa de Little Richard ocorrera em 1957, durante uma turnê na Austrália, quando ele olhou para o céu, viu uma bola vermelha e achou que era um sinal divino de que deveria largar aquela música do capeta. Não adiantaram as explicações de que a bola vermelha era o Sputnik, o satélite soviético lançado dias antes. Little Richard surtou e parou de cantar rock.

Corta para 1962: no primeiro show da turnê, o cantor Sam Cooke, atração de abertura, deixou o público extasiado com sua soul music empolgante. Richard entrou em seguida, e ninguém entendeu nada quando ele só cantou temas religiosos. Foi um fiasco completo.

Humilhado com a frieza da plateia e pouco acostumado a ser destronado por alguém em cima de um palco, Richard decidiu voltar a cantar seus grandes sucessos. E assim, tão de repente quanto largou, ele retornou ao rock and roll.

Naquele mesmo ano, Richard conheceu um quarteto de Liverpool gerenciado por Brian Epstein. "Brian me disse: 'Richard, eu tenho quatro rapazes, você se importaria de tirar uma foto com eles?'"

Numa entrevista de 1984, Richard detalhou o encontro: "Brian me ofereceu um percentual sobre o lucro dos Beatles se eu ajudasse a tornar a banda um sucesso nos Estados Unidos, mas eu recusei. Não achei que eles iam a lugar algum!"

ELVIS DÁ UMA FORÇA PRO "AMIGO" RICHARD

A morte de Little Richard reacendeu uma velha e polêmica teoria: a de que Elvis Presley teria, de alguma forma, tirado o lugar de artistas negros no início da explosão do rock.

Acho que a melhor maneira de responder a isso é com uma seleção de opiniões de artistas negros contemporâneos de Elvis. Foi o que fiz nesse artigo de 2018.

Little Richard disse: "Elvis foi um integrador, Elvis foi uma bênção. Eles não deixavam a música negra aparecer, e ele abriu as portas para a música negra."

Na segunda parte de sua monumental biografia de Elvis, "Last Train to Memphis - The Rise of Elvis Presley", o historiador Peter Guralnick conta que, em 1956, para encher a bola de Little Richard, Elvis cantava "Long Tall Sally" em shows e chamava Richard, em entrevistas, de "meu grande amigo", mesmo que os dois ainda não se conhecessem pessoalmente na época.

LITTLE RICHARD DÁ UMA CANTADA EM TOM JONES SOB O OLHAR DE KEITH RICHARDS

Em sua autobiografia "Vida", Keith Richards conta a primeira turnê dos Rolling Stones pelo Reino Unido, em 1963, quanto tocaram com Everly Brothers, Bo Diddley, Little Richard e Mickie Most.

Richards diz que aprendeu muito com Richard, especialmente observando sua presença de palco, que era incrível. O cantor deixava a banda tocando os primeiros compassos de "Lucille" por até dez minutos antes de entrar no palco e sempre o fazia por um lugar diferente: surgindo do balcão, correndo de um lado para o outro, deixando a plateia frenética.

"Em Cardiff, Tom Jones e a banda dele, The Squires, (...) entraram em formação no camarim de Little Richard, todos com paletós em padrão pele de leopardo e gola de veludo, um monte de babados no peito, uma verdadeira procissão de coroinhas, todos fazendo as mais caricatas mesuras para cumprimentar Little Richard. E o Tom Jones literalmente ajoelhou diante dele, como se fosse o Papa. E, naturalmente, Richard se comporta exatamente como reza o script e solta: ' Meus meninos!' Eles não sacam que Richard é uma bicha desvairada, e não sabem como reagir. 'Bom, bom, queriiiido, que pêssego da Geórgia você é!' (...) E ele me dá uma piscada e mexe a cabeça com satisfação, enquanto diz: 'Eu ADORO ou meus fãs! Ohhh, baby!'".

JIMI HENDRIX FAZ COMPRAS PRA MÃE DE RICARDINHO

Em 1959, a mãe de Richard, Leva Mae, morava num subúrbio de Seattle (noroeste dos Estados Unidos). Ela era vizinha da família Hendrix, e o filho mais velho dos Hendrix, Johnny, e seu irmão mais novo, Leon, costumavam fazer pequenos serviços para a Sra. Leva Mae.

Um dia, Leva Mae pediu que os meninos fossem ao mercado comprar alimentos. O filho estava vindo visitá-la, e ela queria preparar um belo almoço. Johnny e Leon sabiam muito bem quem era o filho de Leva Mae. Dali a pouco chega um carrão e, para delírio dos rapazes, desce Little Richard.

Dois anos depois, Johnny saiu de Seattle, alistou-se no Exército, foi expulso das Forças Armadas (por dormir no serviço, passar noites tocando guitarra em bares fora do quartel e ser flagrado se masturbando na latrina) e conseguiu trabalho tocando guitarra com Chuck Jackson, Isley Brothers e Wilson Pickett, até que, em 1964, já usando o nome artístico de Jimmy James, ganhou a cobiçada vaga de guitarrista na banda de apoio de Little Richard.

Veja um clipe de 1965 em que a banda de Little Richard acompanha os cantores Buddy & Stacy. Hendrix aparece ao fundo.

Mas o emprego não duraria muito: cansado de ver Jimmy James se exibindo em firulas como solar com os dentes e tocar a guitarra nas costas, Little Richard o despediu da banda: "Aqui só tem lugar para uma estrela!".

Alguns meses depois do pé na bunda, Jimmy James foi para a Inglaterra, mudou de nome para Jimi Hendrix e montou um trio chamado The Jimi Hendrix Experience.

JAMES BROWN VIRA O "LITTLE RICHARD COVER"

Quando "Tutti Frutti" estourou, em 1955, Little Richard foi chamado a Los Angeles pela gravadora para trabalhar em novas faixas e simplesmente abandonou sua banda, The Upsetters, mesmo com vários shows agendados.

Para não perder os shows, o empresário de Richard rapidamente contratou um "cover" para seu lugar, um cantor que era fã de Little Richard a ponto de conhecer todo o seu repertório e imitar os seus trejeitos: James Brown.

Na biografia de Brown, "The One - The Life and Music of James Brown", RJ Smith escreve: "Algumas vezes, no meio dos shows, alguém dizia: 'Esse cara não parece o Little Richard, ele é mais escuro!' No Alabama, o público descobriu o trambique e começou a gritar: 'Nós queremos Richard!' Brown ficou tão possesso que decidiu dar o seu máximo: pulou no palco feito um alucinado, deu cambalhotas, subiu no piano e se jogou no chão fazendo 'splits' de bailarino. Quando o show acabou, o público estava aplaudindo o impostor".

Um tempo depois, quando a carreira de James Brown deslanchou, foi a vez de ele largar os Upsetters, que prontamente arrumaram outro cantor. Um tal de Otis Redding.

"HISTÓRIA SECRETA DO POP BRASILEIRO" CHEGA AO AMAZON PRIME

Peço desculpas pela autopromoção, mas vários leitores escreveram perguntando como poderiam assitir à minha série documental "História Secreta do Pop Brasileiro". Ela já estava nas plataformas Now, Vivo Play e Looke, e aqora chegou à Amazon Prime.

Uma ótima semana a todos.

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André Barcinski