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Little Richard: o maior rebelde do rock

Little Richard, um dos maiores astros da música morreu hoje aos 87 anos - Divulgação/Facebook
Little Richard, um dos maiores astros da música morreu hoje aos 87 anos Imagem: Divulgação/Facebook
André Barcinski

André Barcinski é crítico do caderno "Ilustrada" e escreve também no caderno ?Comida?, ambos da ?Folha de S.Paulo?. É diretor e produtor do programa "O Estranho Mundo de Zé do Caixão", no Canal Brasil.

Colunista do UOL

09/05/2020 12h32

Não tem pra Keith Richards, Sid Vicious ou Jerry Lee Lewis: quando o assunto "rebeldes do rock" surgir, um nome está anos-luz à frente de todos os outros: Little Richard.

Ricardinho foi da geração pioneira do rock and roll. Primeira metade dos anos 1950, e ele, Chuck Berry, Jerry Lee Lewis, Carl Perkins e outros monstros sagrados desbravaram os novos sons e inventaram a primeira música feita para adolescentes.

Não foi fácil. O rock era perseguido por conservadores, considerado música de delinquentes. E no fundo era mesmo: performers insanos, Richard, Berry, Lewis e Perkins chocavam plateias com o ritmo "selvagem" de sua música e seu comportamento de palco agressivo.

O rock foi um marco do conflito geracional do pós-Segunda Guerra e ajudou a quebrar barreiras raciais. Era uma música surgida de ritmos negros até então relegados à categoria de "race records" ("discos de raça"). Os pioneiros do rock abriram a mente de muitos jovens brancos para uma música que eles até então desconheciam.

Só por fazer parte dessa primeiríssima geração do rock, Little Richard merecia entrar no panteão do gênero. Mas ele foi além: foi o primeiro a adicionar à agressividade sonora do rock um tema até então impensável: a homossexualidade.

Little Richard se apresenta no Free Jazz Festival de 1993, em São Paulo - LUIZ PRADO/ESTADÃO CONTEÚDO/AE/ - LUIZ PRADO/ESTADÃO CONTEÚDO/AE/
Little Richard se apresenta no Free Jazz Festival de 1993, em São Paulo
Imagem: LUIZ PRADO/ESTADÃO CONTEÚDO/AE/

Little Richard era gay. Hoje ninguém se espanta com isso. Mas no início dos anos 1950, quando ele começou a tocar em clubes do sul dos Estados Unidos, negros ainda eram linchados e enforcados em árvores. Negros gays, então, melhor nem pensar.

Ricardinho nunca escondeu sua sexualidade. Seu primeiro hit, "Tutti Frutti" (1955), era uma carta de amor gay. A letra original foi considerada tão pesada e ofensiva que a gravadora chamou uma letrista para polir os versos originais:

Tutti Frutti, good booty
If it don't fit, don't force it
You can grease it, make it easy

Tutti Frutti, bunda gostosa
Se não cabe, não force
Você pode lubrificar, aí fica fácil

Não era a única surpresa da canção. Segundo o estudioso de História Negra Americana WT Lhamon, citado no livro "Breaking Down the Walls of Heartache: A History of How Music Came Out", de Martin Aston, alguns personagens da letra de "Tutti Frutti", como Sue ("She knows just what to do" / "Ela sabe exatamente o que fazer") e Daisy ("She almost drives me crazy" / "Ela quase me deixa louco") são eufemismos para travestis.

Um ano depois de "Tutti Frutti", Ricardinho lançou "Long Tall Sally", cuja letra fazia menção a uma drag queen:

Well, I saw Uncle John with bald-headed Sally
He saw Aunt Mary coming and he ducked back in the alley

Bom, eu vi Tio John com Sally careca
Ele viu Tia Mary chegando e se escondeu no beco

Ainda segundo WT Lhamon, a "carequice" de Sally se refere a uma drag sem peruca, enquanto "Aunt Mary" era uma gíria gay para uma drag queen possessiva.

Nos anos 1950, quando o tema ainda era tabu, Little Richard chegou a dizer que a homossexualidade era contagiosa, e que ele havia sido infectado de um rapaz que era balconista de um armazém. Mas depois abriu o jogo: em 1987, disse em entrevista ao cineasta John Waters: "Eu sou o gay fundador. Fui eu que comecei tudo, contando tudo ao mundo".

Poucas letras de rock dos anos 1950 eram tão viscerais. E Little Richard complementava a radicalidade de seus temas com uma performance de palco inigualável: Ricardinho atacava o piano com uma agressividade nunca vista, o suor caindo de seu topete como uma cachoeira. Era lascivo, era perigoso, era libertador.

Little Richard gostava de se chamar "Originator" ("Originador"), o marco zero, o oráculo, a pedra fundamental do rock and roll. Mas ele foi muito mais: em quase 70 anos de carreira, foi um artista dos mais revolucionários e radicais.

Não contente em ajudar a inventar um gênero que difundiu a música negra para o mundo e criar o grito primal do rock - "Wop Bop A Loo Bop A Lop Bam Boom" - Ricardinho foi o maior transgressor de um gênero musical transgressor por natureza. Ninguém, nunca, chegará perto dele.

André Barcinski