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"A Máfia dos Tigres" é bizarro e divertido: só não chame de documentário

Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix
André Barcinski

André Barcinski é crítico do caderno "Ilustrada" e escreve também no caderno ?Comida?, ambos da ?Folha de S.Paulo?. É diretor e produtor do programa "O Estranho Mundo de Zé do Caixão", no Canal Brasil.

Colunista do UOL

27/04/2020 12h36

"A Máfia dos Tigres", da Netflix, é um grande sucesso de público, e não é difícil entender as razões de sua popularidade.

A minissérie une elementos de vários gêneros que sempre fizeram sucesso na TV: novelas, "reality shows", programas policiais tipo Sikera Júnior e exploração do Mundo Cão, tudo embalado por uma estética kitsch de novela bíblica da Record. Adicione sexo, crime, animais fofinhos e feras assassinas, e você tem uma receita infalivelmente apelativa.

O que não tira os méritos da empreitada. O produto é muito bom, inteligentemente realizado e feito por quem sabe manipular o telespectador. Só não chamem de documentário, por favor.



No fim do segundo episódio, há uma cena absolutamente constrangedora e que evidencia a tática apelativa dos realizadores: durante uma entrevista com um antigo funcionário de Joe Exotic, o sujeito casualmente menciona que o primeiro marido de Carole Baskin, um milionário chamado Don Lewis, havia sumido misteriosamente. O diretor da minissérie, Eric Goode, aparece ao lado do sujeito e diz, fingindo surpresa: "Como assim? O marido dela sumiu?". O episódio seguinte é inteiramente dedicado à historia do sumiço de Don e das suspeitas - repito, SUSPEITAS - de que Carole Baskin teve algo a ver com isso.

Ora, alguém precisa ser muito idiota para achar que um cineasta que está trabalhando num projeto desses não conhece os detalhes da vida de seus entrevistados. É óbvio que o diretor Goode sabia do sumiço do marido de Baskin, um caso que teve ampla repercussão nos Estados Unidos, com reportagens na revista "People" e em programas policiais de TV como "Hard Copy", e por isso é inaceitável que Goode se preste ao papel de fingir surpresa com uma "revelação bombástica".

As cascatas, omissões e pistas falsas se sucedem aos montes, e a cada cena supostamente "documental" claramente armada para atiçar o espectador, meu interesse por "A Máfia dos Tigres" foi diminuindo. No quinto episódio, quando Joe Exotic se candidata a governador de Oklahoma, há uma cena em que ele assiste na TV à cobertura da contagem de votos, e Joe aparece na tela em terceiro lugar, com 19% dos votos. O espectador certamente pensou: "Nossa, como é que um louco desses teve 19% dos votos do Estado de Oklahoma?". O que a minissérie convenientemente "esquece" de explicar é que Joe Exotic nem chegou a disputar a eleição para governador. A eleição mostrada é a primária que escolheria o candidato do nanico Partido Libertário. Joe foi o terceiro colocado (de três!) na primária do Partido Libertário. Na verdadeira eleição para governador, o candidato Libertário acabou com pouco mais de 3% dos votos.

Enfim, "A Máfia dos Tigres" é um entretenimento de primeira, um "fast food" audiovisual que cai bem em noites de quarentena com um balde de pipoca. Mas não dá para chamar isso de documentário.

Uma ótima semana a todos.

Veja meu site: andrebarcinski.com.br

André Barcinski