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Héctor Zamora: "É possível escapar de todas as regras que implicam no jogo da arte"

Héctor Zamora / Divulgação

Cena de Recanto das Crianças gravada na praia de São Vicente (SP)

Cena de Recanto das Crianças gravada na praia de São Vicente (SP)

Talvez nenhum outro artista integrante da 27ª Bienal de São Paulo tenha tido tantas experiências conflitantes durante a preparação da mostra como o mexicano Héctor Zamora. "O tema 'Como Viver Junto' foi interessante e fez com que eu trabalhasse em direções novas, frescas e inesperadas. Provocou a convivência com artistas de São Paulo, que foi fantástica", afirma. Na abertura da mostra, no entanto, Zamora estava no auge de seu desapontamento: quinze dias antes, uma obra sua fora vetada, apesar de ter sido autorizada anteriormente.

Quando começou a pensar no que faria para a Bienal, em abril deste ano, Zamora tinha dois planos - uma intervenção no parque, mais precisamente no lago do Ibirapuera, e uma intervenção dentro do prédio. O projeto do lago, que previa a instalação de ilhas flutuantes com canteiros de aguapés -planta aquática usada para purificar águas poluídas-, foi vetado. O veto, contudo, impulsionou a realização de outro projeto na praia Recanto das Crianças, em São Vicente.

Foi realizada também uma intervenção no prédio, em colaboração com a artista Lucia Koch. Os dois construíram um muro de elementos vazados, com peças que tiveram dimensões e ângulos alterados em relação aos blocos usados na construção civil, criando um formato ondulado. O trabalho está na subida da rampa do pavilhão Ciccillo Matarazzo. "A peça consegue ser um produto exemplar de união de trabalhos de artistas que, vinculados pelo uso do espaço e dos elementos, tensionaram suas linguagens, vivendo e criando juntos uma ordem, uma boa ordem", diz Zamora.

Na entrevista a seguir, concedida na última terça (7), um mês depois da abertura da mostra, Zamora, já no México, faz um balanço do evento, conta como se desenvolveram seus projetos para a Bienal, sua surpresa com o cancelamento da permissão ao projeto dos aguapés no lago e como o veto fez com que sua instalação incompleta tivesse nova força e significados. Atualmente, o artista prepara uma exposição para o Museu de Arte Contemporânea de San Diego, Califórnia, que deve abrir no início de 2007.

Leia a seguir trechos da entrevista:


Projeto para a 27ª Bienal

Apresentei três projetos: "Geometrias Daninhas", em colaboração com Fernando Limberger e Floriana Breyer; depois, em decorrência do veto, "Praia Recanto das Crianças", com vários artistas; e "Uma Boa Ordem", em colaboração com Lucia Koch.

Projeto "Geometrias Daninhas"

Estruturalmente, o projeto "Geometrias Daninhas" é uma intervenção no lago do parque Ibirapuera baseada na implantação de 2.200 metros quadrados de aguapés contidos em 51 estruturas octogonais flutuantes formadas por uma borda de tubo de PVC de ¾ de polegada. Cada octógono teria capacidade aproximada para 44m² de aguapé. A forma octogonal respondeu a dois fatores. Em primeiro lugar, para que a intervenção estivesse conectada conceitualmente aos padrões orgânicos de reprodução do aguapé, que é rizomática. Eles crescem até que se separam alguns brotos que flutuam livremente até chegar a outro ponto, onde se fixam e assim começam uma nova colônia. Uma vez colocados na água seguindo um plano previamente desenhado, os octógonos foram deixados livres na correnteza e desta forma o padrão final de implantação respondeu a um comportamento orgânico de flutuação sobre o lago. Para a colocação deles foram usados botes, e os octógonos foram ancorados no fundo do lago com blocos de cerâmica e corda.

A idéia

Fiz uma primeira visita a São Paulo em abril de 2006. Ao conhecer o espaço do prédio da Bienal e o parque que o rodeia surgiram as primeiras idéias sobre o possível projeto a realizar. No primeiro encontro com a curadora Lisette Lagnado, discutimos sobre um projeto de intervenção no prédio e uma possível intervenção no lago do Ibirapuera. Não existia nada concreto, mas nesta primeira visita também encontrei pela primeira vez Lucia Koch, Marilá Dardot e Fernando Limberger, entre outros.

Uma vez de volta à cidade do México, comecei o trabalho de pesquisa para a intervenção. Quase de imediato foi eliminada a possibilidade de intervenção no prédio. Então o lago e o parque do Ibirapuera me pareceram os lugares adequados. É o espaço público mais plural que encontrei dentro da cidade de São Paulo. O lago se torna um eixo do espaço do parque. É um espaço maior vazio no coração de São Paulo. O lago é um espaço aberto, como um respiro fresco dentro da paisagem urbana da cidade. As pessoas utilizam o parque, tomam sol, praticam esportes, meditação, descansam, namoram, comem, convivem, dormem, contemplam sua flora e sua fauna, sem discriminações sociais. Foi neste sentido que me seduziu para trabalhar nele, e formalmente se converteu em um espaço privilegiado para um exercício de reflexão e discussão pública sobre os pontos em que tocaria no trabalho.

A pesquisa apontou para a produção de uma série de ilhas flutuantes sobre o lago onde se poderiam plantar alguns tipos de vegetação natural. O projeto naquele momento estava mais ligado às premissas de modificação do espaço em um sentido fantástico. As ilhas sobre o lago seriam como pequenos oásis para as plantas "daninhas". Era uma idéia relacionada à "Fada Morgana" e historicamente à lenda da mitologia celta da dama do lago, a senhora que regia Ávalon, a ilha da antiga sabedoria, onde as plantas crescem espontaneamente dando frutos durante o ano todo. O trabalho continuou a evoluir com minha chegada a São Paulo em agosto de 2006. A peça terminou por definir-se quando entrei em contato com o artista Fernando Limberger, que iniciou uma relação muito estreita com o projeto na investigação sobre as possíveis plantas a utilizar, por ele ter experiência como artista com a utilização de plantas. Ao mesmo tempo se iniciou o contato com Floriana Breyer, que também tem experiência como artista com trabalhos com plantas. Ao mesmo tempo em que se davam estas discussões técnicas com a equipe de produção da Bienal, se iniciaram os primeiros contatos com as autoridades, que sugeriram o uso de plantas aquáticas para evitar problemas com plantas terrestres.

Neste momento o projeto se definiu pelos aguapés, pois durante a pesquisa eles tinham surgido como possibilidade. Assim começou um teste da estrutura e das possíveis plantas aquáticas. A prova se realizou no lago de Ibirapuera durante 4 semanas, período que permitiu observar o comportamento de crescimento da planta, assim como sua reação às águas contaminadas do lago, sua convivência com a flora e a fauna do lago.

Desta forma foi possível eleger o aguapé como a planta mais adequada e controlável e com os testes foi possível mapear os riscos, melhorar as estruturas que conteriam os aguapés e desenvolver um plano de manutenção e monitoramento para que a instalação fosse 100% segura para o lago. Neste momento, se formalizou o projeto e ele foi enviado às autoridades que, em princípio de setembro, deram sua aprovação. Em 15 de setembro, as estruturas já estavam sendo montadas conforme o plano.

O aguapé no conceito da instalação

Um dos pontos do projeto era gerar ilhas flutuantes onde a vegetação não-ornamental crescesse de maneira livre, embora em estrutura contida. Isso teria uma escala grande e traria elementos novos e estranhos à paisagem do lago. Ilhas que não foram construídas para o homem, e sim para uma planta daninha. É a base conceitual do projeto: o tema da Bienal é "Como Viver Junto" e, nesta, peça a relação de convivência não estava na convivência entre os humanos, e sim entre o ser humano e a natureza. O aguapé é um claro exemplo da convivência que podemos estabelecer com uma planta. Planta endêmica da Amazônia, tem papel muito importante como purificador e oxigenador da água na cadeia alimentar para os herbívoros, além de suas raízes servirem como refúgio para peixes, moluscos e crustáceos que nela crescem ao abrigo dos predadores. Ao ser introduzido irresponsavelmente em lagos e rios como planta ornamental, num meio em que não haja fatores de controle (flora, fauna e clima), o aguapé se torna uma praga, por causa de seu rápido crescimento (15% ao dia em boas condições). Assim, pode acabar com lagos e rios em alguns anos. Outro fator que faz acelerar seu desenvolvimento é a poluição. Se introduzido responsável e controladamente em rio ou lago contaminado pelo ser humano, o aguapé tem capacidade de ser um filtro natural que absorve até metais pesados, ao mesmo tempo oxigena a água ajudando a recuperação de sua fauna. Por isso, é usado em planos de tratamento de água.

O aguapé faz coexistirem dois extremos na relação com o ser humano: é daninho e ao mesmo tempo benéfico e até considerado ornamental por sua bela flor. A idéia era contaminar o lago Ibirapuera (o mais contaminado de São Paulo) com aguapé que, ao ser introduzido de maneira controlada, ajudaria a descontaminar o lago. Um texto que influenciou muito o projeto foi "Em Defesa do Aguapé", de José Lutzenberger (Ecologia - Do Jardim ao Poder. L&PM Editores Ltda. Porto Alegre, 1985).

O veto

Depois de trabalhar durante um mês nos preparativos da montagem e na colocação das estruturas sobre o lago - já com a autorização das instituições envolvidas na regulação do espaço público do parque Ibirapuera - no dia 25 de setembro, menos de 15 dias antes da inauguração ao público da 27ª Bienal, a direção da Divisão de Manejo e Conservação dos Parques Municipais, órgão da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (SVMA), decidiu cancelar a permissão para a plantação do aguapé no lago do Ibirapuera, no mesmo dia que se iniciava a montagem das plantas.

Nesse dia, houve uma discussão à beira do lago, onde toda a equipe de montagem defendeu o projeto, pois todos os argumentos para o cancelamento do projeto estavam já contemplados no esquema de manutenção e monitoramento. Neste dia chegamos a um acordo de colocar um sistema adicional de segurança aos módulos octogonais, sistema que seria avaliado no dia seguinte pelo diretor desta divisão.

No dia 26 de setembro de 2006, ao meio-dia, chegamos ao lago para fazer os testes e, para nossa surpresa, recebemos a notícia de que o projeto estava vetado e que não haveria nenhuma possibilidade de realizá-lo. Tristemente tive que aceitar a posição da burocracia e não tive como rebater os argumentos improváveis de que o projeto poderia causar uma catástrofe ecológica no parque Ibirapuera.

No dia 27 de setembro, saiu um artigo na seção de ambiente de "O Estado de S.Paulo", onde Reiner Marcos Rotermund, diretor da Divisão de Manejo e Conservação dos Parques Municipais, dava sua versão sobre o acontecido. Nela, ele indiretamente tachava meu trabalho de pouco profissional. No mesmo dia, falei com um repórter do mesmo jornal e no outro dia saiu um artigo com minha explicação sobre o acontecido, que explicava como, de maneira irresponsável e pouco profissional, foi vetada a instalação a menos de duas semanas da inauguração da Bienal, cancelando uma permissão que havia sido outorgada com mais de um mês de antecedência. Soube então que minha manifestação causou desconforto ao presidente da Bienal. E isso fez com que a equipe de imprensa da Bienal impedisse as entrevistas que a imprensa queria fazer comigo. Eu mesmo tive de procurar alguns jornalistas para falar sobre o fato. Depois da inauguração da Bienal, a notícia sobre o veto chegou ao México e foi difundida nos principais noticiários culturais do Rádio e da TV.

Nova força

A peça ficou incompleta. Atualmente flutuam 51 octógonos vazios no lago. A peça tomou um novo caminho. Sua ressonância e seu discurso mudaram para tomar nova força a partir do veto, evidenciando de maneira mais contundente como as relações que estabelecemos com a natureza podem ter um peso político muito forte. A maioria dos projetos que realizei tem um comportamento muito orgânico desde sua concepção até sua realização e conclusão, motivo pelo qual é comum que acabem tomando vida própria e se movam e gerem situações que fogem ao meu controle. O alcance do projeto e sua ressonância na reflexão pública e dentro do meio da arte são até agora desconhecidos para mim.

Projeto "Praia Recanto das Crianças"

Depois de receber a noticia do cancelamento do projeto, decidi realizar um projeto que estava planejando para mais tarde. "Praia Recanto das Crianças" foi uma intervenção na praia de mesmo nome em São Vicente, São Paulo. Era uma brincadeira-festa na praia: as pessoas poderiam usar as câmaras de pneus para flutuar e desfrutar de um dia de convivência, construindo uma estrutura flutuante cuja forma seria determinada pelos participantes e influenciada pelas marés e correntes marítimas. Foi feita em mutirão com amigos de São Paulo e as crianças de São Vicente.

Projeto "Uma Boa Ordem"

Durante minha primeira visita a São Paulo, conheci a artista Lucia Koch, que me apresentou seu trabalho e o de outros artistas. Convivemos e falamos sobre nossa participação na Bienal. A partir deste encontro e em conversas posteriores por e-mail Lucia me ofereceu a possibilidade fazer um trabalho com ela. A premissa básica seria trabalhar com elementos vazados que se usam na construção para criar muros permeáveis à luz e ao vento. No trabalho de Lucia já existiam antecedentes desta utilização e no meu caso eu acabara de realizar uma peça na cidade do México intitulada "Divisões", onde usei ladrilhos de cimento para construir uma série de muros.

Um dos pontos importantes do projeto era poder gerar o muro em estrutura autoportante, ou seja, que não requisitasse suporte adicional.
Decidimos alterar as dimensões normais dos elementos vazados. Alteramos a profundidade do elemento vazado, de 10 cm a 35 cm, e o ângulo de corte: no mercado existe o corte reto (90º) e o diagonal (45º) e fizemos os de 30º e 60º.

Com sua nova profundidade ele obteve suficiente estabilidade estrutural. Os diferentes cortes também ajudaram a deformar a linearidade do muro e novas possibilidades. Foi também definitiva a decisão de usar o "elemento vazado" com o padrão de "onda", o que permitiu um jogo de deformações visuais do padrão ao longo do muro.
Seu caráter orgânico predominou em todos os passos. Para o desenvolvimento da geometria final do projeto, trabalhamos com um modelo de madeira escala 1:5, um processo que foi muito rico e divertido. O muro final tem aproximadamente 10m com altura de 3m. O lugar escolhido para sua exibição buscava interferir na circulação. Na minha conclusão pessoal, a peça consegue ser um produto exemplar da união de trabalhos de artistas que, vinculados pelo uso do espaço e dos elementos, tensionaram suas linguagens vivendo e criando juntos uma ordem, uma boa ordem.

Balanço da 27ª Bienal de São Paulo

Gostei muito em geral da presença de artistas jovens brasileiros. Isso me deu um panorama variado de diferentes caminhos que estão sendo seguidos nos discursos artísticos. Gostei muito de ver trabalhos de várias partes do Brasil e que não tudo esteja acontecendo no Rio e em São Paulo. No trabalho destes jovens artistas há um frescor que, em alguns instantes, me fez pensar que é possível escapar de todas as regras que implicam no jogo da arte.

Papel das Bienais

Continuam sendo bons fóruns para exibição de arte. Creio que as fórmulas seguidas e o aparato burocrático que as amparam estão baseados em sistemas arcaicos e isto se destaca nos momentos em que os artistas com propostas arriscadas geram colapso na organização. Também é interessante ver que com toda a experiência seguem cometendo erros técnicos e logísticos, o que faz com seja sempre uma odisséia conseguir expor nestas mostras. Curatorialmente, creio que se pretende abarcar tanto que, no momento da exposição, é muito comum encontrar um vazio no discurso curatorial, sobretudo quando se pretende dar um panorama da arte através de um tema e apresentando centenas de trabalhos.

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