30/10/2009 - 19h26
Professor brasileiro prepara livro sobre obra de autor luso
Por Raul M. Marques, da Agência Lusa
Lisboa, 30 out (Lusa) - Em 1982, Vinícius Lopes Passos comprou, em uma livraria de Belo Horizonte, um livro que dificilmente acreditaria encontrar no local: "Bardo", do português José Amaro Dionísio. Vinte e sete anos depois, fez da obra a base de sua tese de doutorado.
Na verdade, "Bardo" é um dos pilares do trabalho que o professor universitário brasileiro defendeu na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), o qual chamou de "Trânsitos: fragmentos e dispersões em João Gilberto Noll e José Amaro Dionísio". A outra base é "A fúria do corpo", do brasileiro João Gilberto Noll.
Os universos dos dois romances, por acaso escritos no mesmo ano, 1981, têm pontos de contato, se distanciam em outros, mas em ambos há a marca de dois fortes temperamentos literários. São, nas palavras de Passos, "dois autores, dois mundos, duas torções literárias".
"Para mim, Noll e Dionísio são casos excepcionais. A primeira fase de Noll segue se desprendendo do viés jornalístico do romance e recupera um barroquismo que difere do que se fez em outros países da América Latina (...). José Amaro Dionísio fez, ao contrário da prolixidade estonteante de Noll, enorme síntese de gêneros", afirmou o professor brasileiro à Agência Lusa.
Segundo Passos, o autor português, "em toda a sua obra, a anterior e a posterior a 'Bardo', não se rende à grosseria do proselitismo e situa o corpo sob o domínio da problemática filosófica -metafísica e existencial".
O acadêmico disse estar surpreso com o silêncio da crítica em torno da obra do escritor, situação diferente da que acontece com o trabalho de Noll no Brasil. "'Bardo' não é tarefa fácil. Há nele o denso trabalho de elaboração estética que esboroa a realidade e, de certa forma, atenua a paisagem política para a qual acena - o fim do salazarismo, a Revolução dos Cravos, a ficção das revoluções", ressaltou.
Em 1982 ou talvez no começo do ano seguinte, quando comprou o livro, Passos não conhecia "Bardo" nem alguma vez tinha ouvido falar de seu autor. Ele também ficou surpreso, na época, com o fato de a obra, "uma despretensiosa primeira edição, em papel pardo", da editora & etc, ter chegado a Belo Horizonte com "tamanha rapidez".
"Ao longo dos anos, 'Bardo' foi meu livro de cabeceira, espécie de 'livro de horas', absorvendo dele mais a atmosfera lírica do que as esparsas referências literárias", acrescentou.
Das 22 sequências nas quais o romance se divide, a 16ª é a de que mais gosta. "Sempre me tocou e ainda me toca pela profundidade com que se tratam o homem, o vivido, a morte...".
Sobre José Amaro Dionísio, e apenas ele, Vinícius Lopes Passos prepara um livro que já tem título - "Com o cão dentro de casa" - e no qual sugere que o escritor "é cão de afecções, nele permeiam a docilidade e a ira, refletindo sobre o tempo, a cidade e o ser".
Perguntado sobre o que aproxima e o que distancia as literaturas portuguesa e brasileira, o professor explica que "os movimentos de aproximação ainda são restritos, permeados pela academia, o que nem sempre gera, a não ser no meio".
"Infelizmente somos ignorantes de uma e outra", acrescentou.
O professor também é categórico em outro ponto: "A literatura que não se rende ao apelo mercadológico continua a tratar profundamente os grandes temas, o que interessa ao fim e ao cabo, em um e outro lugar".
No Brasil, segundo ele, assiste-se a um "momento de reelaboração das formas" e constata-se "vária inclinação - do novo realismo na prosa, dissecando as mazelas sociais (...) - a uma poesia refinada do ponto de vista psicológico, filosófico e formal".
No caso de Portugal, e "salvo engano", o professor acredita que "muito se tem produzido também no sentido da reelaboração das formas".
"As releituras da produção poética e ficcional tendem a fazer um acerto de contas. Não nos desfazemos do passado impunemente, há fantasmas a exorcizar. Assim, as novas dicções se forjam rumo ao arejamento, ampliando os horizontes, misturando 'linhagens', revirando o baú. Autores esquecidos, refugados e rechaçados ressurgem, há todo o interesse em ouvir suas vozes abafadas. Percursos novos se constituem insólitos", ressaltou.