22/10/2009 - 15h33
José Saramago afirma ser incapaz de acreditar em Deus
Barcelona, 22 out (Lusa) - O escritor português José Saramago diz ser incapaz de acreditar em Deus, "mesmo fazendo um esforço mental", em entrevista ao jornal La Vanguardia, da Catalunha.
Numa extensa entrevista publicada nesta quinta-feira, Saramago reafirma ser ateu e analisa o conteúdo do livro "Caim", sua obra mais recente, e explica que recorreu à Bíblia "como instrumento para armar a história".
"Nunca tive qualquer dúvida sobre as consequências enormemente negativas e nefastas da existência das religiões, que inevitavelmente se opõe umas às outras", diz.
"Matar, matar, matar. Foi isso que fizeram ao longo da história e não há nada a acrescentar ao seu historial sangrento", ressalta.
Admitindo não ser um escritor de temas religiosos, Saramago explica que isso não significa que a religião não lhe interesse.
"Ainda que não seja crente, a religião está no ar, respiramo-la. Não se pode ignorar", declarou, recordando a polêmica em torno à sua obra "Evangelho Segundo Jesus Cristo" e à reação do então primeiro-ministro, Cavaco Silva, que o fez abandonar o país.
"Até um livro sagrado como a Bíblia permite - e exige - que tentemos lê-lo por outro lado. E esse outro lado sempre retifica as ideias que temos, assim como confirma outras", afirma sobre a obra.
Nessa interpretação da Bíblia, "Caim é humilhado por Deus e mata o seu irmão porque não pode matar Deus, que era o que queria".
Estilo
Apesar do dramatismo do tema, o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura destaca que o ritmo de algum humor da primeira frase do livro se mantém até o final, pelo que esta obra "tem muito mais humor (?) que qualquer das obras precedentes".
Saramago se diz ainda "surpreendido" pela presença da sexualidade no livro, um tema sobre o qual se diz "muito discreto", normalmente.
"Aqui, porém, a figura de Lilith era importante, é a mulher má. Por isso decidi carregá-la de uma sensualidade extrema. Estas páginas eróticas são curiosas em mim, mas aí estão, e as pessoas dizem que não ficou mal", revela.
Já sobre a violência, "não foi necessário acrescentar nada à violência que se encontra nos textos bíblicos originais", ainda que tenha "ridicularizado algumas situações".
"Nós, os homens, criamos Deus à nossa imagem e semelhança, não ao contrário. Por isso é tão cruel, má pessoa e vingativo. Deus e o demônio não estão no céu nem no inferno, estão na nossa cabeça. Primeiro criamos Deus e logo nos escravizamos a ele", conclui.