UOL Entretenimento Notícias

21/10/2009 - 17h07

Muito não se escreveu por medo da Inquisição, diz Saramago

Lisboa, 21 out (Lusa) - O escritor José Saramago confessou nesta quarta-feira que o fato de já não existirem fogueiras do Tribunal da Inquisição foi "uma razão forte" para escrever o livro "Caim", e recordou que "muitas coisas não se escreveram por medo".

"Há pessoas que dizem que tenho coragem. Não sou covarde, mas a segunda razão forte para ter escrito é que já não há fogueiras [da Inquisição]", admitiu o Nobel da Literatura durante uma entrevista coletiva realizada na sede do Grupo Leya, em Alfragide, arredores de Lisboa.

A forte polêmica suscitada no último final de semana - devido às declarações de Saramago quando do lançamento do livro, em Penafiel, e que provocou reações da Igreja Católica e da comunidade judaica em Portugal - encheu de jornalistas a sala da conferência de imprensa, com as televisões transmitindo ao vivo.

José Saramago, acompanhado pelo editor da Caminho, Zeferino Coelho, respondeu às perguntas durante cerca de uma hora, e reafirmou todas as ideias sobre a Bíblia e sobre o Deus dos cristãos: "O Deus da Bíblia é vingativo, rancoroso, má pessoa e não é de fiar", conclusões retiradas da leitura de textos do Velho Testamento, nos quais encontrou relatos "de extrema violência".

Porém, apesar das fortes reações da Igreja Católica - no seu entender, "a grande surpresa deste caso" - José Saramago gostaria que "os ventos acalmassem", e que o livro "fosse julgado como uma obra literária".

À pergunta sobre a oportunidade do livro, o escritor assegura que não anda atrás de polêmicas: "Tenho convicções e digo-as", frisou, e recordou que outros escritores se inspiraram nos textos bíblicos, como Thomas Mann e Byron.

A humilhação de "Caim" - filho primogênito de Adão e Eva que matou o irmão, Abel, por as ofertas daquele terem sido preferidas por Deus - é o centro do livro: "Ele é uma companhia minha desde há muitos anos", justificou, sobre a necessidade de contar esta história.

Assumindo-se como ateu - "que já é um ato de sensatez" - ressalvou que "não há ateus absolutos" e que muitos dos valores que interiorizou ao longo da vida "são cristãos".

"O direito de refletir sobre isto é de todos nós", disse o Nobel da Literatura, criticando "a intolerância das religiões organizadas" que existem no mundo.

"São órgãos de poder, do qual não querem abdicar, e se alguém lhes vai arranhar a porta, reagem", comentou.

Questionado pela Agência Lusa se, na leitura que fez dos textos da Bíblia, encontrou alguma passagem que lhe tivesse agradado, José Saramago admitiu que sim, embora tenha encontrado sobretudo histórias "com grandes níveis de maldade".

"O Livro dos Salmos tem partes belíssimas, e o Cântico dos Cânticos também é muito belo", precisou, comentando, no entanto, que a este último "curiosamente, a Igreja já lhe deu uma volta".

"Eu admito que é possível uma leitura simbólica da Bíblia, mas que não se sobreponha a leitura simbólica à literalidade do texto", defendeu.

Lançado segunda-feira no mercado livreiro em Portugal, Espanha (com edições em castelhano e catalão) e no Brasil, "Caim" tem também uma edição prevista para Itália.

Zeferino Coelho, editor da Caminho, revelou na entrevista que estão em curso negociações de direitos para outros países, e está convicto que "o livro vai ter uma grande difusão mundial".

Depois do lançamento em Penafiel, "Caim" vai ter outro em Lisboa, previsto para dia 30 de outubro, às 18h30, na Culturgest, com a presença do autor na sessão de entrada livre.

Compartilhe:

    RECEBA NOTÍCIAS

    GUIA DE RESTAURANTES

    Mais Guias

    Hospedagem: UOL Host