19/10/2009 - 21h51
Saramago deve ser 'mais cuidadoso' sobre Bíblia, diz bispo luso
Torres Vedras, Lisboa, 19 out (Lusa) - O bispo do Porto, D. Manuel Clemente, pediu para José Saramago ser "mais cuidadoso e informar-se melhor" quando escreve sobre acontecimentos bíblicos, reagindo às declarações sobre o novo livro do autor.
"Quando [José Saramago] escreve sobre a temática bíblica devia ser mais cuidadoso, informar-se melhor", afirmou D. Manuel Clemente.
"Interrogo-me se é assim tão legítimo evocarmos figuras e episódios com um sentido que não é aquele que eles têm", disse o bispo do Porto, acrescentando que "qualquer leitor da Bíblia sabe que aqueles episódios, aquelas figuras têm outros significados que não é aquele pelo qual ele [Saramago] se bate".
D. Manuel Clemente reconheceu "estar curioso" para ler o último livro de José Saramago, "Caim", "até por dever de ofício e para ter mais conhecimento de causa".
Apesar de tudo, o bispo disse ser um leitor do vencedor do Prêmio Nobel da Literatura de 1998, admitindo qualidades, como ser "um ótimo criador de estórias e enredos", bem como de "descrições magníficas".
Em algumas das suas obras, como "Ensaio sobre a Cegueira", "atinge uma profundidade em termos de humanidade", acrescentou.
Novo livro
No domingo, José Saramago apresentou o livro "Caim", onde conta em tom irônico e crítico a história do filho primogênito de Adão e Eva.
Quase duas décadas após o escândalo provocado pela sua obra "O Evangelho segundo Jesus Cristo" (1991), Saramago afirmou, em entrevista à Lusa, que "a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana".
"Na Igreja Católica não vai causar problemas porque os católicos não leem a Bíblia, só a hierarquia, e eles não estão para se incomodar com isso. Admito que o livro possa incomodar os judeus, mas isso pouco me importa", disse o escritor à Lusa.
Segundo o Antigo Testamento, Caim teria sido o filho primogênito de Adão e Eva, que matou Abel, seu irmão mais novo, num acesso de ciúmes, após verificar que Deus mostrara preferência por este.
"Nada disto existiu, está claro, são mitos inventados pelos homens, tal como Deus é uma criação dos homens. Eu limito-me a levantar as pedras e a mostrar esta realidade escondida atrás delas", afirmou o escritor.