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Capa do livro "As Teorias Selvagens", de Pola Oloixarac |
Leia abaixo trecho do livro "As Teorias Selvagens", da escritora argentina Pola Olaixarac, convidada da Flip este ano.
Nos ritos de passagem praticados pelas comunidades Orokaiva, na Nova Guiné, as crianças que serão iniciadas, meninos e meninas, são inicialmente ameaçadas por adultos que se agacham atrás dos arbustos. Os intrusos, que supostamente são espíritos, perseguem as crianças gritando: “Você é meu, meu”. E as empurram até uma plataforma como a que é usada para matar os porcos. As crianças aterrorizadas são cobertas com um capuz que os deixa cegos; são levados a uma cabana isolada no bosque, onde se convertem em testemunhas de ordálios e tormentos que marcam a história da tribo. Não é incomum, narram os antropólogos, que algumas das crianças morram no curso destas cerimônias. Finalmente, as sobreviventes voltam para a aldeia, vestidos com máscaras e plumas como os espíritos que os ameaçaram no princípio, e participam da caçada de porcos. Voltam não mais como presas, mas como predadores, gritando a mesma fórmula que tinham escutado dos lábios inimigos: “Você é meu, meu, meu”. Entre os Nootka, Kwakiutl e Quillayute, no noroeste do Pacífico, são os lobos — homens com máscaras de lobos — que ameaçam os pequenos iniciados, perseguindo?os a ponta de lança até empurrá?los ao centro dos rituais do medo; ao cabo dessas torturas esotéricas, são introduzidos nos segredos do Culto do Lobo.
A vida da pequena Kamtchowsky se iniciou na cidade de Buenos Aires, durante os “anos de chumbo”; o acesso à consciência coincidiu com a “primavera alfonsinista”. Seu pai, Rodolfo Kamtchowsky, vinha de uma família polonesa radicada em Rosario durante a década de 30. Era o único homem da casa; a prematura morte de sua mãe fez com que fosse morar com suas tias. Já no primeiro ano da escola demonstrou habilidades excepcionais para o pensamento abstrato; no quarto ano, sua professora de matemática, que tinha estudado na universidade, referiu-se elogiosa a suas inventivas formais. O pequeno Rodolfo foi contar isso a suas tias, que se assustaram um pouco e decidiram que quando cumprisse treze anos, iam mandá-lo estudar em Buenos Aires. Rodolfo era um menino alegre, embora muito tímido; falava pouco e às vezes parecia não registrar o que lhe diziam. Quando chegou o momento, Rodolfo se mudou para a casa de outra tia, na frente do Parque Lezama. Entrou na escola técnica Otto Krause e mais tarde formou?-e em Engenharia em tempo recorde.
Sua escolha de carreira e seu caráter retraído não fomentavam as relações com garotas; na faculdade só tinha conhecido duas, e não podia assegurar que reunissem méritos suficientes para ganhar a denominação “garotas”; tinham o estilo de baixinha amorfa que depois herdaria sua filha. Logo se tornaria evidente que o destino e a opção intelectual tinham feito de Rodolfo um elemento forçosamente fiel, monogâmico e heterossexual. Era natural, então, que assim que a Providência o aproximasse de uma mulher (uma pertencente ao conjunto “Garotas”) Rodolfo se aferrasse a ela como certos moluscos nadadores viajam pelo oceano até que cravam seu apêndice muscular no sedimento como um machado, cuja concha ou manto tem a faculdade de segregar camadas de cálcio ao redor da película mucosa que o lubrifica; ao fim de um tempo esta se rompe e o molusco volta a ficar à deriva, que varia entre o oceano e a morte.
Encontrou-a caminhando pela avenida Corrientes. Era uma baixinha de cabelo escuro e cacharrel justa, olhos negros pintados de negro, como uma máscara. Apesar de que Rodolfo conhecia dados empíricos similares, cuja única qualidade formidável era sua capacidade para se tornarem perfeitamente comuns e generalizáveis, algo naquele aluvião de detalhes — nas dobras se alternando embaixo das nádegas, na passagem de ônibus que sobressaía do bolso traseiro — foi percebido como sobrenatural. Algo implicava um excesso a respeito do que Rodolfo esperava do mundo. Esta passagem entre o conjunto de dados ambientais e sua qualidade pessoal e intransferível de testemunha, sintetizado “nela”, propiciou a experiência da decisão em Rodolfo. Seguiu-a pela rua, como se a vigiasse; podia ver que outros também olhavam. No momento em que confirmava nos olhares de outros a existência do elemento em amadurecimento (e, de algum modo, de seu valor), deduziu ser impossível que ela não tivesse notado que a estava seguindo por umas dez quadras pelo menos; mas este pensamento não tinha importância alguma para a etapa presente (já intuía o programático do processo) e resolveu deixar de pensar.
Então ocorreu o milagre; começou a chover e Rodolfo tinha um guarda-chuva. O jovem engenheiro apertou o passo; emocionado, observou como ela aceitava, rindo, sua proteção contra os elementos, um pouco distraída. Entraram no bar La Giralda para se esquentar e secar: Rodolfo praticamente não tinha se molhado, de forma que só faria o primeiro; envergonhou-se um pouco, mas ela não pareceu notar. Ela tirou a cacharrel revelando o rastro de um sutiã cor de carne, e Rodolfo dissimulou sua ereção sentando-se o mais rápido que pôde. Pediram chocolate quente, ela engoliu umas medialunas. Nessa mesma tarde, algo impressionado por sua verborragia e a de sua amiga, mas encantado frente à sua capacidade, evidentemente inata, para falar e imaginá-la nua ao mesmo tempo, Rodolfo contou que sua tia de Buenos Aires tinha dito que suas tias de Rosario devem ter trabalhado como prostitutas para conseguir mantê-lo. Sua jovem interlocutora cursava o segundo ano de Psicologia; comentou languidamente que, na realidade, ele achava que era sua própria mãe que se dedicava a esses comércios. Ao terminar a frase, ela olhou seu reflexo na janela, praticando a escuta psicanalítica “flutuante”; depois indagou sobre sua reação. A mãe de Rodolfo tinha morrido de câncer e passado seus últimos anos sem conseguir se levantar da cama; assombrado Rodolfo Kamtchowsky mordeu o churros banhado que tinha na mão e ficou pensando.
No dia seguinte, passou para pegá-la na faculdade. A Faculdade de Psicologia funcionava na sede de Filosofia e Letras da rua Independencia; encontrava-se dividida nas áreas de estudos “psico-sociais” e “humanísticos”. Como Rodolfo, a mãe da pequena Kamtchowsky pertencia à primeira geração de classe média em se lançar mais ou menos massivamente ao mercado das carreiras universitárias. No ano de 68, o número de formados da carreira de Psicologia duplicou; desde então apresentou um crescimento explosivo, com auges de mais de quatrocentos formados entre 1973 e 1975. A chegada do peronismo ao poder modificou profundamente os programa de estudos das faculdades, voltando às matérias convidadas opcionais de um plano de estudos inclinado para as variedades da doutrina marxista. No ano de 73, a modificação do plano de estudos em Psicologia promoveu uma forte ênfase no social, que orientou a carreira para áreas comunitárias e o trabalho de campo. Em detrimento da formação profissional enfocada em matérias e obrigações curriculares distintivas de cada carreira, o enfoque epistemológico marxista invocava a prioridade das lutas populares e, de maneira secundária, os pruridos específicos dos campos de conhecimento que não dependiam do imperativo partidário. A matrícula de ingressantes exibiu um volume surpreendente; do total de mulheres que cursavam uma carreira universitária, mais de 45% optava por estudar Psicologia; na faculdade, a proporção de população feminina era de oito para um.
Para alguém formado na universidade, a probabilidade de se relacionar com uma psicóloga em potencial ou real era muito elevada; mas até o momento, Rodolfo não tinha conhecido nenhuma. Nunca, até esse momento, tinha recebido um olhar de condescendência científica que rastreia relações profundas entre postulados acientíficos e o mundo. Naquele momento, a gíria psicanalítica permitia que profissionais respeitáveis ou em vias de ganhar respeitabilidade profissional incluíssem em seus vocabulários as mesmas referências genitais que contextos abertamente populares, como o teatro de revista, ainda lutavam sem êxito para conquistar. Os shows de vedetes podiam ser fechados pela censura do governo, certos filmes podiam ser proibidos, mas a psicanálise e seu séquito de nomes conseguiam imiscuir-se entre os interstícios úmidos da classe média; percebidos como um tipo de vanguarda linguística aparentada com a “liberdade de pensamento”, a chave foi indubitavelmente sua origem medicinal, sua existência justificada para aplacar dores. Para Rodolfo, a constelação de palavras que orbitavam tranquilamente ao redor dos orifícios anal e vaginal parecia algo indescritivelmente ousado, adulto, diferente de tudo conhecido (e, por contraste, parecido ao amor), cujas consequências o deixavam à beira do priapismo. Ao falar, ela deixava cair as pálpebras, intercalando silêncios significativos; parecia uma garota inteligente, mas Rodolfo não podia estar seguro. Quando ela contou sobre o mito edipiano, a vagina dentada de Juanito e a mamãe-carro de Melanie Klein, Rodolfo fez o possível para dissimular sua surpresa; escrutinava-a tentando adivinhar, debaixo do rímel e da sombra, essa seleta multidão letrada que levava a sério essas palhaçadas. Contudo, parecia compreensível que entre o noivado e a militância, ela não tivesse tempo para estudar uma carreira de verdade. Quando ela falava do ardor da luta, mobilizar as bases de baixo para cima e romper de uma vez com a casca individual, Rodolfo tinha ereções que poderiam encher a boca de todos esses lenhadores do Chaco com proteínas e filamentos gordurosos made in Kamtchowsky. Em algum desses intervalos geraram a pequena K.
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COMUNICAR ERRO01/02/2012