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05/07/2009 - 09h14

Leia trecho de "Vida Conjugal", romance do mexicano Sergio Pitol

Da Redação
Em "Vida Conjugal", romance recém lançado no Brasil do mexicano Sergio Pitol (ed. Companhia das Letras, 112 páginas, R$ 32), Jaqueline Cascorro, que um dia já foi María Magdalena, é uma mulher em conflito consigo mesma. A personagem principal dá muitos nomes para suas dores. O principal deles: Nicolás Lobato, o marido com quem mantém uma relação atrapalhada e marcada por traições por longos trinta anos.

Leia abaixo trecho do livro e, aqui, leia a resenha de "Vida Conjugal".



Jacqueline Cascorro, a protagonista desta história, conheceu durante boa parte da vida as experiências conjugais de costume: brigas, arroubos, infidelidades, crises e reconciliações. Tudo mudou de repente quando, ao quebrar com as mãos uma pata de caranguejo e ouvir uma garrafa de champanhe sendo aberta às suas costas, se deixou dominar por um pensamento que depois retornaria de modo intermitente, transformando-a, para sempre, numa mulher de ideias muito más.

  • Divulgação

    "Vida Conjugal", do mexicano Sergio Pitol, apresenta as migalhas de uma vida a dois

Durante anos, um caderno azul a acompanhou, sem que ela tivesse consciência disso, nas várias mudanças decorrentes de sua infeliz vida matrimonial. Um caderno bem fino, preso com elástico a um conjunto de cadernetas com anotações sobre literatura e história da arte guardadas no fundo de uma caixa lindamente ornamentada, adquirida em Pátzcuaro durante a viagem de lua de mel. Essa caixa se encontra na adega do L'Aiglon, um restaurante de Cuernavaca onde Jacqueline deixou as coisas de casa quando decidiu mudar para Veracruz. Certamente ficaria espantada se lesse os trechos literários copiados muitos anos antes naquele caderno esquecido. Sentiria uma saudade melancólica dos esforços intelectuais que alimentaram seu lado mais nobre, seu lado mais puro, o único que, por algum tempo, ofereceu-lhe alguma segurança, rompida na raiz pela violência que, com um estardalhaço gigantesco, abalou sua vida. Pois, a partir de certa altura, já não lhe foi possível alimentar nenhuma ilusão a respeito: sua vida espiritual se estilhaçara por completo.

Jacqueline tinha usado duas páginas daquele caderno para transcrever as citações literárias que lhe interessavam, e uma terceira para expressar sentimentos em relação ao que considerava o seu fracasso matrimonial; o restante ficara em branco. Não era difícil perceber que aquelas anotações tinham sido registradas durante uma onda de intenso rancor, numa das crises iniciais do casamento, antes de ter se resignado a aceitar as infidelidades do marido como algo normal. Alicia Villalba, a prima pobre de Nicolás Lobato, que trabalhava como secretária dele, e outras funcionárias mantinham-na a par, todos os dias, das atividades do cônjuge infiel. Podiam passar horas inteiras grudadas ao telefone descrevendo as vulgaridades de uma falsa loira com quem Nicolás se trancava no quarto número 17, e ainda davam detalhes: no segundo andar - como se o número do andar tivesse alguma importância!-do hotel Eslavia, que ficava em Orizaba, pois ele raramente punha os pés no Asunción, muito menos para efetuar seus cerimoniais de galanteador, na certa por considerá-lo bem abaixo de sua categoria. O fato é que, com pouco tempo de casada, Jacqueline aprendera a não sofrer como uma fera enlouquecida, o que não significava de modo algum que aprovasse a vida devassa de Nicolás Lobato. A leitura de algumas páginas escolhidas ao acaso de Fisiologia do casamento, de Balzac, levou-a à conclusão de que a maioria das mulheres com poucos anos de casadas sente em relação a seus maridos nada mais que uma profunda aversão, uma repulsão quase absoluta, resultado típico da tirania a que, com tanta arbitrariedade, são submetidas.

A primeira coisa que havia copiado no caderno azul fora uma afirmação categórica do escritor francês: "A vida matrimonial repousa toda ela na cama". Destacara essa frase com três ou quatro pontos de exclamação, e em seguida a rabiscara num acesso de raiva, bem como os sinais de exclamação que lhe tinha aposto.

Escrevera depois, com uma caneta de tinta verde, que a vida se alimenta de paixão e que nenhuma paixão consegue sobreviver ao casamento. E também que o casamento é uma instituição necessária para a preservação da sociedade, mas que, no entanto (e aqui acrescentou entre parênteses a exclamação: hélas!), essa instituição contraria as leis da Natureza, que a mulher casada é tratada como escrava, que não existem casamentos totalmente felizes, que a história do casamento é repleta de crimes e que os assassinatos que chegam ao conhecimento das pessoas nem são necessariamente os piores. Sublinhara essa última afirmação várias vezes, com tintas de cores diferentes, como se, já naquela época, o sopro de uma premonição lhe tivesse roçado o rosto.

O caderno azul em que registrara essas e outras citações literárias, abandonado numa adega de Cuernavaca de onde nunca mais o retiraria, já havia desaparecido de sua memória vários anos antes da mudança para Veracruz. Com mais rapidez ainda, tinham se apagado as circunstâncias em que aquelas linhas haviam sido redigidas. Se alguém lhe tivesse perguntado quando e com quem ela havia sido infiel ao marido pela primeira vez, teria respondido que seu primeiro amante, sem a menor sombra de dúvida, fora Gaspar Rivero, um miserável a quem ajudou da maneira mais desinteressada para depois receber em retribuição apenas punhaladas humilhantes, e que isso acontecera pouco antes que ele começasse a trabalhar no Asunción, um hotel carente de qualquer charme perto do Monumento a la Revolución, sem se lembrar do verdadeiro precursor, um engenheiro que conhecera numa festa na casa de Márgara Armengol. O episódio desaparecera de sua memória completamente. Se algum médico ou um hipnotizador lhe tivesse feito, depois de adormecê-la, alguma pergunta a esse respeito, ela talvez conseguisse se lembrar da ocasião em que um homem, que já não era exatamente jovem, lhe foi apresentado numa festa e ela o convidou, por mera cortesia, a se sentar ao seu lado; tinha bebido, já então, algumas taças bem generosas, e disse àquele total desconhecido que um eminente professor de filosofia havia admitido pouco antes naquela mesma casa que a sensibilidade dela era uma das mais aguçadas com que ele já havia deparado em sua longa carreira profissional, a ponto de mencioná-la como exemplo perante um grupo de cafonas invejosos que podiam ter tudo menos aquilo, sensibilidade, e imediatamente explicou ao guanajuatense o quanto ela precisava lutar para preservar aquele dom maravilhoso contra os golpes baixos aplicados pelo homem brutal que tinha como marido, um verdadeiro bárbaro, que reduzira os interesses da vida dele apenas a dinheiro e luxúria.

- Por mais que me digam o contrário, tenho certeza de que ninguém nunca conseguirá imaginar no que um ser humano pode se transformar com o passar dos anos - murmurou, em tom confidencial, ao desconhecido. - Nunca poderia ter imaginado que aquele Nicolas Lobato que eu conheci e que depois se tornou meu marido-não precisa se desculpar, o senhor não teria motivo nenhum para conhecê-lo, não é uma pessoa que se tenha destacado em algum aspecto-, fosse se transformar naquilo que é agora. Nós nos encontrávamos de tarde no café de Mascarones. O senhor chegou a conhecê-lo?

- Quem? - perguntou o outro, que prestara pouca atenção a suas palavras.

- Ninguém. Estou falando do café de Mascarones. Ficava dentro da Faculdade de Filosofia e Letras quando esta ainda era na Ribera de San Cosme. Um lugar maravilhoso. Até hoje, todos nós que o frequentávamos nos sentimos órfãos. Foi nesse café que conheci Nicolás Lobato. Ele não gosta que as pessoas saibam disso, não sei por quê, pois agora se dedica a outras atividades, já que nem ele nem eu conseguimos concluir os estudos. Nicolas estudava ciências políticas. Passava as tardes enfiado numa biboca na região de Miguel Schultz, perto do prédio da Filosofia e Letras. Passei várias vezes ali para pegá-lo. Era um casarão deteriorado de dois andares que ninguém podia imaginar que alojasse uma instituição universitária! Que diferença em relação à minha faculdade! A mesma que existe entre o céu e a terra, entre meu marido e esta que vos fala, se me perdoa a falta de modéstia - deu uma breve gargalhada. - Nicolás aparecia quase todas as tardes no Mascarones. Tinha na faculdade uma aula de geografia e outra que não sei qual era, acho que de alguma língua, provavelmente inglês. Tenho certeza de que nem mesmo ele sabe, agora, o que estudava então. Foi sempre negligente e desorganizado nos estudos. Passava a maior parte do tempo na cafeteria, e foi graças a isso que nos conhecemos. Voltávamos, à noite, nos mesmos ônibus. Eram dois, pois não havia um direto que me levasse até em casa. Ele descia na Eugenia, no bairro do Valle, e eu continuava até Coyoacán. Às vezes Márgara ia conosco. E assim nasceu nossa amizade. Morávamos muito perto uma da outra. Eu vivia na rua Berlín, pertinho desta casa, de onde ela nunca saiu. Nossa propriedade era uma maravilha-disse com um tom nostálgico. - Nós jamais conseguimos nos desligar totalmente das paredes que envolveram nossa infância. Quando me casei, minha mãe, viúva, com todas as filhas já casadas, mudou-se para um apartamento em Narvarte. O que poderia fazer, a pobre coitada, naquele casarão? Nicolás era filho único. Desde pequeno, sempre torcia os tornozelos ao caminhar. Segundo Alicia Villalba, sua prima, uma mulher que se veste como um verdadeiro homem, com gravata e tudo, esse detalhe explica boa parte do seu comportamento. Namorávamos havia uns seis meses quando o pai dele adoeceu e obrigou-o a tomar conta da casa de ferragens, que ele logo depois herdou, no centro da cidade, na rua Mesones. Agarrou-se nessa tábua de salvação para justificar o abandono da universidade, quando na verdade já não aguentava mais a vida de estudante. Estava muito apaixonado por mim, devo reconhecer, de modo que, mesmo que ele não estudasse mais na faculdade, continuamos a nos encontrar com alguma frequência. Reconheço também que, como namorado, nunca me pressionou de modo indevido, e assim consegui chegar virgem ao altar, o que naqueles tempos, posso lhe assegurar, ainda era algo prestigioso. Com a morte do pai, ele ficou com a casa de ferragens e um bom dinheiro, e começou a voltar seus interesses para a hotelaria. Vendeu a casa de ferragens, no que fez muito bem, pois não gostava daquilo. Começou a respirar. Depois, certamente lançou mão de mil e uma trapaças para conseguir ficar dono, por alguns poucos pesos, de hotéis deteriorados ou já meio moribundos. Comprou primeiro o Asunción, aquisição que nunca o satisfez, um hotel sórdido, muito desvalorizado, localizado entre o Monumento a la Revolución e o Paseo de La Reforma e que já no dia seguinte à compra só lhe causava antipatia. Depois foi o de Orizaba, bem mais agradável, o Eslavia. Desde então, só pensa em construir um hotel imenso em Cuernavaca. É sua obsessão. Essa e, mais do que nenhuma outra, as mulheres-fez uma pequena pausa para beber um gole. Ao ver que seu interlocutor, que ela mesma condenara à mudez, estava prestes a se levantar, apoiou a mão sobre sua coxa para segurá-lo e prosseguiu:-Não tenha medo, não vou intoxicá-lo com histórias dos meus problemas conjugais. Olhe, se existe alguma coisa de que eu realmente gosto, é vir aossábados à casa de Márgara. Mais do que colegas de universidade, fomos irmãs desde o começo. Gosto da atmosfera que se respira nesta casa. Cultura pura! No fundo, todos nós temos um pouco de boemia no sangue, não acha? Aqui eu me sinto como um peixe dentro d'água. Como o senhor já pôde ver, fiz tudo o que esteve ao meu alcance para impedir que minha vida espiritual desaparecesse. Sempre é difícil, para um homem, entender o que significa para uma mulher a possibilidade de se aperfeiçoar - e, sem lembrar que pouco antes já mencionara o casarão de sua infância, continuou: - Não fica muito bem que lhe conte tudo isso, mas em minha casa éramos cinco filhos, três mulheres e dois homens, e, até meu casamento, as três irmãs tinham de dividir um único quarto, María Dorotea, María del Carmen e eu, que ainda levava um nome horroroso. Como seria possível ler alguma coisa nessas condições? Quando é que eu poderia me preparar para as provas? Ainda mais com uma lâmpada ridícula de 60 volts! De onde tirar dinheiro para comprar os livros necessários? Fiz o que pude! E muito mais, eu diria! Saúde! Como eu lhe disse, Nicolás Lobato só pensa em dinheiro e luxúria. Éramos muito jovens quando nos casamos. Num certo sentido, no dia do casamento eu ainda era uma menina. Nunca poderia ter imaginado o que me aguardava. Com exceção de Alicia Villalba, que é muito, muito masculina, Nicolás não poupou nenhuma das mulheres que trabalharam em suas empresas; mesmo que seja apenas uma vez, ele precisa submetê-las, desculpe-me pela expressão, às suas armas. Deve tratá-las como se fossem putas, que é como ele gostaria de poder me tratar também - serviram mais uma bandeja com bebidas, ela bebeu outra cuba-libre e continuou a falar de suas peripécias matrimoniais, até descobrir, a certa altura, que o sujeito a quem confiara tantas intimidades não estava mais ao seu lado, que tinha continuado a falar, na verdade, para uma dupla de rapazes que brincavam de pôr e tirar uma peruca loira muito maltratada e que acabaram por encaixar na cabeça dela como se fosse um capacete. Faziam-lhe as perguntas mais atrevidas e riam diante de seu desconcerto e das respostas pudicas que dava. Em meio a gargalhadas, relatavam aspectos arrepiantes da vida sexual de uma tal Cuquita, "a gordona com a bunda mais verde que já se viu no México", acrescentando a "qualificação" toda vez que pronunciavam seu nome, mulher a quem ela não conhecia nem tinha interesse em conhecer, e comemoravam com ataques de riso cada nova obscenidade que enunciavam, o que a certa altura levou-a a ficar de pé e gritar-lhes que eram uma dupla de bobos, que não sabiam com quem estavam tendo a honra de conversar, que, se ainda não se tinham dado conta disso, estavam naquela noite lidando com uma dama, estavam falando... Nesse instante, deu-lhe um branco no cérebro. Olhou ao redor. Viu uma série de rostos, não apenas o da dupla de rapazes impertinentes que a contemplavam com uma expectativa divertida, e encerrou a conversa como pôde, repetindo que era aquilo mesmo, eles estavam falando com uma dama, com uma senhora que tinha sofrido muito na vida e que por isso merecia outro tipo de tratamento e não que o marido, um Átila no sentido mais amplo da palavra, andasse com suas funcionárias ou com qualquer piranha que aparecesse, para comê-las nos fins de semana em Cuernavaca... A dupla de rapazes soltou uma nova gargalhada e ambos, quase em uníssono, lhe disseram que ela não devia ser assim grosseira e que parasse de se martirizar. O marido, por acaso, ficava exaurido depois daqueles fins de semana orgíacos? Certamente não. Os sexólogos mais eminentes diziam que o pênis de um homem, mais do que no caso de outros animais, era como um sabão que nunca se gasta e que quanto mais uso tivesse melhor trabalho fazia. Ergueu-se novamente, pois lhe pareceu que os dois estavam claramente lhe faltando com o respeito e ela não queria, em consideração a Márgara Armengol, fazer na casa dela a cena que naquele instante fantasiava. Ao passar para a outra sala, descobriu que restavam poucos convidados. Márgara logo surgiu ao seu lado, perguntando se não se sentia bem, se por acaso alguma bebida lhe tinha feito mal, pois vários convidados tinham admitido sentirem-se indispostos e o atribuíam à qualidade do álcool, o que lhe pareceu um gesto nada delicado por parte da anfitriã, já que havia sido ela, Jacqueline, quem tinha trazido as bebidas naquela noite. Porém, como uma verdadeira dama, ela nada comentou. Em seguida, a anfitriã perguntou se não seria melhor que alguém a levasse para casa, ou se preferia aguardar um pouco até que a reunião terminasse e ficar para dormir ali mesmo, no estúdio. Não a deixaria ir embora sozinha, isso nunca, pois era evidente que estava bem alta. Nesse momento, o convidado a quem ela tinha falado sobre os inúmeros inconvenientes de ser casada com Nicolás Lobato reapareceu e, a pedido de Márgara, disse que claro, com o maior prazer a acompanharia à casa dela, embora na verdade a tenha levado para o apartamento de um amigo, já que ele, sendo de Guanajuato, não tinha casa na Cidade do México. Ela voltou a encontrar esse sujeito - cujo nome parece nunca ter sabido-mais duas vezes nas festas de Márgara, tendo ocorrido a mesma coisa ao final de ambas as ocasiões. Na última vez que esteve naquele apartamento, enquanto contava ao guanajuatense que tipos de amantes o marido preferia, ele foi a uma estante, pegou a Fisiologia do casamento, de Balzac, e colocou em suas mãos dizendo que se tratava de um presente, o que a ela pareceu tão indelicado quanto os comentários de Márgara sobre as bebidas, já que aquele apartamento, e portanto tudo o que nele havia, não eram de sua propriedade.
[...]

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