UOL Entretenimento Notícias

17/06/2009 - 19h54

Leia trecho do livro "Syngué Sabour", do escritor franco-afegão Atiq Rahimi

Da Redação
Leia a seguir trecho do livro "Syngué Sabour", do escritor franco-afegão Atiq Rahimi, publicado no Brasil pela editora Estacao Liberdade. Rahimi é um dos autores convidados para a Flip 2009.





  • Divulgação

    "Syngué Sabour" acompanha história que se passa inteiramente num quarto, onde uma mulher conversa com o marido em coma depois de levar um tiro na nuca. O ritmo de suas palavras e da própria narrativa é ditado pela respiração do combatente estirado na cama. O efeito é claustrofóbico

Durante a alvorada, quando a voz ríspida do mulá chama os fiéis para a oração, um ruído de passos arrastados se faz ouvir no corredor da casa, aproxima-se do aposento, distancia-se dele e volta. A porta se abre. Entra a mulher. Ela olha o homem. Seu homem. Ele continua lá, na mesma posição. No entanto, seus olhos a intrigam. Ela dá um passo à frente. Ele está com os olhos fechados. A mulher se aproxima ainda mais dele. Um passo. Sem ruído. Depois, dois passos. Ela o olha. Não distingue coisa alguma. Ela duvida. Recuando, sai do quarto. Em menos de cinco sopros, volta com o candeeiro. Ele, sempre com os olhos fechados. Ela se deixa cair no chão. "Você está dormindo?" Sua mão, trêmula, vai pousar sobre o peito do homem. Ele está respirando. "Sim... Você está dormindo!" grita ela. Seu olhar busca por alguém no aposento a fim de repetir: "Ele está dormindo!"

O vazio. Ela sente medo.

Ela pega o tapetinho, desdobra-o e o abre no chão. Uma vez terminada a prece matinal, ela permanece sentada, pega o Corão, abre-o na página marcada com uma pena de pavão, que ela retira e guarda com a mão direita. Com a esquerda, debulha as contas do terço.

Depois da leitura de alguns versículos, ela faz deslizar a pena, fecha novamente o Corão e fica ainda um instante pensativa, absorvida por aquela pena cuja extremidade sai do livro sagrado. Ela a acaricia primeiro tristemente, depois nervosamente.

Ela se ergue, guarda o tapete e vai em direção à porta. Antes de sair, detém-se. Volta-se. Volta a seu lugar junto do homem. Com a mão hesitante ela lhe abre um olho. Depois o outro. Espera. Os olhos não voltam a se fechar. A mulher pega o frasco de colírio e pinga algumas gotas nos olhos dele. Uma, duas. Uma, duas. Verifica a bolsa de perfusão. O soro ainda não acabou.

Antes de se erguer, ela faz uma pausa e pousa seu olhar preocupado sobre o homem, perguntando-lhe: "Será que você ainda pode fechar os olhos?" O olhar ausente do homem não dá resposta. Ela insiste: "Sim, você pode! Vamos, feche-os de novo!" E espera. Em vão.

Preocupada, ela faz deslizar delicadamente a mão sob a nuca do homem. Uma sensação, uma angústia provoca um tremor em seu braço. Ela fecha os olhos, aperta os dentes. Inspira profundamente. Dolorosamente. Ela está sofrendo. Ao expirar, ela retira a mão e, sob a fraca luz do candeeiro, examina a ponta de seus dedos trêmulos. Eles estão secos. Ela se ergue para virar o homem de lado. Aproxima o candeeiro da nuca a fim de examinar uma pequena chaga ainda aberta, lívida, esvaziada de sangue, porém ainda não cicatrizada.

A mulher retém o fôlego e aperta o ferimento. O homem permanece sem reação. Ela aperta ainda com mais força. Nenhum sinal de queixa. Nem nos olhos, nem na respiração. "Você nem sente dor?" Ela volta a colocar o homem de costas, debruça-se sobre ele para olhá-lo bem nos olhos. "Você nunca sente dor! Você nunca sentiu, nunca!", diz ela, como que expirando as palavras. "Nunca ouvi dizer que um homem pudesse viver com uma bala na nuca! Você nem sangra, nem tem pus, nem dor, nem sofrimento algum! 'É um milagre!', como dizia sua mãe... maldito milagre!" Ela se ergue. "Até mesmo com esse ferimento, você é poupado do sofrimento." A voz dela range em sua garganta embargada. "E sou eu que tenho de pagar! Eu que tenho de chorar!" Depois de dizer isso, ela se dirige à porta. Lágrimas e raiva nos olhos, ela desaparece na escuridão do corredor, enquanto o candeeiro faz com que a sombra do homem fique estremecendo projetada na parede até que o dia nasça completamente e que os raios do sol penetrem pelos buracos do céu amarelo e azul da cortina, condenando o candeeiro à incerteza.

Uma mão hesita em abrir a porta do quarto. Ou então não consegue fazê-lo. "Papai!" A voz de uma das crianças sobrepuja o rangido da porta.

Compartilhe:

    RECEBA NOTÍCIAS

    GUIA DE RESTAURANTES

    Mais Guias

    Hospedagem: UOL Host