"Cadernos de Infância" (tradução de Joana Angélica D'Ávila Melo, lançamento da editora Record) apresenta as memórias da poeta argentina Norah Lange, autora que fez parte do seleto grupo dos grandes escritores do início do século 20 da Argentina, onde listam Borges, Bioy Casares e Olivero Girondo -- este último, com quem ela foi casada.
Leia abaixo um trecho do livro e,
aqui, leia a resenha de "Cadernos de Infância".
VEJO-A ORLADA de uma ternura que ninguém poderia tocar sem desfazer-lhe algo, sem acrescentar-lhe mais graça além da que era necessária e real.
Montava seu cavalo, vestida com aquelas saias amplas, opacas, que se usavam na época.
Nós a víamos toda inteira de um lado do cavalo, a face escondida sob a aba do chambergo preto. Do outro, apenas uma das mãos enluvada; o perfil tão claro, como se de repente se aproximasse de uma lamparina.
Toda a figura parecia fazer contrapeso, a partir de um flanco do cavalo, ao outro, ao luminoso, à inteireza do seu rosto. Montando assim, transmitia-nos uma dupla doçura: podíamos vê-la de um costado, do costado da sombra, do menos conhecido, e do outro, onde ela estava toda, e a recuperávamos intacta, idêntica ao panorama de carinho que nos mostrava todos os dias.
Ao levantá-la até a montaria, meu pai só necessitava juntar as mãos para que ela apoiasse um pé. Mamãe subia e de imediato, já pronta, ficava atenta, esperando. Todos os seus gestos, embora fossem novos, viviam em seguida uma paisagem habitual.
Meu pai fazia avançar o tordilho e lhe infligia com a bota pequenos golpes nas patas; então o cavalo estirava as patas dianteiras e traseiras em direções opostas, até que a sela descia a um nível em que não era necessário usar os estribos.
Nós cinco, em semicírculo, comentávamos a atitude submissa e obediente do animal; e depois de nos proporcionar esse espetáculo eles se afastavam em trote lento.
O lado resplandecente de mamãe desaparecia, e só nos restava o menos familiar, o mais austero. Quando eles se aproximavam dos primeiros álamos que limitavam a quinta, sentíamos de imediato que algo nos faltava. A barba ruiva do meu pai era a única coisa que divisávamos.
Agora sei que o outro lado de mamãe, o luminoso, ia muito perto dele.
TRÊS JANELAS dão sobre minha meninice. A primeira corresponde ao escritório de meu pai. Nas poucas vezes em que entramos nesse aposento, sentimo-nos algo intimidadas diante dos móveis severos, de couro frio e escorregadio, e das paredes cobertas de planos e mapas de diferentes países. Pressentíamos que ali só se entrava para conversar de coisas sérias ou quando era necessário despedir algum peão, algum servente. Da mesa de trabalho só recordo o enorme globo terrestre que, às vezes, meu pai fazia girar à nossa frente para que descobríssemos, de imediato, a Noruega e a Irlanda. Em um armário amontoavam-se flechas, arcos, cachimbos e colares que os índios lhe haviam presenteado em suas diversas expedições e que ele nos permitia bisbilhotar de vez em quando.
Quando íamos dormir divisávamos, de nossas portas, uma fresta de luz, pouco confortável, pouco chamativa, no umbral da sua. Era a hora em que meu pai escrevia, e só mamãe, com sua doçura permanente, costumava entrar para conversar com ele.
Quando sua janela se ilumina, de chofre, e permanece imóvel em alguma recordação, parece-me que tem a tristeza daqueles cabeçalhos de cartas, interrompidas não se sabe por qual motivo, e que a gente encontra, muito tempo depois, no fundo de alguma gaveta.
A janela de mamãe era mais acolhedora. Pertencia a um quarto de costura. Nas casas onde há muitas crianças, os quartos de costura sempre são os mais procurados, os mais buscados. Diante dos estojos transbordantes de fitas e espiguilhas contemplávamos, com freqüência, roupinhas que não eram do nosso tamanho. Nunca pensamos que alguém poderia chegar, de repente, depois de nós. Mamãe passava longas horas no quarto de costura, tecendo ou bordando coisas minúsculas. Nesse quarto ela parecia mais acessível, mais disposta a que lhe contássemos tudo, de tal modo que ao chegarmos, as mais novas, aos 13 ou 14 anos, compreendemos que, ali, teria sido mais fácil conversar com ela sobre o medo, a vergonha, a feiúra, a tristeza dessa idade incômoda. As três mais velhas o conseguiram. Susana e eu não tivemos essa ternura: uma janela tão escondida, uma luz tão adequada para dissimular o rubor, a vontade de chorar e a mágoa, a sensação de sentir-se separado dos outros por uma doença contagiosa. Sua janela manteve sempre a luz que convém às crianças. Não vi outra, depois. Os filhos chegam a quartos onde não são esperados, quartos não construídos para eles; sua roupinha é confeccionada em pátios nus, em dormitórios habituados a outras presenças, a outras ternuras, a outras lembranças, ou na hora do chá, enquanto se conversa com as visitas, em momentos de ócio que distraem qualquer fervor. Vi muitas mulheres que não mudam o tom de voz, que continuam executando os mesmos gestos, permitindo brincadeiras sobre seu aspecto ou procurando dissimulá-lo, olhando a vida sem maior ou menor fastio, como se o que carregam dentro de si não lhes bastasse para compreender que vivem o enorme regozijo de ter um filho; como se um filho que está para nascer entrasse no plano de cada dia e não fosse preciso apartar todos os dias e todas as noites que dura essa espera, para poder falar dela, mais tarde, com um gesto separado daquele que se emprega ao comentar os demais acontecimentos.
Minha mãe era diferente. Minha mãe não tecia os sapatinhos nem as mantinhas nos momentos de ócio. O ócio era constituído pelas outras coisas. Ela vivia a responsabilidade daquilo que esperava e o esperava o dia inteiro, a noite inteira. Quando entrava nesse quarto, impregnado de ternura, era como se mudasse de aspecto, de gestos. Todas as vezes em que a vi isolar-se nesse aposento, para costurar coisas pequeninas, ela mostrava aquela mirada um pouco arregalada e triste, de tanto olhar para dentro, como a que vi, depois, nas pessoas que estiveram observando o mar. Quando brincávamos no jardim, sua lamparina, um pouco sonolenta no inverno, assegurava-nos de sua presença. Ignorávamos que de um dia para outro haveria outro nome na casa, outra boca a beijar antes de nos deitarmos.
A terceira janela era a de Irene. Eu sempre tive por ela um pouco de admiração e um pouco de medo. Era seis anos mais velha do que eu. Às vezes lhe permitiam sentarse à mesa, na sala de jantar grande, quando as visitas eram íntimas. Minhas irmãs mais velhas falavam dela, em voz baixa. Tinham surpreendido seus segredos e, ao comentálos em tom deleitado e misterioso, estavam muito longe de supor que também a elas logo chegaria a vez. Susana e eu, as mais novas, não éramos suficientemente perspicazes para adivinhar o motivo desses longos cochichos. Uma tarde, escutei-as falando de peitos. Quando penso nisso, compreendo o medo que ela terá sentido, sozinha, a primeira, ao ver que seu corpo se curvava, que a caixa torácica perdia a rigidez, que os seios começavam a doer e a mover-se imperceptivelmente.
De sua janela, sempre esperávamos as maiores surpresas. Irene nos falava de raptos, de fugas, de que em alguma manhã iria embora com sua trouxinha de roupa, como Oliver Twist, porque em casa não gostavam dela, ou porque alguém a esperava lá fora. Talvez por isso, sua janela sempre me pareceu misteriosa.
Uma noite, quando todas estávamos deitadas, Irene veio até minha cama, para despedir-se. Envolta numa manta, trazia um pacotinho de roupa no braço. Falou-me com voz compungida e me anunciou que ia embora porque nós a tratávamos mal e ela era muito infeliz.
Eu logo pensei na janela. Pensei que havia chegado o momento. Levantei-me e a segui, chorando. Muito tempo depois, os lábios de Marta, arrependidos, me deixaram entrever que era uma farsa.
Então sua janela desapareceu, devagarinho, até parecer-se com as outras.