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02/02/2009 - 13h36

Leia o primeiro capítulo de "O Amor é Fogo", de Nora Ephron

Da Redação
Leia a seguir o primeiro capítulo do livro "O Amor é Fogo", da norte-americana Nora Ephron, roteirista de comédias românticas como "Harry e Sally" e "Sintonia de Amor"

Divulgação
Roteirista daas comédias românticas "Harry e Sally" e "Sintonia de Amor", Nora Ephron relata de forma romanceada e bem-humorada em "O Amor é Fogo" a história de seu divórcio
LEIA RESENHA DO LIVRO "O AMOR É FOGO"
Livro publicado no Brasil pela editora Rocco é uma narrativa bem-humorada baseado na própria vida da autora, e relata a sua separação do jornalista Carl Bernsein - famoso por ter ajudado a desvendar o caso Watergate -, quando estava grávida.




O primeiro dia não me pareceu divertido. Também não vi graça no terceiro, mas consegui fazer uma piadinha sobre ele.
- A coisa mais injusta sobre isto tudo - eu disse - é que eu nem posso ter um encontro.
Bem, você teria que estar ali no ato, como se diz, porque ao botar a situação no papel, ela não soa engraçada. Mas o que a fazia engraçada (vá por mim) era a palavra "encontro", que quando é dita em voz alta carrega uma deliciosa evocação adolescente, e já que não sou mais uma adolescente (tudo bem, eu tenho trinta e oito), e já que a razão de, definitivamente não me encontrar em condições de ter um encontro ao acabar de descobrir que meu segundo marido tinha arrumado uma amante, era que eu enfrentava o sétimo mês de gravidez, fiz piada disto, e acredito que meus companheiros do grupo de terapia riram apenas para tentar me animar. Eu bem que precisava de um pouco de animação. Eu estava em Nova York, no apartamento de meu pai, chorando a maior parte do tempo, e cada vez que parava de chorar, acabava prestando atenção na mobília de nogueira e na luminária de ardósia de meu pai, que eram inacreditavelmente deprimentes, o que me fazia começar a chorar tudo de novo.

Cheguei a Nova York pela ponte aérea apenas em um livro de músicas infantis que ela lhe dera. Músicas infantis. "Agora você pode cantar estas canções para o Sam" era um pedaço da dedicatória nojenta, e nem me faça lembrar o quanto me tirou do prumo a idéia de que meu filhinho de dois anos, meu bebê, havia sido envolvido, de alguma forma no casinho de amor entre meu marido, um cara baixinho, e Thelma Rice, uma mulher altíssima, com o pescoço do comprimento de um braço, o nariz do tamanho de um polegar e, você deveria ver as pernas dela, sem mencionar seus pés, que parecem pranchas.

O apartamento de meu pai estava vazio, já que ele havia sido internado em um manicômio por minha irmã Eleanor, conhecida como A Boa Filha para que possa ser diferenciada de mim. Meu pai leva uma vida psicológica complexa com sua terceira esposa, que, diga-se de passagem, é irmã de minha ex-melhor amiga, Brenda. Uma semana antes, a terceira mulher de meu pai estava andando sem rumo pela Terceira Avenida, enrolada em uma toalha, quando foi vista por Renee Fleisher,
que freqüentou o ensino médio comigo e com Brenda. Renee Fleisher chamou meu pai, que não se encontrava em condições de ajudar, pois estava a meio caminho de sua própria crise de nervos, e por isso ela me telefonou em Washington.
- Não acredito nisso - ela disse. - Acabo de me encontrar com a irmã mais velha de Brenda e ela me disse que se casou com seu pai.
Eu mesma havia achado difícil de acreditar quando aconteceu: ter seu pai casado com a irmã mais velha de sua inimiga mortal é um pouco de coincidência demais para o meu gosto, ainda que eu entenda que este mundo é uma cabeça de alfinete. Não há escolha quando se é judia.
- Tudo bem para mim se você se casar com a irmã da Brenda - eu havia dito ao meu pai quando ele me ligou paraalgumas horas depois de descobrir sobre o caso, do qual fui inteirada ao ler uma dedicatória realmente nojenta para meu marido dizer que estava para fazer isso. - Mas, por favor, faça com que ela assine um acordo pré-nupcial concordando que, quando você morrer, nenhum tostão seu acabe nas mãos da Brenda. Assim, há três anos, a irmã mais velha dela assinou o acordo, e agora aqui estava Renee Fleisher ao telefone para dizer que, ahá, a irmã da Brenda se casou com meu pai e, diga-se de passagem, estava vagando sem eira nem beira pela Terceira Avenida, enrolada em uma toalha.

Eu despejei tudo em cima da minha irmã Eleanor, que se cobriu com seu manto de santidade, foi ao apartamento do meu pai, vestiu algumas roupas na irmã de Brenda e a enviou para a casa da mãe dela, em Miami, e levou meu pai a um lugar chamado Sete Nuvens, que pode não ser o mais auspicioso dos nomes para um hospício, mas você se espantaria com as poucas opções disponíveis quando se trata de hospícios. De qualquer forma, meu pai foi botar a cabeça no lugar e fazer cinzeiros com folhas, e assim, seu apartamento em Nova York estava vazio.

Eu tinha as chaves do apartamento, havia estado ali com freqüência no ano passado, porque nós estávamos quebrados. Quando Mark e eu nos casamos nós éramos ricos, mas dois anos depois estávamos quebrados. Não quebrados de verdade - nós possuíamos bens. Tínhamos um aparelho de som que custara milhares de dólares, uma casa de campo em West Virginia que custara dezenas de milhares de dólares, uma casa na cidade de Washington que custara centenas de milhares de dólares e tínhamos coisas - Deus, como nós tínhamos coisas.

Tínhamos rosas-dos-ventos e colchas de retalho, cavalinhos de carrossel e janelas com vitrais, caixas de estanho e espelhinhos de bolso, canecas de chocolate Cadbury e cartões-postais de São Francisco antes do terremoto, então tínhamos algo de valor, só não tínhamos dinheiro. Para mim sempre foi mítico como pudemos ir de ter tanto dinheiro para não ter dinheiro algum, mas agora, claro, eu entendo tudo aquilo um pouco melhor, porque a outra coisa que consumiu nosso dinheiro foi o caso com Thelma Rice. Thelma foi para a França bem no meio da história e você tinha que ver as contas de telefone.

Não que eu soubesse sobre essas contas no dia em que encontrei o livro de canções infantis com a dedicatória desagradável. "Meu querido Mark", era assim que começava, "eu queria dar algo a você que celebrasse o que aconteceu hoje, que mostra nosso futuro com tanta clareza. Agora você pode cantar estas canções para Sam, e algum dia nós as cantaremos juntos para ele. Eu amo você. Thelma." E isto era tudo. Eu mal podia acreditar. Bem, a verdade é que eu não acreditava mesmo. Conferi a assinatura de novo e tentei reconhecer ali qualquer outro nome, o nome de alguém que eu não conhecesse,
em vez do nome de uma conhecida, mas lá estavam o T e o a, claros como o dia, e mesmo que as letras do meio estivessem um pouco borradas, não existem muitos nomes que começam com T e terminam com a, além de Thelma. Thelma!

Ela havia acabado de vir almoçar em nossa casa! Ela e seu marido Jonathan - na verdade, eles não vieram almoçar, e sim comer a sobremesa, um bolo de cenoura no qual eu havia posto abacaxi moído demais, mas que ainda assim estava muito bom se comparado às sobremesas de Thelma. Ela sempre faz aqueles pudins grudentos. Thelma, seu marido Jonathan (que sabia tudo sobre o caso, descobri depois), meu marido Mark - os três sentados enquanto eu andava por ali como uma pata em um vestido de grávida, servindo bolo de cenoura para o resto dos convidados e pedindo desculpas pelo abacaxi moído.

Pode parecer estranho para você que o fato de eles terem vindo almoçar me perturbe tanto, mas uma das piores coisas sobre descobrir uma história destas é que você se sente estúpido, e a idéia de que eu realmente os convidei para virem, que eles realmente aceitaram e que os três realmente ficaram sentados pensando que eu era alguma espécie de imbecil, faz tudo ficar pior. A parte mais mortificante de tudo foi que, no dia seguinte, Thelma me ligou para agradecer e pediu a receita do bolo de cenoura e eu mandei para ela. Eliminei o abacaxi moído, claro. "Aqui está a receita de bolo de cenoura", escrevi no cartão, "sem os toques excêntricos." Temo ter desenhado uma carinha sorridente perto da receita. Não sou o tipo de pessoa que sai pintando carinhas sorridentes em todos os cantos, mas às vezes não há outra coisa que se possa fazer. Agora, por exemplo, eu gostaria de colocar uma carinha no final desta
frase, só que com as sobrancelhas franzidas.

Devo destacar que, apesar de mal poder acreditar que Mark estava tendo um caso com Thelma, eu sabia que ele estava tendo um caso com alguém. Foi assim que acabei achando o livro de canções infantis: estava xeretando em suas gavetas, procurando por pistas. Mas justo a Thelma! Isso me deixou brava de verdade. Teria sido uma coisa se ele estivesse envolvido com alguma ninfeta, mas ele enlouquecera e acabara tendo um caso com uma pessoa que não apenas
era um gigante, mas um gigante inteligente. Enquanto este caso secreto acontecia, nem posso lembrar de quantas festas voltamos e eu, enquanto tirava minhas roupas, dizia:
- Ah, Deus, Thelma disse uma coisa tão divertida esta noite.

E depois eu ainda repetia, palavra por palavra, para Mark. Isso é que é ser uma idiota! Isso é que é ser uma idiota! E eu até mesmo sabia que Thelma estava tendo um caso! Todo mundo sabia. Ela não parava de falar, aberta e indiscriminadamente, que, se houvesse a possibilidade de seu marido Jonathan ser enviado para servir em algum posto distante do Departamento do Estado, ela ficaria em Washington e compraria um apartamento.
- Ela está falando sobre apartamentos. - Um dia minha amiga Betty Searle me ligou para contar. - É óbvio que ela está envolvida com alguém.
- Tem certeza? - perguntei.
- Claro que tenho certeza - disse Betty. - A pergunta é: com quem? - Ela pensou por um minuto. - Talvez com o senador Campbell - disse. - Ele está falando sobre apartamentos também.
- Senadores sempre falam sobre apartamentos - falei.
- Isso é verdade - Betty disse. - Mas com quem mais poderia ser?
- Vou perguntar para Mark.
- Você acha que Thelma Rice está tendo um caso com o senador Campbell? - perguntei para Mark naquela noite.
- Não - ele disse.
- Bem, ela está tendo um caso com alguém.
- Como você sabe? - perguntou.
- Ela está falando sobre comprar um apartamento se Jonathan for enviado a Bangladesh - eu disse.
- Jonathan não será enviado a Bangladesh - falou Mark.
- Por que não?
- Porque nós ainda nos importamos com Bangladesh - ele respondeu.
- Ao Alto Volta, então - falei.
Mark balançou a cabeça, como se não pudesse acreditar que estava sendo arrastado para um papo de mulherzinha sem cabimento, e voltou a ler sua revista House & Garden. Pouco depois disso, a conversa sobre apartamentos parou.
- Thelma não está mais falando sobre apartamentos. - Betty me ligou para contar um dia. - O que você acha que isto significa?
- Talvez tenha acabado - sugeri.
- Não - disse Betty -, não acabou não.
- Como você sabe? - perguntei.
- Ela depilou as pernas com cera... - Betty contou, para em seguida acrescentar: - pela primeira vez.
E depois disso, lentamente completou:
- E nem é verão ainda.
- Eu entendo o que você quer dizer - concordei.

Reprodução
Baseado no livro de Ephron, filme "A Difícil Arte de Amar" (1986) tem Meryl Streep e Jack Nicholson nos papéis principais
LEIA RESENHA DO LIVRO "O AMOR É FOGO"
Betty Searle era uma bruxa sobre esse tipo de coisa - sobre muitas coisas, aliás. Ela podia ir a um jantar em Washington em uma noite e, no dia seguinte, poderia contar quem estava para ser demitido - apenas avaliando os lugares dos convidados à mesa! Ela deveria ter sido uma especialista no Kremlin, naqueles dias em que o que sabíamos sobre a Rússia estava baseado em fotografias das comemorações de 1o de Maio.

Contorções, piscadelas e erguidas de ombro que pareciam meros tiques nervosos para os simples mortais podiam ser facilmente lidos como mapas por Betty. Uma vez, por exemplo, em uma recepção, ela percebeu que o secretário da Saúde, Educação e Bem-Estar estava para ser dispensado porque a mulher do vice-presidente o cumprimentou com uma beijoca e tapinhas no ombro.
- Se alguém lhe dá tapinhas no ombro enquanto você está no gabinete, você está com grandes problemas - Betty me disse, no dia seguinte.
- Mas foi apenas a mulher do vice-presidente - eu observei.

Betty balançou a cabeça, como se eu nunca fosse aprender. Mais tarde, naquele dia, ela ligou para o secretário da Saúde, Educação e Bem-Estar e lhe contou que seus dias estavam contados, mas ele estava tão ocupado lutando contra o lobby do tabaco que não prestou atenção. Dois dias depois, o lobby do tabaco alugou o salão de baile do Hotel Hilton de Washington para comemorar sua demissão, e o secretário da Saúde, Educação e Bem-Estar começou a se preparar para entrar no circuito de palestras.
- Então, com quem você acha que Thelma está envolvida?
- Betty me perguntou.
- Pode ser com qualquer um - respondi.
- Claro que pode ser com qualquer um - ela respondeu -, mas quem é ele?
- Será que é o congressista Toffler? - perguntei.
- Você acha?
- Ela sempre está falando sobre o quão brilhante ele é - respondi.
- E ela se sentou ao lado dele no último jantar - Betty disse.
- Vou perguntar para Mark - comentei -, ele também estava sentado ao lado dela.
- Você acha que Thelma Rice está tendo um caso com o congressista Toffler? - perguntei a Mark naquela noite.
- Não - ele respondeu.
- Bem, de qualquer forma, seja lá quem for, ela ainda está tendo um caso - eu disse.
- Como você sabe? - ele perguntou.
- Ela depilou as pernas com cera - contei -, e nós ainda estamos em maio.
- A Central de Patrulha Feminina está bem ocupada esta semana, não? - ele ironizou. - Quem foi que disse isso a você?
- Betty - respondi.

Mark voltou a ler Architectural Digest e, pouco depois, Thelma Rice foi passar algumas semanas na França, e Betty e eu mudamos de assunto, passando a falar do auxiliar do presidente, que estava ligando para Betty de madrugada para dizer: "Encontre-me no domo do Capitólio e eu vou brincar com seus peitinhos", e outros disparates que envolviam marcos históricos de Washington e sexo.
- O que é que devo fazer sobre isto? - Betty me perguntou durante um almoço.
- Diga que se ele fizer isso de novo você vai denunciá-lo aos jornais - respondi.
- Já fiz isso - ela respondeu -, e sabe o que ele disse? Ele disse: "Você não viveu até pegar no meu Washington Post."
Depois gargalhou feito um maluco. - Ela brincou com sua salada de frango Albert Gore. - De qualquer forma, não posso provar que é ele - ela disse -, embora Thelma sempre diga que ele é um pervertido conhecido.
- É isso que Mark diz também - eu disse.
Eu deveria ter imaginado, claro. Quando finalmente percebi, a coisa já estava acontecendo há meses, há sete meses - exatamente o mesmo tempo em que eu estava grávida. Eu deveria saber, deveria ter suspeitado de algo mais cedo, especialmente porque, durante aquele verão, Mark passou muito tempo no dentista. Lá estávamos, Sam e eu, sentados em West Virginia, fazendo buracos de ar em potes cheios de centopéias, e lá estava Mark, indo e vindo de Washington, tratando canais e gengivas, fazendo uma ponte e recebendo instruções sobre como passar o fio dental, sem reclamar nenhuma vez sobre a inconveniência ou a dor, ou sobre a chatice de ter que ouvir Irwin Tannenbaum, cirurgião-dentista, tagarelar sem parar sobre sua clarineta. E então já era outono e todos nós voltamos a Washington, e toda tarde Mark emergia de seu escritório e ia para a garagem, dizendo que iria sair para comprar meias, e
toda noite ele voltava para casa de mãos vazias e dizia que era inacreditável como era duro encontrar um par decente de meias naquela cidade. Eu demorei quatro semanas para me dar conta do que estava acontecendo! Imperdoável, principalmente porque este era exatamente o tipo de coisa que meu primeiro marido dizia ao voltar para casa depois de passar a tarde na cama com Brenda, minha melhor amiga que veio, então, a ser minha inimiga mortal.
- Onde você passou as últimas seis horas? - eu perguntava ao meu marido.
- Eu estava comprando lâmpadas - ele respondia. Lâmpadas. Meias. O que eu estava fazendo, casando-me com homens que sacavam da algibeira desculpas como estas? Uma vez, quando era casada com meu primeiro marido, saí de casa para ir me encontrar com um homem em um quarto de hotel às seis da manhã, e disse ao meu marido que ia participar do Today Show; e nunca sequer passou pela cabeça dele ligar a televisão para assistir ao programa. Ora, isto é o que chamo de uma mentira decente! Não que isto faça alguma diferença para provar minha ingenuidade; não importa o quão inteligente você é se seus dois maridos dão um jeito de provar como você é burra, como os meus, com facilidade, fizeram.

Claro, minha escapadela com o homem no quarto de hotel aconteceu há muito tempo - antes do meu divórcio, antes de eu conhecer Mark, antes de eu decidir me casar com ele e me tornar uma incorrigível crente na fidelidade. Claro que é terrivelmente irônico que a época de minha total conversão à fidelidade tenha sido a mesma de meu casamento com Mark, mas timing nunca foi meu forte, e, de qualquer forma, a alternativa infidelidade não funciona mesmo. Você só tem certa quantidade de energia, e quando você a dispersa por aí, fica tudo muito confuso e então você se dá conta de que mal consegue se lembrar para quem contou qual história, você se dá conta de que está gemendo: "Ah, Morty, Morty, Morty", quando o que quer dizer é: "Ah, Sidney, Sidney, Sidney"; e
então você se dá conta de que acha que está apaixonada pelos dois pelo simples motivo de ter sido criada para acreditar que a única resposta polida para as palavras "Eu te amo" é "Eu também te amo", e então você se dá conta de que acha que está apaixonada só por um deles, porque está culpada demais
para lidar com seu suposto amor pelos dois. Depois de encontrar o livro com aquela dedicatória abjeta, liguei para Mark.

Tenho vergonha de contar a você para onde eu liguei para ele - tudo bem, vou contar: liguei para o consultório da terapeuta dele. Ele vai se consultar com uma terapeuta guatemalteca, em Alexandria, que se parece com a Carmem Miranda e tem um cãozinho chamado Pepito.
- Venha para casa imediatamente - ordenei. - Eu sei sobre você e Thelma Rice.
Mark não veio para casa imediatamente. Ele veio para casa duas horas depois porque - você está preparado para esta? -
THELMA RICE TAMBÉM ESTAVA NA TERAPEUTA. Eles estavam tendo uma sessão dupla! Ao preço de uma sessão familiar!! Eu não sabia disto na época. Não apenas Thelma Rice e Mark viam a doutora Valdez e seu chihuahua, Pepito, uma vez por semana, mas também o marido de Thelma, Jonathan Rice, o subsecretário de Estado para Assuntos do Oriente Médio. Mark e Thelma viam Chiquita Bacana juntos, e Jonathan Rice a via sozinho - e este era o homem que tinha algo a ver com as tentativas de paz no Oriente Médio.

Quando finalmente Mark veio para casa, eu estava completamente preparada. Eu havia ensaiado um discurso sobre como eu o amava e como ele me amava e como nós tínhamos que lutar pelo nosso casamento e que nós tínhamos um bebê e um outro a caminho - realmente o tipo de discurso perfeito para a situação, exceto que eu não havia entendido a situação direito.
- Estou apaixonado por Thelma Rice - ele disse quando chegou a casa.
Era esta a situação. Depois ele me disse que, embora estivesse apaixonado por Thelma, eles não estavam tendo um caso (ao que tudo indica, ele achou que eu poderia lidar com o fato de ele estar apaixonado por ela, mas não com o fato de ele estar transando com ela).
- Isso é mentira - disse a ele -, mas, se for verdade - entenda, havia uma parte de mim que queria achar que tudo era verdade, apesar de eu saber que não era: os homens são capazes de trepar até com uma persiana -, se isso for verdade, dava no mesmo você dormir com ela ou não, não faz diferença. Algum tempo depois, após repetir toda essa lengalenga de amor, de declarar que não abriria mão dela e depois de dizer que eu era uma víbora, uma vaca, uma kvetch1 e uma chata de galocha, e que eu odiava Washington (esta última declaração era inegavelmente verdadeira), ele disse que, apesar de tudo, esperava que eu ficasse com ele. Neste momento, passou pela minha cabeça que ele pudesse estar louco. Sentei ali no sofá com lágrimas rolando pelo meu rosto e com meu barrigão
repousando nas minhas coxas, espremi um restinho de coragem e, quando Mark terminou seu décimo sexto discurso sobre o quão maravilhosa Thelma Rice era, comparada comigo, eu lhe disse:

- Você está louco. - Isto me custou toda a autoconfiança que eu tinha. - Você está errado. Ele está certo, pensei. Eu estou errada. Bem, seguiu-se um círculo vicioso.

E então ele me perguntou se eu queria ficar sozinha por um tempo.

Imaginei que ele queria ir correndo para a casa de Thelma contar como tinha se mantido firme em seu amor por ela. Não importava. Ele saiu de carro e eu peguei Sam e uma mala cheia de fraldas descartáveis, chamei um táxi e fui para o aeroporto.

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