No livro "Para Francisco", Cristina Guerra reúne trechos do blog (real) que criou para seu filho após a morte de seu marido, aos sete meses de gravidez. O livro foi lançado pelo selo ARX, da Saraiva.
Leia abaixo um trecho de "Para Francisco":
Minha mãe nunca me escreveu um livro para contar quem era meu pai. No entanto, foi pelos olhos dela que o vi por muito tempo. Era ela quem fazia a ponte entre nós. Depois que ela se foi, eu e ele finalmente nos conhecemos.
Você também verá seu pai pelos olhos da sua mãe. E é esse que vai levar para a vida. Espero que eu consiga fazer com que você sinta o pai que teve. E que possa sentir saudades dele, como ele sentia da minha mãe, do meu pai, da minha avó, mesmo sem tê-los conhecido. Como é o sentimento doce que tenho pelo meu avô, pai da minha mãe, que nem ela pôde conhecer.
Começo pelo fim. Depois da morte do seu pai, meu coração me contou minha própria história, seguindo a ordem do que para ele era mais importante.
Escrevi. Movida por uma angústia e por um medo.
A angústia de não poder falar com seu pai nem com você, pois ele tinha acabado de ir e você tinha acabado de chegar. O medo de ver fugirem as palavras que me vinham naquele turbilhão. A angústia de amar um homem e querer que o mundo inteiro também se apaixonasse por ele. O medo de você se perder da sua origem.
Escrevi para não esquecer.
Enquanto fiz isso, eu e você perdemos algum tempo de convivência. Dei a minha presença em troca da companhia do seu pai. Para que você pudesse levá-lo aí dentro.
Talvez eu tenha escolhido amar de novo, sofrer por mais tempo e com mais intensidade. Para que você tivesse direito a ele. Eu precisava lhe dar o seu pai de presente, filho. Se pudesse, faria o mesmo por ele, para que ele também pudesse sentir o milagre que é ter você.
Talvez, por confrontar a morte tão cedo, venha a ansiedade para dizer tudo. Talvez, por ter sido obrigada a desbravar meus próprios caminhos, venha a vontade de deixar uma espécie de mapa.
Essas cartas só vão ser lidas por você daqui a alguns anos. Mas tive urgência em escrevê-las. Aprendi que os fatos mudam à medida que nos distanciamos deles.
Você tem em suas mãos um quebra-cabeça. Juntando as peças, o resultado sou eu.
Leia como quem assiste a um filme. Com a alma livre. E saia com a sensação de alegria de quem conhece uma história, sem se apegar a ela - levando só o que ela tiver de melhor. Saia como quem ganha um presente. Mas um presente leve, pra não pesar na sua viagem. Quem sabe, um dia, você mesmo me conte alguma coisa sobre seu pai.
Eu amo você, filho. De coração gordo, como dizia seu pai. E isso sempre vai ser verdade, não importa em que data você o esteja lendo.
Sem resposta.
From: Cristiana Guerra
Date: Wed, 17 Jan 2007 10:57:44 -0200
To: guifraga
Subject: Bom dia.
Que dia lindo, né, amor?
Já passei lá na Magma e deixei o presente pro Marcos.
Ele não tava lá.
Eu amo você.
Um beijo.
18 de julho de 2007
Seis meses desde aquela manhã.
Na primeira vez que seu pai fez café-da-manhã pra mim, trouxe até a cama um ovo quente com torradinhas cortadas em lascas, dispostas no prato como uma fogueirinha.
Tão gostoso quanto comer as delícias que ele cozinhava era ver o prazer que ele sentia ao preparar um prato qualquer - mesmo um simples sanduíche. Bastava parar ao lado dele e dizer que estava com fome para ouvi-lo perguntando, animado: "O que você quer comer?". E um ovo frito virava a comida mais gostosa do mundo.
Não era preciso ser apaixonado pelo seu pai para sentir isso.
Ele era um cara presente nas pequenas coisas da vida. Não nos dias de festa, tomando champanhe - no dia-a-dia mesmo. Mas, se fosse preciso, também providenciava o champanhe em plena segunda-feira à tarde.
Ele acordava cedo, olhava para o céu azul e comemorava. Sorvia cada raio de sol fazendo alguma coisa simples. Não passava um dia sem dar um abraço quente em alguém. E, nos raros dias em que tinha preguiça de acordar, esperneava na cama feito criança. Tinha o sorriso de uma delas.
Passávamos horas rindo juntos. Cantávamos ao longo de toda viagem. Fazíamos piada de tudo. Ríamos também nos e-mails que trocávamos, nos telefonemas. Era delicioso fazer e falar qualquer bobagem com ele, como também era bom ficar em silêncio. Com o seu pai eu tinha aquela sensação quase de alívio de quando a gente encontra o amor de verdade. Um dia você vai saber o que é isso.
O amor do seu pai por mim fez parte da minha vida antes mesmo de o namoro começar: na geléia de morango que ele fazia, no queijo que ele me trazia de presente sempre que ia ao Mercado Central, no abraço de todo dia de manhã, no jeito especial de me ajudar no trabalho ou mostrar um caminho mais fácil para fazer uma coisa qualquer. Sua presença trazia delicadeza pra vida da gente.
Nunca moramos juntos, mas brincávamos de casados de sexta a domingo. E era muito gostoso.
Quando eu estava esperando você, com aquele barrigão, era seu pai quem fazia supermercado pra mim. O último, eu me lembro: entre um item e outro da lista, encontrei chocolate amargo, azeitonas pretas bem grandes, biscoitos, frutas fresquinhas e o meu sorvete predileto.
O vidro de azeitona ainda durou muito tempo na geladeira, mesmo depois que ele deixou este mundo, me fazendo lembrar as palavras da sua bisavó Juju: "Que absurdo as coisas durarem mais que as pessoas".
E acredite, Francisco: naquela manhã de 17 de janeiro, na minha geladeira, havia um pote de geléia de morango que ele sempre preparava pra mim. E foi por volta das nove da manhã que eu comi a última colherada.
Ele me deu tanto amor, filho, que até a falta dele me deixou presentes. Descobri quantos amigos tenho. Aprendi a dizer "Preciso de você". E não passo um dia sem ver um amigo, sem falar ou ouvir uma palavra de carinho. Chamo as pessoas de queridas - e é sincero. Herdei os amigos dele e o amor dele pelos amigos.
Para mim ele também deixou uma família nova que, como você, aprendo a conhecer a cada dia. Que bom ter família de novo, meu filho. Que jeito lindo o seu pai encontrou de continuar vivendo.
Vejo você crescendo e penso em como seu pai ficaria feliz ao ver você tão parecido com ele. Fico em dúvida se ele trocaria fralda de cocô. Se ele aprovaria as nossas escolhas, essas que faço sozinha.
Mas de algumas coisas tenho certeza: ele adoraria fazer você dormir. E chegaria mais cedo em casa pra ver você acordado. E levaria você pro clube, pra passear no mato. E cantaria pra você.
Não consigo entender como seu pai desapareceu, como também não sei explicar o milagre do seu aparecimento, Francisco. Só sei que 2007 é o pior e o melhor ano da minha vida.
19 de julho de 2007
Cartas ao vento.
Pela primeira vez, eu estava distraída. Naqueles últimos meses, eu me despedia dele sem a sensação de que aquela poderia ser a última vez. Talvez por isso eu não tenha dito a ele o quanto o amava. Está certo, ele sabia. Mas queria ter dito mais uma vez.
20 de julho de 2007
Calendário.
Tem dias que são o seu pai, Francisco. Amanhece, o sol lá fora diz o nome dele, o silêncio do sábado chora a sua ausência. E de repente tudo o que era alegria vira um buraco. Tem dia que tudo o que andei se desfaz. E volta uma tristeza aguda, a maior do mundo. Em dias como esses, só você faz sentido. Porque você é a continuação da nossa história. Tem dia que o sol pode brilhar lindo lá fora, mas é um brilho triste. Tem dia que nem chove, mas é dia de choro. Mas tem sempre um outro dia, filho. Foi você quem me ensinou isso.
"Para Francisco"
Autora: Cristiana Guerra
Editora: ARX/Saraiva
Páginas: 190
Preço sugerido: R$ 30