Em "Garota Encontra Garoto", recém-lançado no Brasil pela editora Companhia das Letras, a escritora escocesa Ali Smith - a mesma de "Por Acaso", também pela Companhia - baseia-se no mito de Ifis, uma filha de deuses que é criada como menino em obediência a um oráculo divino. "Garota Encontra Garoto" começa com um diálogo entre duas meninas e seu avô, que lhes conta do tempo em que "era menina".
Leia abaixo um trecho do livro:
EU
Agora deixa eu contar como eu era quando menina, diz nosso avô.
É sábado à tarde; nós sempre ficamos na casa deles aos sábados. O sofá e as poltronas estão encostados na parede. A mesinha de teca que fica no meio da sala foi posta de pé, debaixo da janela. O chão está livre para cambalhotas para frente e para trás, para malabar com ovos e laranjas, para lições de como-se-faz-um-salto-mortal, como-se-fica-de-cabeça-
para-baixo, como-se-anda-com-as-mãos. Nosso avô nos segura pelas pernas, de ponta-cabeça, até nos equilibrarmos. Ele trabalhava num circo, antes de conhecer minha avó e se casar com ela. Uma vez, ficou de ponta-cabeça no topo da trupe que fazia uma pirâmide invertida. Em outra, atravessou o Tâmisa em uma corda bamba. O Tâmisa é um rio de Londres que fica a novecentos e cinqüenta quilômetros daqui, segundo o quadro de distâncias de um livro do Real Automóvel Clube que meu pai tem em casa. Ah, sei, por cima do Tâmisa, é?, diz nossa avó. Será que não foi por cima das cataratas do Niágara, não? Ah, o Niágara, diz nosso avô. Essa foi uma embrulhada e tanto.
Isso é depois da ginástica e antes de Namoro no Escuro. Às vezes, depois da ginástica vem o Jogo das Gerações. Voltando no tempo, o Jogo das Gerações era o programa predileto de mamãe, isso bem antes de nós nascermos, quando ela era tão pequena quanto nós. Mas mamãe não está mais
aqui, e, de qualquer forma, preferimos Namoro no Escuro onde, toda semana, sem falta, um menino escolhe uma de três meninas, e uma menina escolhe um de três meninos, todos protegidos por uma divisória e sempre com Cilla Black no meio. Depois, os meninos e meninas do programa da semana anterior aparecem para conversar sobre o primeiro encontro, que em geral foi um horror, e normalmente há um alvoroço para ver se vai ou não sair casamento, porque esse é o nome que isso tem antes do divórcio, e no qual Cilla Black terá a chance de usar chapéu.
Mas o que é Cilla Black, menino ou menina? Não parece ser nem uma coisa nem outra. Pode olhar para os meninos, se quiser; pode dar a volta na divisória e espiar as meninas. Pode transitar dos dois lados, feito mágica, ou piada. A platéia sempre ri encantada quando ela faz isso.
Você está sendo ridícula, Anthea, diz Midge, voltando os olhos para mim.
Cilla Black é dos anos 60, diz nossa avó, como se isso explicasse tudo.
É noite de sábado, depois do jantar e antes do nosso banho. E é sempre estimulante sentar em poltronas que estão fora do lugar habitual. Midge e eu, uma em cada joelho, estamos no colo de nosso avô, encalacrados os três na poltrona deslocada, esperando vovó se acomodar. Ela arrasta a sua poltrona mais para perto do aquecedor elétrico. Põe todo o peso do corpo atrás da mesinha de centro e empurra, para poder assistir aos resultados do futebol. Ninguém precisa de som para ver isso. Depois arruma as revistas na parte de baixo da mesinha e só então senta. As xícaras de chá fumegam. Estamos com o gosto de torradas com manteiga na boca. Quer dizer, eu presumo que estejamos todos com o mesmo gosto, já que comemos da mesma torrada, quer dizer, fatias diferentes da mesma torrada. E é aí que começa a preocupação. Sim, porque e se todos experimentarmos de forma diferente o gosto das coisas? E se cada fatia de torrada tiver um gosto completamente diferente? Afinal de contas, as duas que eu comi tinham gosto decididamente diferente uma da outra. Olho em volta, de cabeça em cabeça, para cada um de nós. Depois sinto o gosto de novo.
Quer dizer que eu nunca contei a vocês sobre a vez em que eles me meteram na cadeia por uma semana, quando eu era menina?, diz nosso avô.
Por quê?, digo eu.
Por dizer que era menina quando não era, diz Midge.
Por escrever palavras, diz nosso avô.
Que palavras?, digo eu.
SEM VOTO SEM GOLFE, responde nosso avô. Eles nos trancafiaram na cadeia porque escrevemos isso no campo de golfe com ácido, eu e uma amiga. E para quê uma mocinha como você quer ácido?, me perguntou o farmacêutico, quando entrei.
Vovô, pára com isso, diz Midge.
O que é que uma menina como você vai fazer com quinze vidros de ácido?, ele me perguntou. E eu contei a verdade, tolo que fui. Quero escrever umas coisas no campo de golfe com ácido, eu disse, e ele me vendeu na hora, só que depois foi correndo à delegacia contar para Harry Cathcart quem tinha estado na farmácia comprando ácido em quantidades industriais. Mas nós ficamos orgulhosos de termos sido presos. Senti orgulho quando eles vieram me pegar. Eu disse para todos, na delegacia, estou fazendo isso porque minha mãe não sabe escrever o seu próprio nome, muito menos votar. A bisavó de vocês assinava o nome com X. X X X. Mary Isobel Gunn. E quando nós saímos para fazer a Marcha da Lama, então, diz nosso avô. Rapaz. Acabou sendo chamada de Marcha da Lama porque - por que será?
Por causa da lama, digo eu.
Por causa da lama, todas nós tivemos de erguer a barra da saia, diz nosso avô.
Vovô, diz Midge. Pára.
Vocês deviam ter escutado a miscelânea de sotaques que emitíamos, parecia uma imensa revoada de aves diversas, todas no céu, todas cantando ao mesmo tempo. Melros, pintassilgos e gaivotas, tordos e estorninhos, martinetes e abibes, imaginem só. Viéramos de todas as partes do país, de Manchester, Birmingham, Liverpool, Huddersfield, Leeds, todas moças que trabalhavam com roupas, porque era isso que a maioria de nós fazia, quer dizer, trabalhávamos em tecelagem, e até de Glasgow, de Fife, até mesmo daqui, tinha gente. Não demorou para ficarem com tanto medo das marchas que promulgaram novas leis contra nós. Disseram que só podíamos marchar em grupos de no máximo doze moças. E cada grupo de doze moças tinha de ficar a cinqüenta metros do outro grupo de doze. E o que vocês acham que o pessoal atirou em nós por marchar, o que vocês acham que o pessoal atirou em nós quando discursamos diante de multidões enormes de gente prestando atenção?
Ovos e laranjas, digo. Lama.
Tomates e cabeças de peixe, diz Midge.
E o que foi que nós atiramos no Tesouro, no Ministério do Interior, no Parlamento?, diz ele.
Cabeças de peixe, digo.
Estou achando a idéia de atirar cabeças de peixe em prédios históricos muito engraçada. Nosso avô me segura com mais firmeza.
Não, diz ele. Pedras para quebrar as janelas.
O que não é exatamente coisa que moças finas fariam, diz Midge, do outro lado, atrás da cabeça dele.
Na verdade, senhorita Midge - diz nosso avô.
Eu não me chamo Midge, diz Midge.
Na verdade, éramos moças finíssimas. As pedras que atirávamos iam dentro de pequenos sacos de linho feitos por nós mesmas, especialmente para pôr as pedras. Éramos muito finas. Mas isso não tem importância. Não tem a menor importância. Escutem isso. Estão prestando atenção? Estão prontas?
Lá vamos nós, diz nossa avó.
Nunca contei a vocês do tempo em que eu era realmente importante, em que fui parte imprescindível no contrabando de Lily, a Incendiária, a famosa Moça Incendiária de Prédios do Nordeste, para fora do país?
Não, digo.
Não, diz Midge.
Bom, então eu vou contar. Será que vou?, pergunta nosso avô.
Vai, digo eu.
Claro, diz Midge.
Vocês têm certeza?, diz ele.
Temos!, dizemos ao mesmo tempo.
Lily, a Incendiária, era famosa. E por um bocado de coisas. Era dançarina e era muito, muito linda.
Sempre de olho nas moças bonitas, diz nossa avó, com os olhos na televisão.
E um dia, diz nosso avô, no seu vigésimo primeiro aniversário, no dia em que a linda (se bem que não tão linda quanto sua avó, é óbvio), no dia em que a linda Lily, a Incendiária, se tornou uma adulta completa - coisa que dizem acontecer quando você completa vinte e um anos -, ela se olhou no espelho e disse consigo: Cansei. Vou mudar as coisas. Saiu imediatamente de casa e quebrou uma janela, como presente de aniversário a si mesma.
Presente mais ridículo, diz Midge. Eu vou pedir um Mini Cooper de presente no meu aniversário.
Mas ela não demorou a decidir que quebrar janelas, embora tivesse sido um bom começo, não era suficiente. De modo que começou a pôr fogo em prédios - prédios desocupados. A coisa funcionou. E isso chamou a atenção
deles. Ela vivia sendo levada para a cadeia, na época. E lá, na cadeia, na sua cela, vocês sabem o que ela fazia?
O quê?, diz Midge.
Ela parava de comer, diz ele.
Por quê?, digo, e, ao dizê-lo, sinto de novo o gosto da torrada na boca.
Porque ela devia ser meio anoréxica, diz Midge, e provavelmente já tinha visto fotos demais de si mesma nas revistas.
Porque não havia mais nada para ela fazer, me diz nosso avô, por cima da cabeça de Midge. Todas elas faziam isso para protestar, na época. Todas nós faríamos. Eu teria feito. E vocês também.
Bom, eu
jamais teria feito, diz Midge.
Teria sim. Você também teria feito, se fosse a única alternativa possível. E aí então eles fizeram Lily, a Incendiária, comer.
Como?, perguntei. Você não pode fazer
alguém comer.
Enfiando um tubo na garganta da pessoa e enfiando comida pelo tubo. Só que eles puseram na parte errada da garganta, puseram na traquéia, por engano, e aí bombearam comida para os pulmões dela.
Por quê?, digo eu.
Ai, diz Midge.
Rob, diz nossa avó.
Elas têm que saber, diz nosso avô. É verdade. Aconteceu. E aquilo de eles botarem o tubo na traquéia dela deixou a moça muito doente, e eles tiveram de soltá-la, senão ela iria morrer. E isso teria gerado uma publicidade muito negativa para a polícia, para o presídio e para o governo. Só que até Lily, a Incendiária, se recuperar, eles já tinham aprovado uma nova lei que dizia: Assim que uma dessas moças melhorar aí fora, sem morrer aqui na cadeia, em nossas mãos, como se os responsáveis pela morte fôssemos nós, podemos sair direto para a rua e prendê-la de novo.
E vocês sabem de uma coisa?
O quê?, pergunto.
O quê?, diz Midge.
Lily, a Incendiária, escorregava feito quiabo pelas malhas da polícia. Continuou fazendo o que tinha feito antes. Continuou a pôr fogo em prédios vazios.
Ela devia ser meio maluca, diz Midge.
Apenas prédios vazios, não se esqueçam, diz nosso avô. Jamais vou pôr em risco uma vida humana, a não ser a minha, disse ela. Sempre berro antes de entrar num prédio, para ter certeza de que não há ninguém lá dentro. Mas vou continuar incendiando prédios pelo tempo que for preciso, até que as coisas melhorem.
Foi isso que ela disse no tribunal. Usava nomes diferentes, nos julgamentos. Lilian. Ida. May. Isso foi antes de eles saberem como é a cara de todo mundo, como acontece hoje em dia; ela escorregava por entre os dedos deles que nem água quando você fecha a mão para pegar. Isso foi antes de eles começarem a usar filmes e fotos, como fazem atualmente, para saber quem é todo mundo.
Estendo minha mão, de punho fechado. Abro, depois fecho de novo.
E ela continuou pondo fogo, diz ele. E a polícia estava sempre atrás dela. E, da próxima vez, nós sabíamos, ela morreria com certeza, morreria se a pegassem de novo porque estava fraca demais para fazer outra greve de fome. Até que um dia, vocês estão escutando?
Estamos, dizemos as duas.
Um dia, diz nosso avô, uma de nossas amigas veio até minha casa e me disse: Amanhã você vai ter de se vestir de menino de recado.
O que é um menino de recado?, pergunto.
Quieta, diz Midge.
Eu era miúdo, diz nosso avô, tinha dezenove anos, mas podia passar por alguém de doze, treze anos. E tinha um jeito de menino.
Claro, diz Midge, porque você era um.
Quieta, digo.
Então fui olhar as roupas que ela tinha levado para mim, diz nosso avô, e elas até que estavam bem limpinhas, não fediam muito, com um pouco de cheiro de couro, um pouco de cheiro de menino.
Argh, diz Midge.
Qual é o cheiro dos meninos?, pergunto.
E pelo visto iriam me servir. E, Jesus do céu, não é que serviram? De modo que, no dia seguinte, vesti aquilo tudo, saí de casa e peguei a caminhonete que foi me buscar. A moça que dirigia a caminhonete saltou, um menino assumiu a direção e ela lhe deu um beijo, ao sair. Antes de entrar na traseira, debaixo da lona, ela me deu um gibi enrolado, uma maçã e um cesto com coisas, chá, açúcar, um repolho, algumas cenouras. E disse: enterre bem o boné na cabeça, enfie a cara no gibi e, quando saltar, comece a comer a maçã. E assim foi, fiz o que ela me mandou, abri a revistinha ao acaso, segurei-a diante dos olhos o caminho todo, com os quadrinhos saltando para lá e para cá na minha frente, até chegarmos, e quando chegamos na casa certa, o menino que dirigia parou a caminhonete, a porta se abriu e uma mulher gritou: Tudo certo! É aqui! Eu fui por trás, porque é isso que os meninos de recado fazem, escondido pelo gibi, e dei duas mordidas na maçã, uma maçã grandona, elas eram bem maiores na época, no tempo em que eu era menina.
Dessa vez, Midge não diz nada. Está totalmente envolvida na história, como eu.
"Garota Encontra Garoto"
Autora: Ali Smith
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 130
Preço sugerido: R$ 35,00