Aspecto menos conhecido da obra de Manuel Bandeira, suas crônicas publicadas na imprensa ganham nova publicação pela editora Cosac Naify com lançamento previsto para o dia 12 de abril.
"Crônicas Inéditas" é formado por 113 textos escritos para jornais e revistas como "A Província", "Ariel", "Para Todos", "Revista Souza Cruz", entre outros, publicados de 1920 a 1931 por Manuel Bandeira e nunca antes publicados em livro.
Outros textos para a imprensa já haviam sido reunidos livros como "Crônicas da província do Brasil", publicado pelo próprio autor em 1937, em "Flauta de Papel", de 1957 e "Andorinha, andorinha", organizado por Carlos Drummond de Andrade em 1966.
Os textos de "Crônicas Inéditas" foram reunidos a partir de pesquisa nas próprias publicações arquivadas no acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa, na Biblioteca Nacional, no arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro e no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo sob a organização de Júlio Castañon Guimarães.
Além da produção artística, como a música erudita, a ópera e, naturalmente, a literatura, Bandeira também dedica suas crônicas à vida no Rio de Janeiro, fazendo registros interessantes da primeira exibição de um filme falado num cinema carioca ou do primeiro concurso de Miss Brasil recebido pela cidade.
O livro é acompanhado por diversas imagens que ilustram a vida no Rio e muitos dos eventos abordados por Bandeira em seus textos, que passaram por atualização ortográfica, mas tiveram preservados termos estrangeiros utilizados pelo autor como "film" (filme), "team" (time).
Leia a seguir trechos de algumas das crônicas de Manuel Bandeira reunidas em "Crônicas Inéditas", publicação da editora Cosac Naify com lançamento previsto para 12 de abril.
O cinema falado faz sucesso no Rio (publicado em A Província, 11 de agosto de 1929)
O Palácio Teatro, a maior sala de teatro do Rio, esgotou diariamente as lotações com a exibição do primeiro lm falado que se levou no Rio. Apesar de o diálogo ser todo em inglês - e que inglês! o twang nasal americano -, o público interessou-se e gostou. É verdade que as situações são sempre eloqüentes à simples vista, e todo o mundo já está treinado por vinte anos de cinema a compreender o enredo só pela viagem muda. Além disso, o empresário brasileiro mandou escrever no próprio lm algumas legendas mais indispensáveis. Vão ver que este povo daqui a pouco está entendendo inglês. Não admira: o cinema falado é a melhor escola do método Berlitz.
Antes da apresentação da ta ouviu-se um pequeno concerto de canto e um discurso do cônsul Sebastião Sampaio, ambos lmados e gravados pelo movietone. Por esse aparelho maravilhoso a sincronização da voz e da imagem é perfeita. Tem-se a ilusão absoluta de que o som sai da boca. Já ouvi falar o senhor Sebastião Sampaio em carne e osso. O que ouvi no cinema é bem ele e até mais ele. Não há dúvida que no futuro, professores e conferencistas falarão sobretudo para o movietone. Poderemos ouvir de qualquer cidadezinha do interior um curso de Einstein, uma ópera em Milão, uma tourada em Madri, uma luta de box em Nova York.
Miss Brasil talvez não se sinta bem em Galveston (publicado em A Província, 26 de maio de 1929)
A avenida Rio Branco encheu-se de ponta a ponta por ocasião da passagem do cortejo que levava para bordo mlle. Olga Bergamini - a miss Brasil. O concurso de Galveston, coisa comercial americana, inflamou a idealidade nacional, provocando um movimento de opinião com todos os matadores, inclusive o sermão de protesto de um sacerdote indignado. Falou-se em funerais do pudor e nas bacanais do paganismo.
No entanto o embarque de miss Brasil foi uma festinha brasileira. Não havia nele sombra de Grécia antiga. Nunca a houve de resto, porque todas as misses estaduais eram meninas comme il faut, mais admiradas e mais admiráveis pela distinção e graça ingênua das maneiras do que pela plástica, de que nenhuma tirou partido nem fez exibição pública em maillot. A esse respeito os comentários de certos pretensos moralistas é que cheiravam a libidinagem recalcada. Podia-se falar contra o entusiasmo com que se levou demasiado a sério esse concurso de jornal e de praia de banho, mas nunca nos termos ridículos em que o zeram certos católicos.
Crônica musical (A Idéia Ilustrada, 30 de setembro de 1924)
Com a representação da ópera O contratador dos diamantes, do jovem maestro paulista senhor Francisco Mignone, acabou a temporada lírica deste ano. Dadas as diculdades imprevistas com que teve de lutar o senhor Mocchi, não há senão felicitá-lo pela seriedade e brilho com que se desobrigou do seu contrato.
Infelizmente não nos foi proporcionado o prazer, tão esperado, de ouvir A hora espanhola de Ravel. Fazemos votos para que sejamos contemplados no ano que vem com o espetáculo dessa na jóia da escola francesa.
Onde estão as riquezas do folklore brasileiro?(A Província, 17 de março de 1929)
Em carta a um amigo o senhor Oswald de Andrade, depois de haver distribuído os papéis a vários sujeitos num plano de campanha literária, rematava assim: "Quanto ao Mário, esse, coitado, cará connado no folklore...".
Oswald é o campeão nacional nesse sport de perfídias amicais, gênero utilíssimo numa terra em que falta freqüentemente o senso do humour para contrabalançar o espírito de literatura. E ninguém está mais exposto às boutades de Oswald do que o seu grande amigo Mário de Andrade, cujos hábitos de seriedade, de sistema, de exame contrastam singularmente com a deliciosa desenvoltura do autor do Primeiro caderno de poesia. Pois este não disse de outra feita que o Mário "nasceu para andar por caminho errado com gente atrás"? (c) Condomínio dos proprietários dos direitos intelectuais de Manuel Bandeira. Direitos cedidos por Solombra - Agência Literária (solombra@solombra.org)
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