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14/03/2008 - 20h11

Leia trecho de "Carne Viva", último livro de Paulo Francis

Da Redação
Formado por um conjunto de relatos sobre a elite carioca, "Carne Viva" é o último livro escrito pelo jornalista Paulo Francis.

Publicado por iniciativa da viúva do autor, Sonia Nolasco, "Carne Viva" ficou engavetado por mais de 10 anos desde a morte de Francis em 1997.

Divulgação
Capa de "Carne Viva", último livro do jornalista Paulo Francis, morto em 1997
RELATOS DA ELITE CARIOCA
O livro é protagonizado por Francisco Guerra, um banqueiro envolvido em um triângulo amoroso com a aristocrata Bea e o filósofo Beau. Todos transitando pelo universo da elite financeira e cultural do Rio de Janeiro.

Leia a seguir as primeiras páginas de "Carne Viva", último livro de Paulo Francis, publicado pelas editoras Francis e Landscape.




Cidade maravilhosa

Francisco Guerra entrou no assento traseiro do Diplomata que estava estupidamente gelado. A umidade, fora, estrangulava.

Morar na cidade era como viver no paraíso, depois da queda...Melhor viver perto do paraíso. A leste, ou onde estivessem Petrópolis e Angra, no verão. East of Eden era um de seus filmes favoritos. Se identificou muito com a gagueira emocional de James Dean. Não ia mais a Angra. Excesso de gente e velejar sozinho não tinha graça, mesmo quando sonhava que era Sterling Hayden com Madeleine Carroll, sobre quem leu em seus tempos de garoto, e se imaginou despindo aquela loura petite, aconchegante, com aquela boca enorme só para ele, se fechando onde devia...

Lembrava a sombra das árvores do Rio, o frescor perfumado lhe entrando as narinas. Morreram, abatidas. Não era saudosismo de garoto. Aquilo existiu. Se ele, banqueiro, "homem do ano" naquele banquete tedioso em Nova York, e casado com Maria Elizabeth Gonzaga, ou Bebete, de uma família que veio com uma das quinze capitanias hereditárias, reclamasse, viraria manchete. Ser verde era moda, agora que o consumismo pifara.

Algumas pessoas são temperamentalmente fanáticas. Precisam de uma bandeira qualquer, não importa qual. Essas vestais da natureza estavam cada vez mais agressivas, querendo cortar o barato dos desbravadores, dos criadores de riquezas.

Guerra achava frescura esse culto da natureza, tão amiga do homem como o tigre. Mas moitava. Seu grande charme impressionava até seus inimigos e críticos. Seu Eustácio, o líder sindical do Banco, dizia: "Ser amigo de patrão é ele ter o direito de te mandar à merda e a gente não ter o direito de responder. Mas o Dr. Guerra é humano. Ouve. Discute. Não impõe, só". Guerra queria agradar. Ser tido como "uma flor de sujeito".

Procurava aceitar os outros, se esquivando dos chatos delicadamente; o convívio com ele era fácil, não era um crítico, intolerante, ou exigente. Saiu aos seus, à sua raça. Fazia as coisas por emoção e cabeça, misturadas, indissoluvelmente.

Dando o desconto do relativismo moral da época, percebia quando seus apetites turvavam decisões de bom senso, ou poderiam lhe prejudicar a carreira, e se policiava na medida de sua capacidade.

Estupidamente gelado. Guerra era carioca da gema, espécie em extinção. Tinha paixão pelo Rio e falava a linguagem de sua terra, despudoradamente, sans peur et sans reproche. O Rio, lindo, incomparável obra de Deus, que Le Corbusier, ao ver a obra de Oscar Niemeyer no Ministério da Educação, aconselhou o discípulo a não mexer com a natureza da cidade.

Banqueiros são discretos. Guerra não emitia opiniões, exceto aos íntimos confiáveis. Mas muito se ressentia dessa turba toda, que vinha do Oiapoque ao Chuí carcomer a cidade. Antigamente, mineiros, maranhenses, cearenses, capixabas e até piauienses e paulistas migravam para o Rio. Em semanas estavam integrados, gente como a gente. Agora, não. O esgoto aflorava à rua. Guerra chorava o fim do Rio. Enquanto não acabava, era o melhor que havia, uma tocha acesa de civilização, não, não dava mais para isso; uma chispa de isqueiro no escuro, um fósforo cinematográfico que, na tela, dava clarão, uma faísca, no máximo, mas ainda assim perceptível num país escuro, imenso, jeca, alheado a tudo, e que tropeçava em seu destino.

Era preciso uma cabeça fantástica para matar essa charada. Estava no Rio.Quem dera que a vida pessoal de Guerra fosse tão simples de entender como a agonia da sociedade brasileira. Boiava por completo com a prima de segundo grau de sua mulher, Maria Clara, de quem era amante ocasional.

Maria Clara seria dele, não hoje, porque chegaria à noite a Petrópolis, na hora de jantar, com a família. Mas em tempo...

Guerra jantaria com sua mulher, Bebete, o marido de Maria Clara, João, o típico "bobo alegre" que só queria falar de esporte, Maria Clara e a sogra que não dirigia a palavra a ninguém desde a morte do marido. A velha, a quem olhasse, dava aquela ansiedade que faz com que, de repente, se apalpe a carteira, pensando que desaparecera.

Do que tomava conhecimento era um segredo, envolvido num mistério, que continha um enigma. Guerra leu isso na revista Time e gostou.

Guerra tirou outra Coca-Cola estupidamente gelada do minibar do carro e acendeu um Hollywood, que lhe dava pigarro, mas cuja tragada era a única que saciava o pulmão carente de nicotina há muitas horas, porque Temístocles, o presidente do Banco, odiava o fumo. Não proibia, claro, a seus diretores, como Guerra, que fumassem, mas enfrentar a cara de desagrado do velho, o pseudo-ataque de tosse e as exclamações de que cheirava um fedor não sabia onde, não valia o esforço para Guerra que, de resto, competia com dois outros diretores pela sucessão de Temístocles, que um dia desses empacotaria, morrendo, ou se aposentaria.

Guerra era, como os rivais, sobrinho de Temístocles Soares, de uma família antiga, tradicional, mas sem nenhuma distinção especial, que tinha dado o nome a várias instituições culturais, as quais doou dinheiro, e isto e aquilo. Não era esse o caso de Temístocles, cuja unha de fome não tinha tamanho e cujos únicos assuntos sociais eram: como seria bom que fosse restabelecida a escravidão; melhor para os próprios negros, que teriam sua vida reorganizada, em vez de andarem ao léu fedendo pela rua; e o vago temor de que os judeus estivessem tomando conta de tudo.

Guerra não podia negar que achava graça na loucura do tio, desde que não voltada contra ele... Antonio Carlos e Marcos, os rivais de Guerra, eram caretas e monoglotas.

Conheciam, da vida, o Banco. O que não fazia deles pessoas muito diferentes de Temístocles. Mas o tio tinha uma garra que jamais cresceriam.

O seu (olhou quem era chofer) Alfredo arrancou da garagem do Banco, depois de um boa-noite, a que Guerra respondeu amavelmente, perguntando pela família do cara.

Francisco Guerra, cinqüenta anos, formado em economia pela PUC. Estágio para doutorado na Fundação Getulio Vargas.Tudo que sabia de banco tinha aprendido com Temístocles e amigos estrangeiros, porque falava inglês e francês e viajava a serviço do Banco. Seu maior diploma era ter morado um ano na Inglaterra. Sua mãe era irmã de Temístocles, que só acreditava, com restrições e muita vigilância, na família.

Mas, entre os Soares, o primogênito herdava tudo, à la inglesa, e Temístocles era o primogênito. Aceitou o sobrinho no Banco por dever de sangue, embora tivesse dúvidas sobre a pureza desse sangue, por causa da paternidade de Guerra.

Seu pai, conhecido como Bobbyzinho, era um playboy, bissexual; bicha, no caderninho de Guerra. Bobbyzinho deixara mulher e filho. Guerra tinha nove anos de idade. O pai fugiu com um oficial da marinha turca.

Quando um amigo da PUC, Sílvio, lhe contou que Aristóteles Onassis, apesar de mulherengo, era amante passivo de um oficial da marinha turca, Guerra passou uma descompostura no colega, pensando que fosse indireta sobre Bobbyzinho. Guerra não conseguia pensar em seu pai sem rancor e com uma contida, mas inexplicável, vontade de chorar. Tratava sua mãe sem qualquer intimidade, como se tivessem sido apenas apresentados.

Ficava pouco à vontade com ela. Sentia vagamente que essa distância tinha sido imposta pela mãe, desde que ele era bem criança e dependente dela. Aumentou depois do sumiço de Bobbyzinho quando, então, o menino, sem nada entender, foi mandado para o internato.

Guerra estava certo de que a mãe nunca tinha sido carinhosa com ele; não se lembrava sequer de um abraço demorado. Muito menos de beijos. Fazia-lhe todas as vontades, submissa, mas como se cumprisse o papel de mãe, e não porque quisesse dar prazer a seu único filho. Aos quinze anos, ele deixou o internato e voltou a morar com a mãe, que agora dividia a casa com sua irmã mais velha, Maria do Rosário, solteirona e carola. Sentiu-se um hóspede bem tratado. A mãe e a tia se dedicavam a obras de caridade da igreja e às amigas. Pareciam ficar constrangidas na presença daquele adolescente.

Mal falavam com ele, que se trancava no quarto para estudar, ia muito à praia, saia com os amigos. Frequentando a casa dos amigos, se deu conta da falta que lhe fazia o pai, a figura paterna, um modelo masculino, e, tentando capturar memórias do passado, se perguntava se a mãe não teria sido responsável pela decisão de Bobbyzinho... Passou a tratá-la com indiferença. Nem conseguia chamá-la de mamãe.

Mais velho, quando se deu conta de sua dívida, o que incluía instrução e acesso a Temístocles, Guerra quis tratar a mãe com respeito, sincero, e até exercer certo carinho, pelo que fazia força. Injusto culpar a mulher pela deserção do marido, seu pai... Ela recusou e terminou se mudando para uma casa velha, de aluguel barato, em Miguel Pereira, onde, com Maria do Rosário, viviam deus-sabe-como, já que não aceitava dinheiro de Guerra, Bobbyzinho não comparecia às urnas, e Temístocles, quando muito, remetia às irmãs um carregamento de Lindóias e bananas. Guerra supunha que havia algum fundo acessível às duas velhas, talvez de Maria do Rosário, o que ele desconhecia. Nas raras vezes em que foi a casa delas com Bebete levar os filhos e outros cerimoniais de família, não parecia faltar nada. Guerra fazia votos de que seu pai tivesse morrido de aids. Mas nunca disse nada.

Terminou a Coca-Cola e o cigarro, abriu a janela daquele carro ordinário e jogou fora. No apartamento que tinha, sem que Bebete soubesse, num vão da Rue des Rennes, em Paris, Guerra guardava um MG, renovado, maravilha, que lembrava dois semestres que passou na Universidade Cambridge, na Inglaterra, numa bolsa para estrangeiros, nos anos 60. Guerra gostaria de ter sido inglês, da classe alta. Mas não era. Azar.

Respirou fundo e tirou do bolso um caderno de notas onde estava escrito $347.557, 00 - 347 mil 500 e tantos dólares, que era quanto tinha ganho, hoje, naquele dia, apenas, convertendo, por computador, cinco milhões de dólares, que estavam em Liechtenstein, para Londres. Soube que a libra ia subir e carregou nela. Raro era o dia em que não comprava mais barato alguma coisa e vendia mais caro, no Brasil e no estrangeiro.

Não contava, pela dispersão do dinheiro, mas calculava já ter perto de cinquenta milhões de dólares. Truman Capote dizia que rico mesmo era ter acima de cinquenta milhões de dólares. Bebete não tinha a mais remota idéia dessa riqueza extra do casal, que de resto não era usada à vista da mulher, e nem Temístocles, Antonio Carlos ou Marcos, se bem que Guerra não duvidava de que os três faziam também seus negócios particulares, valendo-se de sua posição.

É que simplesmente não se falava do assunto, entre banqueiros e com civis, quem não era do métier, nem a mais leve sugestão de quanto dinheiro se tinha. A maioria das pessoas não gostava de banqueiros - era impossível não reparar. Se dizia horrores da ganância, rapinagem e crueldade dos banqueiros. Mas nunca pela frente. Ao contrário. Só radicais escreviam contra banqueiros. E bobagem. Não entendiam do negócio.

Guerra sabia que banqueiros, de corpo presente, suscitavam deferência quase servil nos outros, ainda que sublinhada de ressentimento. Dinheiro é o único poder que, enquanto se tem, nunca se perde por concurso de popularidade ou aposentadoria.

Não há eleição, e não se vai para casa de pijama, castrado, como militar. Guerra se achava como os pistoleiros dos velhos westerns tipo The Man Who Shot Liberty Valance, odiados, mas temidos e respeitados.

Talvez pusesse um vídeocassete hoje à noite, depois que Bebete fosse dormir. Queria ver My Darling Clementine, com Henry Fonda. Quem era melhor, Fonda, John Wayne ou Jimmy Stewart? Guerra não se decidia. E Linda Darnell, do filme, lhe lembrava Maria Clara.


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