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27/08/2011 - 07h00

Um amor sadomasoquista entre um velho e uma garota de 17 anos é o tema do ótimo e inquietante "Hotel Íris"

Por Marta Barbosa

Divulgação

"Hotel Íris", Yoko Ogawa

O grotesco na personalidade e no comportamento humano a partir da perspectiva de uma garota masoquista de apenas 17 anos. Sim, “Hotel Íris”, de Yoko Ogawa (tradução do francês de Marly Peres), não é um livro leve, nem tranquilo. A autora, que coleciona prêmios e traduções dos mais de 20 títulos lançados no Japão, encaminha o leitor por um percurso inquietante, questionando nossa capacidade de vencer as páginas. Faz isso, no entanto, com um texto leve, claro, rebuscado enquanto aprimoramento da linguagem, e de inquestionável magnetismo. 

A narradora é Mari, a jovem estudante aprisionada a uma vida aborrecida ao lado da mãe, a autoritária e algo agressiva herdeira de um obsoleto hotel, localizado provavelmente na costa do Japão. Com a mãe, Mari estabelece uma relação pautada mais na trepidez que no amor.

Numa passagem que exemplifica o relacionamento entre elas, a narradora descreve o que deveria ser um gesto de atenção cotidiano: todas as manhãs, em frente à penteadeira, a mãe cuida de prender o cabelo da filha. “Ela manda eu me sentar diante do espelho, puxa com a mão esquerda todo o meu cabelo, e eu não posso mais me mexer. Ela é tão estúpida com a escova que arranha meu couro cabeludo. Se eu mover minimamente a cabeça, ela puxa com ainda mais força. Perco toda a liberdade quando ela está se ocupando de meus cabelos." 

Certa noite, enquanto Mari se ocupava da recepção do Hotel Íris, um forte barulho vindo de um dos quartos ocupados marca o início de uma profunda transformação da garota. Do quarto sai uma mulher seminua, nervosa e aos gritos, claramente uma prostituta. “Quem você pensa que eu sou, imbecil? Por acaso você acha que as pessoas aceitam qualquer coisa?”.

Antes de avistar o homem, a garota escuta sua voz. De dentro do quarto, com uma voz “grossa e profunda”, que não denotava nem irritação, nem cólera, ele mandou que a mulher se calasse. Para Mari, a ordem ressoa de um jeito bonito, emanando majestade, convicção e sangue-frio. “Eu esperava a frase ser dita de novo, só para mim”, deseja a narradora.

O homem é um recluso tradutor do russo às portas da velhice, de pele enrugada e postura soberba. Do encontro dele com Mari floresce essa angustiante relação sadomasoquista. A garota se submete a todo tipo de humilhação nas mãos do tradutor, se equilibrando emocionalmente numa aparente ignorância emocional. Ela não enxerga outra possibilidade a não ser submeter-se às ordens. E é essa incompreensão baseada numa certa inocência infantil que prende o leitor até o fim desse romance. Por sorte, “Hotel Íris” é um livro curto, de apenas 208 páginas.


"Hotel Íris"

Autor: 
Yoko Ogawa
Editora: 
Leya Brasil
Tradutor: 
Marly Peres
Páginas: 
208 páginas
Preço: 
R$ 34,90

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