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Capa do livro "Submarino", de Joe Dunthorne |
Todo autor busca uma voz literária que seja ao mesmo tempo original, divertida e altamente perspicaz - o que não é fácil, especialmente quando se usa a perigosa primeira pessoa, propensa a arroubos excessivos, autoindulgência e comentários pretensamente filosóficos.
Joe Dunthorne encontrou essa voz ao criar Oliver Tate, personagem central de “Submarino”, livro que vem fazendo sucesso mundo a fora, entre público e crítica, já com uma adaptação ao cinema, com trilha de Alex Turner, do Artic Monkeys e produção de, entre outros, Ben Affleck.
À maneira de Holden Caufield, famoso outsider adolescente de “O Apanhador no Campo de Centeio”, clássico do recluso Salinger, ou mesmo de Christopher Boone, de “O Estranho Caso do Cachorro Morto”, de Mark Haddon, Oliver consegue uma estranha mas intensa empatia com o leitor, a despeito de suas esquisitices. Ou melhor: por causa de suas esquisitices.
Profundamente inteligente, mas um tanto alheio às emoções e aos efeitos adjacentes de suas ações e comentários excêntricos – os quais encara de forma mais ou menos “científica”, segundo uma lógica meio maluca, ele, com seus quinze anos recém-feitos, pode lembrar também uma versão teen de House, sem a rabujice do Sherlock da medicina.
Parece ter algo de autista, num grau pequeno. Ou seja, vive num universo próprio, cheio de regras curiosas, mas não a ponto de isolar-se do mundo. Ao contrário, tem namorada - a sexy e sensata Jordana - , e preocupa-se com a saúde marital dos pais, a ponto de checar diariamente se há sinais de sexo na cama conjugal e seguir a mãe até um retiro espiritual e depois um acampamento de surfistas hippies para ver se ela está transando com o antigo namorado.
Uma de suas obsessões são as palavras – e quanto mais raras melhor. Elas dão nome aos capítulos e de certa maneira definem o que acontece em seguida. Apostasia, canicídio e triscedecofobia dão uma ideia dos seus interesses. Seu diário está cheio delas, além de planos malucos e anotações esdrúxulas, que Jordana lê e manda refazer, de acordo com as necessidades de sua vaidade e o direcionamento que quer dar à relação - uma das melhores cenas do livro é quando perdem a virgindade juntos.
Há outros personagens curiosos, como o valentão Chips, garoto bravateiro da escola, responsável pelos piores atos de bullying contra a pobre Zoe, uma tímida e sensível gorducha. Num de seus gestos típicos, Oliver escreve para ela um manual de como reagir aos ataques de Chips, com dicas bem intencionadas mas duvidosas. Uma delas: “Como se enturmar com gente que você não gosta mesmo sendo do tipo endomorfo”.
Aliás, essa é a fonte de muitas passagens engraçadas no livro. Na tentativa de consertar o que considera errado no seu mundo e no mundo dos adultos, Oliver, com sua linguagem esquizo-nerd, lapidada em pesquisas em sites obscuros na internet e livros de referências, acaba piorando as coisas, criando uma série de mal-entendidos e confusões semânticas e sentimentais.
Dunthorne é galês, o que dá um charme extra ao seu livro de estreia, passado na bela Swansea, cidade portuária no sul do país. Poeta performático, aluno e hoje professor de escrita criativa, vem sendo apontado, aos 29 anos como uma das boas promessas da literatura britânica.
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COMUNICAR ERRO01/02/2012