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Divulgação/Tinta Negra
"Lugar", de Reni Adriano: apesar da pouca idade, narrativa é madura |
“Lugar”, do estreante nas prateleiras Reni Adriano (editora Tinta Negra), é um livro raro. Primeiro por ser um lançamento que destoa por completo do panorama de novidades das livrarias. É tanta originalidade que nem parece estreia, menos ainda de um moço de 29 anos. É raro também pelo primoroso trabalho de investigação narrativa, embora jovem, bastante maduro, e muito, muito bom de ser lido.
Não à toa, a obra foi vencedora da categoria "Ficção" do Prêmio Minas Gerais de Literatura, em 2009. Sai agora para o grande público com o respaldo de escritores consagrados, como o mineiro Luiz Ruffato que, na orelha do livro, diz se tratar de uma nova literatura: “linguagem, universo, visão de mundo - tudo originais, como se estivessem sendo inaugurados nesse mesmíssimo momento”.
É um romance que flerta com a poesia - não há sobras no texto. Tudo escrito está tomado de significado - e com a tradição oral. Há trechos que convidam à leitura em voz alta, no melhor estilo Guimarães Rosa.
Bom exemplo é o seguinte trecho em que o autor descreve o susto de uma paixão que começa: “Admirá: A moça no corpo: A carne na vida: Vendo-a, Inácio principiou por lembrar do seu próprio corpo, agitado numa densidade e espessura nunca tidas: O limite do corpo e os próprios contornos alcançando de matéria o dilatado de espírito: Palpável e espesso na amplidão de um calor que a carne produzia: Um susto febricitante de alívio aconchegando-se a um perigo agitando o sangue, e fazendo-se mais carne de espírito: O enlaçar-se de um corpo em outro corpo produzindo o vigor de um cansaço ativo gerando fôlego: Até desmoronar-se no agito de um espoco, devolvendo corpo à exaustão do próprio corpo, saciado de uma saudade não sabida. Arfante. Entorpecido.” Agora, experimente ler o trecho acima em voz alta.
"Novo" Guimarães
As relações com um dos maiores nomes da literatura brasileira não param ai. Palavras inventadas, elementos da língua elevados à condição de nomes próprios e uma geografia impossível marcam “Lugar”. O próprio enredo que contamina a narrativa transporta o leitor a um não muito distante Guimarães Rosa.
Nas palavras do próprio autor, esse é um livro sobre o proibido. “Uma doença que se dobra sobre si mesma e multiplica, redobrando-se quantas vezes mais se pronuncia aquele próprio nome.” Trata-se de um “sentimento que vira-se doença, envenena-se pelo espírito do ouvido, e pelas bocas - todas as bocas que haveriam de narrar aquilo para meninas para meninos”.
Não é uma leitura fácil. É um tipo de livro que exige atenção e que, invariavelmente, leva o leitor a uma viagem densa, e muito proveitosa. Também não é um livro leve. Ao contrário, se uma palavra puder resumir todo o enredo, essa palavra é “violência”. Há socos e pontapés narrativos. E a morte é mais constante nas páginas de “Lugar” do que a vida. A inocência pesa como “lodo de escureza absoluta”.
Personagens
Os personagens são enigmáticos, não chegam a ser desvendados inteiramente ao leitor. Tem a Maluzia, a benzedeira que usa peruca de pernas de tarântula. Tem a Desgraça Pelada, a criatura sem modos que “espremia bernes duns cachorrinhos novos”. Tem Inácio, que carrega com peso a chave do enredo. Em comum entre todos eles, o Lugar.
Há muitas passagens que se aproximam da literatura fantástica. Algumas com ditos populares refeitos, como o das serpentes que mamam nas mulheres enquanto enfiam suas caudas na boca das crianças, que “morriam ressequidas”. E, se um bom livro se faz com boas metáforas, também sai ganhando o trabalho de Reni Adriano, que estabelece relações originais e instigantes. Um livro para ser relido. A cada nova leitura, novas imagens e novas relações surgem. Um lançamento que não deve passar sem causar impacto.
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COMUNICAR ERRO01/02/2012