UOL Entretenimento Resenhas

22/05/2011 - 07h00

Melhor livro de Mario Benedetti, "A Trégua" mostra a redescoberta do amor depois dos 50 anos

MARTA BARBOSA
Colaboração para o UOL

Divulgação

Capa do livro

Capa do livro "A Trégua", de Mario Benedetti

“A Trégua” (tradução de Joana Angelica D’Avila Melo, editora Alfaguara) é o principal livro do uruguaio Mario Benedetti, e um dos mais importantes na literatura latino-americana. É uma obra emblemática do trabalho deste escritor, morto em 2009. Em formato de diário, traz um enredo simples, como convém às grandes histórias, executado com primor narrativo inquestionável.

Martín Salomé é um senhor beirando os 50 anos e a poucos meses (exatamente seis meses e 28 dias no começo do livro) da aposentadoria. Viúvo há duas décadas, enquanto vê se aproximar o fim dos seus dias de trabalho burocrático numa importadora de autopeças, ele constata quanto rotineiros e previsíveis têm sido seus dias desde a morte da sua mulher. Martín não sofre pela viuvez, mas sim por sentir-se “ressequido” em relação às afetividades.

A relação com os três filhos é caótica. Revela, ao longo do diário/livro, quanto díspares podem ser seus sentimentos paternais. “Nenhum dos meus filhos se parece comigo”, escreve o narrador antes de definir sua prole. Esteban, o mais arredio. Jaime, talvez seu preferido, parece sensível e inteligente, mas não honesto. E, por fim, Blanca, com quem comparte uma característica da personalidade: ela “também é uma triste com vocação de alegre”. Os quatro dividem a mesma casa, embora quase nunca se comuniquem. Estão unidos por uma espécie de isolamento que se complementa no coletivo.

Martín é um personagem construído com esmero. À medida que a leitura avança, descortina-se um homem inseguro, perdido na incapacidade de lidar com o tempo e em sua própria passividade em relação à vida. “Já aprendi que meus estados de pré-explosão nem sempre conduzem à explosão. Às vezes terminam numa humilhação lúcida, numa aceitação irremediável das circunstâncias.”

Martín vê sua vida mudar, no entanto, ao contratar a jovem Laura Avellaneda, uma boa moça, de “traços definidos, de gente leal”. Com Laura, ele se redescobre capaz de amar de novo. Descobre que não está ressequido afetivamente, como imaginava. E se encoraja a uma mudança de vida que inclui um acordo de relação pautada na liberdade, na falta de planos e de promessas.

O personagem tenta definir seu acordo com a amada enumerando as equidistâncias do encontro. “Não quero que nosso vínculo arraste consigo a absurda situação de um namoro voltado para o casamento, e tampouco que adquira o matiz de um programa vulgar e grosseiro (...); não quero que o futuro me condene a ser um velho desprezado por uma mulher na plenitude dos seus sentidos, e tampouco que, por temor a esse futuro, eu fique à margem de um presente como este, tão atraente e insubstituível.”

Escrito em 1960, o livro foi adaptado para o cinema por Sérgio Renan, em 1974. Chegou a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, mas perdeu para "Amarcord", de Fellini. É um livro de muitas nuances, em que a história de amor entre o cinquentão desesperançado e a moça de hábitos simples é apenas o pano de fundo para inúmeros e deliciosos devaneios sobre os estados do ser humano.

Primorosa, por exemplo, a passagem do diário em que Martín questiona a existência de Deus. “Graças a um impulso do coração, posso acreditar em Deus e acertar, ou não acreditar em Deus e também acertar. E então? Talvez Deus tenha uma face de crupiê e eu seja apenas um pobre-diabo que joga no vermelho quando dá preto, e vice-versa.”


"A TRÉGUA"

Autor: 
Mario Benedetti
Editora: 
Alfaguara
Tradutor: 
Joana Angelica D?Avila Melo
Páginas: 
184
Preço: 
R$ 36,90

Compartilhe:

    Fale com
    UOL Entretenimento

    Siga UOL Entrete

    GUIA DE RESTAURANTES

    Mais Guias

    Hospedagem: UOL Host