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O escritor espanhol Javier Marías: "Seu Rosto Amanhã" possui tom de conversa com o leitor
Uma fascinante história de espionagem e ao mesmo tempo um estimulante romance de idéias. Assim é a trilogia “Seu Rosto Amanhã”, do espanhol Javier Marías, cujo terceiro volume, “Veneno, sombra e adeus”, acaba de ser lançado, com ótima tradução de Eduardo Brandão.
Talvez a mais ambiciosa empreitada literária da década – e certamente uma das melhores -, a trilogia de Marías corre num tom e ritmo próprios, inesperados para um thriller, revitalizando a noção usual do tempo e da voz narrativa nos romances. Há cenas de ação, como em todo livro envolvendo espiões, mas elas surgem mais como elementos de pontuação, ou novos pretextos para que o autor desfie considerações filosóficas sobre o amor, a memória, a traição e até o uso do botox ou a poética do hip hop.
Capa do livro "Seu rosto amanhã", de Javier Mariás (Editora Companhia das Letras)
É inevitável associar o narrador, Jacques, Jacobo ou Jaime Deza (os nomes variam conforme a situação) ao próprio Marías, já que há vários elementos no livro que coincidem com sua biografia (ambos são professores em Oxford, entre outras coisas). Mais ainda porque há um tom de conversa com o leitor em cada página, conversa culta, sofisticada, uma entrega permanente de curiosas – quando não irônicas - opiniões e observações do comportamento humano.
O enredo é mais ou menos simples, mas se desdobra em uma série de complicações, algumas engraçadas, extravagantes, outras sombrias ou violentas. Deza separa-se da mulher em Madri e vai a Londres dar aulas e trabalhar na BBC. Até que é chamado pelo amigo Peter Wheeler, professor especializado em história recente da Espanha (figura baseada no real sir Peter Russell), para trabalhar num inusitado grupo de espionagem, secreto até mesmo para os outros órgãos da inteligência britânica.
São agentes que têm o talento raro e específico de saber “traduzir” ou decifrar as pessoas através de suas expressões, gestos, atos falhos e atitudes. O que explica o título: através do rosto de hoje, são capazes de descobrir como será o de amanhã: se a pessoa investigada poderia trair um acordo, por exemplo, ou acovardar-se diante do perigo, expondo os parceiros à morte.
Não é muito diferente das investigações de um psicanalista, a não ser pelo fato de que as “análises” acontecem durante jantares, festas, reuniões diplomáticas e até encontros amorosos. Um misto de Freud, Fleming (o autor de James Bond, também mencionado na trama), e Oscar Wilde, cuja frase mais famosa diz exatamente ser bobagem não julgar pelas aparências.
Esse é talvez o volume mais divertido da trilogia. Há momentos descritos com tamanha propriedade e detalhamento que é difícil parar de ler ou não se identificar. Por exemplo, quando o narrador é forçado pela circunstância a deitar-se ao lado da bela colega de espionagem, Pérez Nuix, e fica calculando todas as possibilidades e consequências no caso de roçar o seu corpo. O resultado tem algo de cômico, erótico e profundamente verdadeiro.
Apesar de certo distanciamento emocional, Deza parece profundo conhecedor das éticas amorosas, tanto quanto das armadilhas da memória ou da capacidade de dissimulação dos estranhos personagens com quem trava contato, de mafiosos extremamente violentos a diplomatas vaidosos e aparentemente tolos. A cada achado, frase epigramática, reflexão inteligente, a vontade é pegar um lápis e sublinhar, para depois voltar ao livro e reler os melhores trechos – característica só encontrada realmente nos grandes romances.
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COMUNICAR ERRO01/02/2012