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13/02/2011 - 10h00

Impossibilidade de entender e definir o tempo está em novo livro de Antonio Tabucchi

MARTA BARBOSA
Colaboração para o UOL

Reprodução

Capa do livro de Antonio Tabucchi

Capa do livro de Antonio Tabucchi "O Tempo Envelhece Depressa"

Nem cronológico, nem histórico, muito menos psicológico. O tempo da literatura é outro, e a respeito disso muitos (se não todos) grandes autores já pensaram e escreveram. Há quem entenda a narração ficcional como a própria tentativa de aprisionar o tempo – numa batalha sem vencedores. O novo livro do italiano Antonio Tabucchi, “O Tempo Envelhece Depressa", é um bom exemplo desse exercício incansável de, se não entender, ao menos desenredar o movimento inconcluso.

Em “O Tempo Envelhece Depressa”, Tabucchi não se ocupa em explicar nada. Seu trabalho narrativo é muito mais o de aproximar significados, como se aclarar um tempo dependesse de relações nem sempre óbvias que são criadas à medida que a história avança. Não há um discurso direto, mas sim possibilidades que se estabelecem e se interligam.

Nove textos compõem esse mosaico. Em “Nuvem”, terceiro deles, o autor descreve o diálogo entre uma menina e um homem, ambos de férias num hotel de praia qualquer. Ela, Isabella, com a inocência infantil e um pensamento lógico raro. E ele, com a maturidade de quem acumula erros e renega o arrependimento. Ambos vítimas de “crises da idade evolutiva”. A conversa entre eles não é menos que genial.

Começa com a provocação da menina, que não entende o que faz aquele homem de pele tão pálida passar os dias verão embaixo de um guarda-sol, afastado do mar, como um mero observador. O homem explica que é um praticante da “arte da nefelomancia” – ele estuda as “nuvens no horizonte antes que se desvaneçam”.

“Observe-a bem, disse o homem, e reflita, para a nefelomancia é preciso uma intuição rápida, mas a reflexão é indispensável, não a perca de vista.” E entre uma lição e outra de leitura das nuvens, o leitor se vê diante de duas formas muito particulares de entender e sentir o tempo.

Outro ponto alto do livro é “Contratempo”, texto que fecha a coletânea. Neste, um homem vai à Grécia sem entender muito que o leva até lá. Ainda no avião, ele começa sua viagem interna num tempo presente que não reconhece. Imaginação e memória fazem algum sentido, nada mais. É este mesmo homem que se vê surpreso diante da “laje de pedra de uma casa de Hiroshima onde graças ao calor da explosão atômica o corpo de um homem tinha se liquefeito deixando impressa a própria sombra”.

  • Divulgação

    O escritor Antonio Tabucchi; o autor é ensaísta, crítico e tradutor da obra de Fernando Pessoa

“O Tempo Envelhece Depressa” não é um livro de leitura fácil, por mais direta seja a narrativa de Tabucchi. Há outras referências literárias (Kafka, por exemplo, está lá), devaneios sobre estados de consciência e muitas metáforas por aproximação, com expressões tipo “como se”, “ou então” que se repetem. O tempo, para Tabucchi, é como o ar, que se deixa “escapar por um buraquinho minúsculo”. Ou “um carrossel cujos freios quebraram e roda enlouquecido”. E por ai vai.

O Autor

Antonio Tabucchi é um dos mais importantes escritores italianos da atualidade. Ensaísta, crítico e tradutor da obra de Fernando Pessoa, tem livros traduzidos e premiados em mais de 40 idiomas. Do mesmo autor, estão à venda no Brasil “Afirma Pereira” (1994), “Noturno Indiano” (1984) e “Réquiem” (1992).


"O TEMPO ENVELHECE DEPRESSA"

Autor: 
Antonio Tabucchi
Editora: 
Cosac Naify
Tradutor: 
Nilson Moulin
Páginas: 
160
Preço: 
R$ 45

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