UOL Entretenimento Resenhas

29/11/2009 - 10h00

Nick Cave volta à pulp fiction existencial em "The Death of Bunny Munro"

DANIEL BENEVIDES
Colaboração para o UOL
  • Divulgação

    Cantor de voz cavernosa e composições sombrias, Nick Cave volta à literatura pulp fiction existencial em "The Death of Bunny Munro"

John Lennon, Bob Dylan, Leonard Cohen, Chico Buarque, Pete Towshend, Gil Scott-Heron e Richard Hell. O que esses nomes têm em comum, além do óbvio? É que todos eles escreveram livros de ficção (curiosamente todos ou quase todos também foram atores em algum momento). Leonard Cohen é um caso à parte, porque fez o caminho inverso: era já um elogiado escritor de poesia e dois romances antes de se tornar um dos maiores cantores/letristas do rock/folk.

O australiano Nick Cave também está nesse time. Cantor de voz cavernosa, desgovernada, intensa, e compositor de canções sombrias, com letras de sabor bíblico, entre o lirismo pungente e um selvagem humor negro, ele já havia lançado, dez anos atrás, o romance "And the Ass Saw the Angel", um livro marcado pela densidade moral, meio gótica, do sul americano, bastante influenciado por Faulkner e Flannery O'Connor. Para escrevê-lo, deixou a música de lado e se retirou por três anos - anos difíceis, solitários, em que se espelhava no exemplo do pai, um professor de inglês bastante culto, que morreu num acidente aéreo, quando Cave tinha 19 anos.

Agora, ele mesmo pai de quatro filhos (o mais velho meio brasileiro), Cave resolveu relaxar. Escreveu "The Death of Bunny Munro" em três semanas apenas, num arroubo de inspiração. O livro havia sido encomendado por John Hillcoat, cineasta para quem já tinha escrito roteiros. Não virou filme, mas já foi traduzido para mais de 30 línguas e deverá ser lançado pela Record no Brasil.

O próprio autor qualificou seu novo romance de leitura ligeira, pulp fiction para ler no aeroporto. Em parte é verdade, pois o livro tem ritmo alucinante, que se intensifica num final digno dos pesadelos bizarros de um David Lynch. Mas é mais do que isso. Tem aquela qualidade existencialista, em que o antiheroi ignora a culpa até ser tragado pelo castigo (divino ou terreno).

O Bunny Munro do título é um vendedor de produtos de beleza. Vai de porta em porta para convencer mulheres de meia idade da absoluta necessidade de óleos e cremes. Invariavelmente, acaba conhecendo-as no melhor sentido bíblico, em lances de hiperrealismo quase escatológico. O absoluto amoralismo de Munro, com seus exageros de canalhice, é descrito com humor - há momentos de rolar de rir. Os pensamentos sacanas e investidas canastras do personagem, um priápico desencanado, com suas roupas kitsch e seu topete anos 50, são antológicas. Engraçadas também são as menções aos dotes íntimos de Avril Lavigne e Kylie Minogue, obsessões onanísticas de Munro.

Mas como se trata de Cave, um romântico pessimista, Byron pós-punk, no subterrâneo da história há uma tragédia, que aflora logo no começo, com o suicídio da mulher, cansada das infidelidades explícitas do marido. Munro então parte com o filho de nove anos numa pequena odisséia pelos arredores de Brighton, litoral sul da Inglaterra. Paralelamente, há um serial killer fantasiado de diabo matando mulheres com um tridente. É uma imagem, um símbolo, divertido que seja, mas que dá à atmosfera que cerca o personagem, cada vez mais indulgente com a bebida e todo tipo de drogas, um certo odor de enxofre.

Em meio a tantos desvios, o que se salva é o amor pelo filho, demonstrado de maneira irresponsável, mas intensa. Bunny Junior, por sua vez, admira o pai com todos os defeitos (e por causa deles, que enxerga de outra maneira). À medida em que o romance avança, fica a sensação de que o inferno talvez seja um preço justo a pagar pela sobrevivência do filho. Em suma, bom, divertido romance, alternando superficialidade anárquica com profundidade literária.

Leia também:
Bob Dylan, de resto ídolo de Cave, também está com livro novo na praça, depois de seu estranho romance "Tarântula" e dos tomos de memórias "Chronicles". Trata-se de "Forever Young" (Martins Fontes), baseado na canção de mesmo nome que o bardo tinha feito para o filho Jakob, então com três anos. É um livro infantil, com ótimas ilustrações de Paul Rodgers, mas que também pode interessar aos adultos - especialmente aos fãs de Dylan.



"THE DEATH OF BUNNY MUNRO"
Autor:
Nick Cave
Editora: Canongate Books
Páginas: 304
Preço: US$ 16,86

Compartilhe:

    RECEBA NOTÍCIAS

    GUIA DE RESTAURANTES

    Mais Guias

    Hospedagem: UOL Host