A prosa de Junichiro Tanizaki (1886 - 1965), um dos maiores nomes da literatura japonesa, beira o historicismo. Em "A Vida Secreta do Senhor de Musashi" (tradução de Dirce Miyamura, lançamento da Companhia das Letras), o leitor é levado a percorrer episódios da infância e adolescência de Terukatsu, herdeiro do clã de tradicionais samurais Musashi. Cada relato, feito sem muitos floreios, nos faz juntar uma peça a mais de um quebra-cabeça cujo sentido é justificar, ou simplesmente entender, a estranha obsessão sexual do guerreiro.
A fantasia começa quando, ainda criança, ele é separado da família e passa a viver num castelo, onde recebe treinamento marcial. Ali Terukatsu se depara com o costume de guerra no qual cabeças dos inimigos de maior patente são decepadas como prêmios pelos guerreiros. Quando a noite cai, e batalha do dia dá trégua, essas cabeças são entregues às mulheres do grupo, que se ocupam em limpar, pentear e até pintar algumas das faces geladas, tornado-as apresentáveis como troféus.
O garoto descobre um misto de medo e encanto diante da imagem das mulheres (a maioria velhas, mas algumas bem jovens) que executam a tarefa com delicadeza que beira o respeito. O prazer da observação faz com que Terukatsu desenvolva o curioso impulso erótico por cabeças decapitadas.
Com uma narrativa que mais parece relato de um bom livro de história, Tanizaki remete ao passado do Japão, em especial à figura de um herói daquele país chamado Myamoto Musashi, que viveu entre os anos de 1584 e 1645. Musashi inspirou não apenas essa, mas diversas obras literárias japonesas. No caso do Musashi de Tanizaki, no entanto, a referência parece se limitar ao título do livro. Como o próprio autor faz questão de esclarecer, seu personagem teria vivido muito antes da lenda que empresta seu nome à obra.
Duas novelasO livro, de 218 páginas, reúne duas novelas: a que origina o título e Kuzu, outra narrativa com bastante inclinação ao relato histórico. Neste segundo texto, mais curto, não menos instigante, e narrativa mais musical, o narrador descreve sua incapacidade em escrever um romance histórico sobre o Imperador Celestial. A frustração aumenta à medida que o personagem empreende sua busca por depoimentos de moradores da região batizada como "Alpes de Yamato", nas montanhas de Yoshino, no século XV.
As histórias desencontradas formam um interessante mosaico histórico, numa reconstrução muito sutil dos costumes de uma época. O narrador cita livros didáticos do ensino fundamental, épicos japoneses e todo tipo de relato (inclusive o de versões que passam de boca a boca por gerações) para explicar a importância do descendente da linhagem do Imperador do Sul. Assim, o autor dá peso ao texto. Concede importância de verdade absoluta à ficção. E marca "A vida secreta do senhor de Musashi" entre os livros que ultrapassam a leitura sem pretensões. A sensação após ler Tanizaki é ter aprendido. É ter recebido lições, ainda que fictícias.
"A VIDA SECRETA DO SENHOR MUSASHI"
Autor: Junichiro Tanizaki
Tradução: Dirce Miyamura
Editora: Companhia das Letras
Preço sugerido: R$ 45