UOL Entretenimento Resenhas

26/10/2009 - 12h31

Caso de serial killer colombiano ganha força simbólica em livro "Satanás"

DANIEL BENEVIDES
Colaboração para o UOL
A sensação quando se vira a última página de "Satanás" é de impacto profundo. Impossível fechar o livro sem pensar na natureza do mal; sem ficar com a perturbadora sensação de que ele está em cada um de nós, à espreita, pronto para aflorar com violência.

O romance do colombiano Mario Mendoza, escritor premiado e jornalista, é daqueles que incomodam na mesma medida que entretêm. Com recursos engenhosos de ficção, conta uma história conhecida das páginas mais sangrentas do jornalismo de Bogotá, quando um tímido estudante de literatura saiu matando pessoas a esmo, aparentemente possuído por uma determinação demoníaca.

  • Divulgação

    Em "Satanás", mario Mendoza narra uma série de assassinatos cometidos por um serial killer sob o ponto de vista de suas vitimas

O que torna o livro mais interessante é o partido tomado por Mendoza. Ao invés de focar no assassino, ele vai acompanhando as vítimas dias antes da chacina. O suspense dá a cadência de cada trajetória, de modo que sentimos a todo momento o peso de uma ameaça sinistra, inexplicável, da qual não parece haver escapatória. Tocados pela sina funesta, as vítimas agem também sob a égide desse mal que a todos contamina.

A bela Cláudia, por exemplo, aplica golpes em ricos admiradores; o padre Ernesto, apesar de bom e corajoso, esconde um caso com sua assistente; o pintor Andrés, num curioso aceno ao realismo mágico de Garcia Márquez (e ao "Retrato de Dorian Gray"), retrata as pessoas com chagas e doenças que se concretizam logo depois; mais explicitamente, a filha de uma paroquiana do Padre Ernesto é tomada por um espírito maligno, na tradição de "O Exorcista".

Entre elas, está o caos urbano da capital colombiana, imantada pela difícil situação política e guerra civil permanente. No crescendo irrespirável do romance, a geografia urbana, cenário ao mesmo tempo sombrio e sereno, parece tragar os personagens para o trágico encontro final, de dimensões bíblicas.

O assassino é Campos Elias Delgado, professor de inglês e ex-combatente do Vietnã, cujas ações são explicadas em parte por sua obsessão pelo dualismo de "O Médico e o Monstro", clássico de Robert Louis Stevenson. Sua conversão em Mr. Hyde (ou em "Taxi Driver", também citado) é tratada com distanciamento pelo autor - que foi colega do serial killer na faculdade e vivia, por sua vez, obcecado com essa história. Mas é um distanciamento que, por força dos fatos e habilidade narrativa de Mendoza, tem o estranho efeito de nos aproximar ainda mais dessa insanidade que a tudo quer destruir.

Leia também:
Há outros dois livros excelentes que tratam do mesmo tema com igual impacto, abordando também histórias espantosamente verídicas, mas de formas bem diferentes.

Um é "O Adversário" (Record), que não à toa serve de epígrafe para "Satanás". O livro do francês Emmanuel Carrère conta a história do sujeito que fingiu ser outra pessoa a vida inteira e acabou matando a própria família.

O outro é "Meridiano de Sangue" (Alfaguara), de Cormac McCarthy, possivelmente um dos dois ou três melhores escritores americanos em atividade. Narra em tom épico os massacres perpetrados por uma gangue em meados do século XIX, na fronteira do México com os EUA.



"SATANÁS"
Autor:
Mario Mendoza
Editora:Planeta
Páginas: 280
Preço sugerido: R$ 49,90

Compartilhe:

    RECEBA NOTÍCIAS

    GUIA DE RESTAURANTES

    Mais Guias

    Hospedagem: UOL Host