O escritor mineiro Luiz Ruffato já disse uma e outra vez que o tema da imigração é por onde trilha sua obra. Em "Estive em Lisboa e Lembrei de Você" (lançamento da Companhia das Letras, resultado do projeto "Amores Expressos"), lá está o ser estrangeiro, desta vez encarnado no personagem Serginho, um interiorano de Cataguases (mesma cidade do autor) que vê na mudança de país uma chance de recomeço.
Na primeira parte da curta narrativa (apenas 82 páginas), o que se lê divisa entre a ingenuidade de uma gente apartada de tudo e a mediocridade que isso pode representar. Serginho é o típico rapaz do interior, que vai ocupando os espaços padrões da vida sem muita chance (nem esperança) de elegê-los.
Tem um casamento fracassado com uma mulher "fraca das ideias" e que vive internada numa "casa de repouso". Tem também um filho (foi por causa da gravidez que ele casou), para quem ele não parece ser exatamente o exemplo que se espera de um pai. Não tem emprego, não tem profissão, não tem desejos.
Até que uma conversa de bar o faz atentar para um novo mundo de possibilidades do outro lado do oceano. Portugal surge na vida do pacato e desinteressante personagem como a esperança de ressurreição, agora muito bem fincada na chance de ganhar dinheiro, e um dia voltar ao mesmo interior, para a mesma praça de desocupados, agora com economias no bolso. O que significa, em bom português com sotaque mineiro: com o respeito dos conterrâneos.
Então, com a cabeça focada no herdeiro e disposto a dar uma resposta à "gente encrenqueira" do seu lugar, Serginho embarca para Lisboa. Ali se desenrola a segunda parte do livro. E é aqui que Ruffato consegue imprimir mais encanto à sua narrativa ágil (marcada pelo uso de muitas vírgulas e poucos pontos finais).
Narrativa ágilMuito interessante a forma como o autor constrói sua narrativa fiel ao enredo e contamina o texto com os lusitanismos de um caipira mineiro. Essa contaminação sobressai, a exemplo dos muitos usos de palavras de um português típico de Portugal, impressas em fonte diferenciada para chamar atenção do leitor.
Não é por acaso que Ruffato figura entre os nomes da atual literatura brasileira que valem cada página virada. Em "Estive em Lisboa e Lembrei de Você", ele exercita seu potencial narrativo num texto veloz, ainda que repleto de camadas e denso, em muitas passagens. É um livro bem humorado, diria. Muitas vezes irônico, e com algum sarcasmo, Ruffato consegue manter o leitor com aquele sorrisinho de canto de boca da primeira a última página.
"ESTIVE EM LISBOA E LEMBREI DE VOCÊ"Autor: Luiz Ruffato
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 82
Preço sugerido: R$ 29,50