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24/09/2009 - 18h02

Leia trechos de "A Conjura", de José Eduardo Agualusa

Leia a seguir as primeiras páginas de "A Conjura", de José Eduardo Agualusa, publicado no Brasil pela editora Gryphus.




CAPÍTULO PRIMEIRO

Aqui se conta da chegada de Jerónimo Caninguili, moço benguelense, à velha cidade de São Paulo da Assunção de Luanda. E de como, enquanto Caninguili dava os últimos retoques à sua Loja de Barbeiro e Pomadas, dita ainda Fraternidade, a menina Alice soltava os pássaros do falecido pai.

Conta-se também da confusa rixa que pelos finais de 1881 teve por pretexto as eleições para a câmara municipal, e dos sucessos que levaram um rico agricultor de Malange a mandar assar uma escrava para a servir aos cães.

Pelo meio fica a primeira revolta dos Humbes e o início da Conferência de Berlim.

Finalmente, dá-se conta do passamento de Arantes Braga, jornalista de incendiado verbo, socialista e independentista, o qual abandona esta estória no término do presente capítulo, isto é, a 17 de novembro de 1885, montado (assim o viu a mucama Josephine) em seu próprio caixão.

"Luanda é boa: não vem cuco que se não transforme em andua."
provérbio luandense

  • Escritor africano mescla ficção e realidade em livro ambientado em Luanda, no final do séc. 19


"[...]
E vi, sonho sublime! - em célico clarão!
ressurgir Angola em meio da escuridão!...

Oh! Fontes, ao clarão de uma aurora virginal,
vi realizar-se o teu íntimo ideal!

Vi então Angola das vascas d'agonia
erguer-se esplendorosa à luz de um novo dia.

Reinava a harmonia; o sol da igualdade
já de luz inundava a livre humanidade.

E que belo deve ser para o peito angolano
ver vingar o Direito e a queda do tirano?

Tudo isto antevia no sonho fabuloso
envolto num clarão, etéreo, luminoso.

Porém quando acordei a negra realidade
mostrou-se bem crua: nula era a igualdade
utopia o Direito e zero a Liberdade! [...]"
L. do Carmo Ferreira, 1902


1

Difícil dizer quando tudo começou. Mas tudo começou, é claro, muito antes desse dia 16 de junho de 1911. Vavó Uála das Ingombotas diria que tudo começou no princípio dos tempos e que desde o princípio estava previsto que seria assim. Os acontecimentos se amarrariam uns aos outros - uns puxando os outros - através do confuso turbilhão das noites e dos dias. Infalivelmente, irremediavelmente, tudo haveria de desaguar naquela tarde vertiginosa e absurda.

É preciso, contudo, marcar data menos remota. Para o humilde autor deste relato, os casos tiveram o seu berço foi mesmo nesse esquecido ano de 1880, quando da chegada a Luanda de um moço benguelense, de sua graça Jerónimo Caninguili.

Vamos pois começar deste princípio.

2

Muitos houve que estranharam aquele nome de Fraternidade posto por Caninguili à sua loja de barbeiro. Alguns reprovaram-no abertamente, e entre estes não só os realistas mas mesmo certos republicanos a quem assustava o atrevimento desse moço, negro e pequenino, ainda agora chegado à capital e já afrontando as regras, atraindo os desamores da autoridade.

Outros teve que acharam graça, aprovaram com ruído a ousadia; logo se fizeram clientes e amigos certos. A simplicidade do barbeiro, a sua candura e alegria, depressa cativaram, contudo, mesmo os mais recalcitrantes, e assim é que, quatro meses após a sua chegada, já a Loja de Barbeiro e Pomadas Fraternidade se havia transformado num pequeno clube de ideias.

Fisicamente Caninguili devia poucas graças ao Criador. Ezequiel gostava de se referir a ele chamando-o de "o nosso sapinho capenga"; e assim resumia a feiura do designado, o seu escasso 1,60 m e o fato de mancar da perna esquerda. Quando falava, porém, com aquele seu jeito manso de acariciar as palavras, operava-se em Caninguili uma transformação sensível e tudo seria nessa altura, menos certamente um sapo. Capenga! Razão por que, fatigado já da velha pilhéria, Alfredo Trony repreendera
certa vez Ezequiel observando-lhe que sempre houvera no mundo príncipes disfarçados de sapos e sapos disfarçados de príncipes:

- É no falar que se revelam os príncipes e no coaxar que os sapos se denunciam - dissera Trony, para logo acrescentar -, pelo que ao meu amigo lhe aconselho a mais severa abstinência verbal. Não abra a boca que não seja para engolir as moscas.

3

Durante toda a tarde de sexta-feira (na quarta Caninguili
inugurara a sua loja) andou Alice atrás de Manaus repetindo-lhe a mesma repetida ladainha, a mesma palavra tantas vezes repetida:
- Fraternidade, Manaus, diz fraternidade, diz comigo fra-ter-ni-da-de, fraternidade.

Nada! Manaus tinha as suas teimas. E não sendo embora pelo rei (e nem pela grei) desgostava o palavrão. De resto, e nisso era igual a todos os papagaios, e também a todos os meninos, preferia os termos chulos, os vocábulos sujos e obscenos. Como as grosserias que o Velho Gama sempre estava a gritar, fosse em português, fosse em quimbundu, ou fosse mesmo em qualquer barbarismo do interior, que o ngueta1 era homem viajado! Palavrões assim Manaus amava repetir. E com tal talento imitava o gritar do velho que, quando este ainda era carne e sangue deste mundo, acontecia Alice ralhar ao papagaio crendo assim estar a falar com o pai. E não só ela mas também muitos passantes e amigos que do largo quintalão ouviam o disparatar do bicho e logo respondiam zombando:

- Que é isso, sôr Gama? Correm-lhe mal os negócios ou são negócios de cama?

Morto o velho, mesmo assim logrou Manaus complicar as pessoas. Foi o caso que, na vigília do corpo, ia profunda a noite e apenas um pequeno grupo resistia ainda, trocando entre si ditos e anedotas e jogando às cartas, quando de repente se levantou na sala um fraco piar e logo depois se ouviu o rouquejar inequívoco do Velho Gama, protestando contra a Santa Madre Igreja e a puta da vida. Foi o pânico na sala grave; enlutada e grave. O pânico, a desordem, o despertar súbito das carcomidas carpideiras: nga Mbunda rasgou de aflição a sua bofeta2 e em seguida os panos de dentro, desnudando as mamas gordas. Dona Féfa, aliás a senhora Josefa da Purificação Ferreira, agarrou-se ao marido gritando em quimbundu (pormenor importante e depois muito troçado, revisto, comentado e acrescentado, ou não fosse a quitandeira conhecida por apenas discorrer em puro português do puto3 , de todo em todo desprezando a língua dos seus mais velhos, língua de cães, dizia), gritando, pois, que era o mundo que acabava e os mortos estavam despertando do seu sono para comer os vivos.

Esta confusão quem resolveu mesmo foi o Carmo Ferreira, cujo, separando-se a custo da chorosa esposa, se acercou do defunto e, vibrando-lhe duas puxadíssimas chapadas, pretendeu assim devolvê-lo ao mundo das sombras. Na mesma altura saltou Manaus de dentro do féretro e só então, compreendendo o acontecido e a injustiça do seu ato, Carmo Ferreira começou a perseguir o papagaio tentando havê-lo às mãos. Manaus salvou-se de um linchamento sumário graças à sua agilidade e ao fato de, como os anjos, também ele ter asas: trepando até ao teto, esgueirou-se por uma janela aberta e desapareceu na noite. Alicinha encontrou-o no dia seguinte, depois do enterro e do furtivo combaritóquê4, escondido entre as folhas da grande mangueira do quintal e ainda tremendo de medo. Mas mal a viu, o ordinário, logo se esganiçou com a voz do morto:
- Tuji, tuji, oh porra! Sundu ya mama ena!5

4

Vinha isto a propósito do nome que Caninguili deu à sua loja, e de tal nome haver agradado a Alicinha mas não a Manaus, papagaio malcriado e conflituoso.

Este Manaus era, apesar de toda a sua má criação, ou talvez por causa dela, a ave preferida do Velho Gama. E isto de entre toda a sua celebrada coleção de pássaros; que os tinha de muitas espécies, e coloridas formas e diversos gorjeares. Em seu armazém, no cruzamento da Rua da Alfândega com a de Salvador Correia, empilhavam-se as gaiolas - em equilíbrio precaríssimo e ruidoso. Havia de tudo: pírulas, seripipis, benguelinhas, viúvas, maracachões, bicos-de-lacre; até mesmo um gungo, perigoso e solitário em sua gaiola de ferro, afrontando com o bico forte as grades duras. Alicinha movia-se entre as pilhas de gaiolas gorjeantes
com alada leveza e fosse por se saberem dependentes dela (o Velho Gama não tinha paciência para tratar dos pássaros), fosse por lhe haverem descoberto um oculto sentimento de solidariedade, fosse, mais possivelmente, porque a moça tinha, ela própria, uma natureza de ave, o certo era que em chegando Alice logo toda aquela estrutura se levantava saudando-a numa grande confusão de cantos e xuaxualhar6 de asas. E era um espetáculo bonito de se ver.

Criada por uma velha ama, e depois quase ao deus-dará, Alice fora sempre uma criança um pouco estranha, ora alegre e até faladeira, ora bruscamente silenciosa, de um silêncio inquieto, o mesmo silêncio que antecede as emboscadas.Os outros meninos, não a compreendendo (na realidade tinham-lhe um certo medo), teciam à volta dela estórias cruéis. E afastavam-na dos seus jogos e folguedos.

Alice cresceu assim conversando mais com os bichos e com as coisas do que propriamente com as pessoas. Cresceu porém saudável (que é como quem diz formosa), e aos 16 anos o seu corpo tinha já todo o perfume e encanto de um corpo escorreito de mulher.

5

Após o combaritóquê do Velho Gama (furtivo e triste pois que expressamente proibido por um sobrinho deste, vindo da metrópole para a partilha dos bens), aguardou Alice uma semana e então, quando se convenceu de que o espírito do pai estaria já demasiado longe para se preocupar com o sucedido, abriu as portas de todas as gaiolas e soltou os pássaros. Foi isto pelas duas horas da manhã do dia 26 de janeiro de 1881, toda a cidade de São Paulo de Luanda estava já dormindo. Ou quase toda.

Jerónimo Caninguili, por exemplo, ainda permanecia acordado, dando os retoques finais à sua loja de barbeiro. Tinha acabado de arrumar num comprido móvel - construído segundo as suas indicações na marcenaria de Joaquim Marimont - uma porção de frascos e frasquinhos, quando de súbito lhe pareceu ouvir um revoar de asas, um abafado estilhaçar de gritos e de cantos. Abriu a porta e esticou o pescoço, tentando furar com os olhos a escuridão da noite. O ruído vinha do fundo da Salvador Correia, mas era impossível divisar o que quer que fosse. Defronte à sua porta um candeeiro a acetileno derramava-se num estreito charco de luz amarela; cem metros à frente, outro charco perdia-se na noite. Entre este e aquele apenas um negrume espesso, opressivo, impenetrável.

Perplexo, o moço recolheu-se para dentro e fechou a porta. Depois sorriu-se lembrando as últimas palavras do seu mestre, o velho Acácio Pestana: "Tem cuidado, meu rapaz", lhe dissera agitando o dedo magro, "Luanda tem coisas; coisas que desconhecemos; coisas que às vezes são perigosas."

Riu-se francamente. Ora, por certo não era àquilo que o velho se referia. Acácio só falava de política. Mesmo os espíritos, as miondonas, os calundus, quiandas, chinguilamentos7, o que fosse, tudo ele reduzia a trama política; em tudo via a mão opressora dos padres, o rabo de fora das maquinações burguesas. Anarquista, ensinara-lhe o beabá por gastos volumes de Proudhon e Kropotkine. Na época ainda um miúdo dos seus 11 anos, Caninguili nada compreendia do que estava a ler. Contudo, o fervor quase religioso que Acácio punha nas palavras lidas, a lenta gravidade com que repetia as grandes sentenças libertárias e, principalmente, a sensação de que aquelas eram ideias proibidas, tudo isso contribuia para fazer daqueles momentos, momentos mágicos e inesquecíveis.

O que sabia do seu mister de barbeiro fora também Acácio quem lhe ensinara. E mesmo quando, na ânsia de conhecer outras terras e outras gentes, se decidira a partir para a capital, ainda dessa vez lhe valera a generosidade do velho anarquista. Acácio logo adiantara o capital
necessário para abrir a loja e, escondendo a tristeza de o ver partir, havia sido quem mais o apoiara e quem mais coragem lhe dera. Passou-lhe cartas de recomendação dirigidas a diversos amigos e conhecidos, insistindo particularmente nos nomes de Arantes Braga, "uma das mais brilhantes estrelas do firmamento intelectual de Luanda", e de Jacinto do Carmo Ferreira, seu parceiro de muitas caçadas famosas.

Arantes Braga mostrara-se solícito e amigo. Quisera logo saber como ia o cidadão Acácio Pestana, "esse português de coração angolense"; oferecera os seus préstimos e os seus conselhos mas, sempre muito ocupado, ficara por aí.

Carmo Ferreira fizera mais do que isso: percorrera com ele a parte baixa da cidade procurando um local aprazível para montar a loja. Forçara-o a instalar-se em sua casa durante as primeiras semanas e, porque amigo do meu amigo meu amigo é, aconselhara tabernas e prostíbulos, dissera-lhe das moças mais audazes e dos sabores e saberes de cada uma.

Dona Féfa é que se pusera retraída, desaprovando com amuados muxoxos a amizade do marido por um benguelinha sem eira nem beira, para mais preto retinto, preto macala8. E foi quando Carmo Ferreira sugeriu o nome do barbeiro para padrinho da pequena Carlota que a quitandeira disparatou de todo, armando o primeiro grande pé de vento da sua curta vida de nga muhatu9.

E o último.

Com efeito desconhecia ela que, nesse exato momento,
andava o comerciante embeiçado por certa moça do Bengo, menina de pouca idade mas de muitas seduções. Não fosse isto (a paixão é nzua10 embriagante e doce), talvez Carmo Ferreira se tivesse limitado a surrar a negra. Assim pegou nela e devolveu-a à mãe, a velha Xica da Ilha, com a recomendação de que lhe cortasse a língua. Comprometeu-se porém a pagar mensalmente vinte mil réis para o sustento das crianças e nisso nunca faltou.

6

Dos primeiros clientes de Caninguili, uns, já o disse, vieram atraídos pelo nome da loja e outros pelos bons modos do moço. De entre estes últimos nem todos se inclinavam, depreenda-se, para as cores republicanas. Quatro ou cinco defendiam vagamente a coroa e pelo menos dois assumiam-se como monárquicos furiosos: o caçador Afonso, antigo condenado já há muitos anos residente na colônia, e o cafuso Ezequiel de Sousa, proprietário de um negócio de águas.

No grupo republicano distinguiam-se as figuras indefectíveis de Carmo Ferreira e do jovem dândi Adolfo Vieira Dias; de quando em vez, aparecia também o Dr. Alfredo Trony ou o próspero Marimont; ainda mais escassamente Arantes Braga.

Aconteceu assim que a loja de Caninguili se foi em poucos meses transformando num pequeno clube de ideias que, principalmente pelo entardecer - à hora em que Arcénio de Carpo voltava do seu passeio pela praia e se encerravam as repartições públicas e os escritórios comerciais-, se animava com calorosos debates, vivíssimas discussões. Os temas iam desde as costumeiras questões políticas e comerciais até às artes e literaturas, passando ainda pelo desfiar dos últimos rumores mundanos, sempre bem agindungados11 e saborosos.

Foi Vieira Dias quem numa tarde poeirenta de agosto trouxe a notícia da candidatura de Inocêncio Mattoso da Câmara à presidência do Município de Luanda. Em si mesma não era tal notícia inusitada. Primeiro porque Mattoso da Câmara nunca fizera segredo das suas ambições; depois a ocasião apresentava-se propícia, com os realistas enfraquecidos por divisões internas, e muita gente levando até Ambaca abraços generosos, generosas promessas de apoio.

Entre os angolenses, os mulatos Mamede de Sant'Anna e Palma e José de Fontes Pereira encabeçavam a lista de tais apoios, contribuindo com o seu nome respeitado para tornar consistentes as pretensões do conservador de Ambaca.

Vieira Dias recolhera aliás a notícia da boca circunspecta do próprio Fontes Pereira, que mais lhe dissera estarem as eleições previstas para o próximo mês de novembro, dias 27, 28 e 29, respectivamente uma sexta-feira, um sábado e um domingo. Também lhe contara da ideia de Mattoso em criar um jornal, O Echo de Angola, sendo que para o efeito Alfredo Trony lhe tinha já garantido a cedência da sua tipografia.

Mas, se bem que esperada, a candidatura de Mattoso da Câmara trouxe um fogo novo às tardes de Luanda e foi proveitosa para o feliz Caninguili que, graças a isso, teve durante os meses seguintes a casa sempre cheia, fregueses novos entrando com o pretexto dos calos ou da barba, os habituais sem pretexto nenhum, apenas para ouvirem as makas12, dizerem de sua opinião.

O primeiro número do Echo fez o seu sucesso. Vinha cheio de grandes ideias, falando muito em liberdade, na voz do povo, no luminoso futuro das gentes da colônia. E também criticando muito: insurgindo-se contra a ineficácia da câmara, o criminoso abandono a que a metrópole havia votado Angola.

7

À medida que se começou a aproximar novembro, e depois o final de novembro, as conversas foram-se tornando cada vez mais quentes e os ânimos mais exaltados, obrigando por vezes o barbeiro a intervir, sempre respeitoso e conciliador, nunca tomando partido nos casos. Exceto da vez em que Ezequiel chegou dizendo alto e rindo muito que Mattoso queria ser camarista era só para poder recuperar os antigos escravos:
- Mattoso chega à câmara, pede o apoio do governador geral e kuáta13 os pretos para lhe trabalharem a fazenda.
Toda a gente sabe que com a abolição da escravatura esse ambaquista quase faliu, não houve monangamba que lhe aguentasse os maus tratos, fugiram todos!

E com os olhinhos fechados de gozo, virando-se para Vieira Dias:
- Pois, que os princípios não enchem barriga. Tanto vocês gritaram contra a escravatura e agora querem é voltar atrás...

Vieira Dias não era homem de se deixar envolver em discussões perigosas. Da sua cadeira, junto à porta, mergulhou mais os olhos na leitura do Jornal de Luanda e fingiu não ter ouvido a bravata. Caninguili, porém, sentindo-se ele próprio afrontado e não conseguindo conter-se, replicou que o que estava em causa não era o zelo antiescravista do senhor Mattoso:
- O senhor Mattoso não será certamente um homem de impoluto passado. Mas numa terra como a nossa só remexe no passado dos outros quem gosta de sujar as mãos. O que está em causa é aquilo que para nós, angolenses, pode significar a eleição de Mattoso da Câmara. Afinal ele é um filho do país; conhece a terra melhor do que aqueles que vieram de fora.

Ezequiel abespinhou-se:
- Lá me vêm os senhores com essa conversa. Somos todos portugueses, ouviu? Portugueses de Angola ou portugueses do reino é tudo a mesma coisa. E, de resto, o senhor também veio de fora...

Esta última frase foi interrompida por um martelado bater de palmas. O barbeiro, que já se havia arrependido de ter aberto a boca, voltou-se e viu à porta a larga figura de Arantes Braga, um enorme sorriso de troça preso aos lábios grossos.

- Falou o rei! - Arantes Braga ria agora abertamente - e diga-me lá o distinto lusitanófilo de que nos vale a nós a lusitanidade? De que nos vale a nós sermos iguais a um povo miserável, analfabeto e bruto? E que nos pretende civilizar enviando-nos o pior lixo das suas sarjetas sociais: os seus ladrões, assassinos e prostitutas?

Arantes Braga era sempre assim. Redundante, provocador,
de verbo fácil e excessivo. Onde quer que chegasse
era vê-lo a atear incêndios, a desatar os ventos, a encapelar os mares...

- Puta que o pariu! - o velho Afonso erguia o dedo apoplético. - Se não fôssemos nós, ainda vocês andavam de tanga, a devorarem-se uns aos outros. A fazerem porcarias.

E avançava contra Braga na evidente intenção de se medir com ele. Caninguili pôs-se de permeio, pediu calma, agarrou Afonso pelos ombros. Vieira Dias tentava puxar Braga para fora do salão.

Por fim lá conseguiram acalmar Afonso, que acabou por ir embora resmungando contra a ingratidão desses pretos.

- Demos-lhes tudo - dizia, afivelando o chapéu colonial-, ensinamo-los a ler, a vestir, a calçar, para quê? Para se virarem agora contra nós!

E tendo subido em sua machila14 ainda berrou para trás, como quem cospe, os seus sujos quimbundus de branco matoense.
- Bu uadila, kunene-bu15!



1. Branco
2. Anágua
3. Portugal
4. Cerimônia de varrer as cinzas
5. Merda, merda, oh porra! Cona da mãe!
6. Farfalhar
7. Incorporação de espíritos
8. Carvão
9. Mulher casada
10. Hidromel
11. Apimentados
12. Conversas
13. Agarra
14. Tipoia
15. Onde comes não cagues


"A CONJURA"
Autor: José Eduardo Agualusa
Editora: Gryphus
Número de páginas: 190
Preço médio: R$ 34,90

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