Escritor cultuado dos anos 80 com "Tanto Faz", novela beatnik/existencialista que fez a cabeça de muita gente, Reinaldo Moraes voltou mais "feio, sujo e malvado" ao romance, depois de passagens por contos ("Umidade") e literatura infanto-juvenil ("A Órbita dos Caracóis").
"Pornopopéia" é exatamente o que o nome sugere: uma longa viagem sexo adentro, regada a estimulantes de toda ordem e digressões cômico-filosóficas. O catatau (480 páginas) é antes de tudo muito engraçado, daqueles que fazem o leitor rir alto no metrô e depois olhar em volta embaraçado. Os excelentes diálogos ajudam e muito, no tom natural da linguagem bem-humorada da rua, cheios de gírias, gracejos toscos e onomatopéias. E também a verve desenfreada do narrador, mezzo culta, mezzo maloqueira, mezzo metalinguística.
Um leitor mais rigoroso, no entanto, pode se cansar do barroquismo boca-suja e onipresente, especialmente quando exagera na "nobre arte do trocadalho", aliterações ("insanas e insones", "destroços e detritos"), neologismos ("olhos capitulinos", "aliasmente") e clichês ("pernas bem torneadas").
A fissura pela escrita caudalosa, escatológica, transbordante não chega, porém, a ser um empecilho para a boa fruição do livro, desde que se entre na "vibe" proposta pelo autor e se esteja disposto a tomar um porre de literatura.
No caso, uma literatura que trafega entre a putaria lírica de um Bukowski e o humor pós-moderno (ainda existe isso?), cheio de referências e jogos verbais de um Thomas Pynchon (não à toa, Moraes traduziu livros de ambos e os cita em "Pornopopéia"). E alguns achados geniais, como "lucidez de rodapé".
O que importa aqui não é o enredo - ainda que haja um enredo -, mas a manifestação desenfreada de fatos, sensações e pensamentos. Zeca, irreverente, folgazão, um pouco misógino, é um cineasta "maldito" (ainda existe isso?), autor de um único filme mal falado pela crítica e fracasso de público. Ex-diretor de películas pornôs, vive de empréstimos que nunca paga, da boa vontade de um cunhado rico e de uma produtora meio falida, às voltas com filmetes institucionais.
Mas é na esbórnia que se realiza. A mulher e o filho pequeno são personagens distantes na sua vida. Prostitutas, travestis e traficantes são figuras bem mais presentes. Amigos loucos, losers irremediáveis e adolescentes ninfomaníacas também formam o quadro, muito mais próximo de um Bosch egocêntrico do que de um inofensivo Matisse.
Há grandes momentos, como o episódio da "surubrâmane", em que o ritual de uma microseita derivada do budismo descamba para um hilariante bacanal, misturando uma gorda disforme e insaciável, um gay negro de pau descomunal, a bela mestra do babado, com seu ânus generoso, a ninfeta Sossô, cheia de piercings e uma libido tão curiosa quanto faminta, um magrelo de sexo indefinível e aparência detestável e um surrealista tocador de cítara.
O frenesi hedonista de Zeca, entre carreiras de pó de má qualidade, uísque barato no gargalo, baseados na madrugada e longas estadias num puteiro, é interrompida por um violento evento policial, que o leva para uma praia distante e o coloca nos braços maternais de uma velha simpática, dona de uma pousada.
A pausa, porém não dura muito, e quem acompanhar a pornopopeia de Zeca até o final vai chegar talvez à conclusão de que o livro poderia ser melhorado por uma edição mais seletiva. Mas aí seria outro livro, e não esse, saboroso justamente por conta de suas sinceras imperfeições.
"PORNOPOPÉIA"Autor: Reinaldo Morais
Editora: Objetiva
Número de páginas: 480
Preço sugerido: R$ 54,90