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17/08/2009 - 12h46

Leia trecho de "Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos" de Ana Paula Maia

Da Redação
  • Divulgação

    A carioca Ana Paula Maia aborda a violência de maneira impiedosa e sem concessões

Leia a seguir as primeiras páginas do livro "Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos" de Ana Paula Maia, publicado pela editora Record.




À espera de porcos, Edgar Wilson suspira pela oitava vez nessa sexta-feira quente e abafada. Por seu olhar vago, perdido, parece que não se incomoda em esperar o tempo que for preciso, mas apesar da frieza permanente ele anseia, a seu modo. Era o segundo atraso do carregamento em quatro dias e por isso precisaria comunicar o ocorrido ao seu patrão.

Havia feito planos para sair mais cedo, ir ao bar do Cristóvão, fazer algumas apostas em Chacal - um cão enjeitado pelo demo, que já havia arrancado a cabeça de Gepeto, que tinha o dobro de seu tamanho -, e encontrar Rosemery, sua noiva. Mas isso não era novidade, todas as sextas são iguais e de modo algum Edgar Wilson se importa com a rotina em que vive. Aqui no subúrbio, quente e abafado, esquecido e ignorado, nos fundos de um mercadinho cheirando a barata, não existe desconforto maior do que o carregamento de porcos atrasar e expectativa maior do que vê-los, todos, pendurados por ganchos no frigorífico.

Edgar Wilson sabia que sob influência da lua nova Chacal fervia pelas entranhas e de suas patas saíam faíscas. Ele certamente lucraria o triplo da aposta, e talvez ganhasse o suficiente para pedir a mão de Rosemery em casamento - ela exigia uma geladeira nova para selarem o compromisso definitivamente. O problema é duvidar da fidelidade de Rosemery, que nos últimos tempos sempre alegava precisar dormir na casa da patroa, que exigia a faxina iniciada bem cedo nas terças e quintas. Mas não pensar muito sobre o que quer que seja faz parte de sua personalidade. Sempre acreditou que a Providência Divina se encarrega do fardo por demais pesado, e na Providência Divina Edgar deposita toda a sua fé. "Pra que se colocar ansioso se isso não acrescenta nem um côvado em sua altura, nem transforma um fio de cabelo preto em branco?", era o que dizia padre Guilhermino Anchieta.

Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos, Edgar Wilson não reclama da vida.

O distante ronco de um motor o faz apagar um cigarro sobre uma porção de formigas que se reúnem ao redor de seu último escarro. Percebe uma coloração avermelhada e teme por algum tipo de mazela. Verifica as horas, calça suas botas de borracha e se coloca de pé. Vê a caminhonete se aproximar, dirige-se até o telefone atrás do balcão e liga para Gerson, seu ajudante, que alega estar sofrendo de uma crise renal.


- Mas você não deu um rim pra sua irmã?
- Isso foi no ano passado.
- Ãhhh, sei. O carregamento atrasou de novo.
- É a segunda vez essa semana.
- Preciso informar ao patrão.
- Desculpe, Edgar, mas esse rim me pegou de jeito.
- É...
- Eu posso te mandar o Pedro.
- Ele sabe desossar alguma coisa?
- Só um instante.

Gerson, sentindo muitas dores e suando frio, ajeita-se no sofá e encontra a posição mais adequada para gritar a pergunta: "Pedro, você sabe desossar alguma coisa?"

Pedro demora alguns instantes e aparece na sala enrolado numa toalha vermelha, segurando uma colher de pau.

- O que você tá fazendo? - pergunta Gerson.
- Um bolo.
- Você foi comprar farinha de trigo?
- Não. Eu tô usando aquela do pote azul.
- Você esqueceu do que eu te disse, Pedro?
- O quê?
- Sobre a farinha do pote azul.

Pedro olha para a colher de pau que segura e lambe o resto do recheio que ameaça cair. Mastiga por uns instantes e suspira logo em seguida. É um recheio delicioso e Pedro parece se orgulhar de seu bom trabalho.

- E o que era? - pergunta, após engolir.
- Tá com bicho. Eu mandei você jogar fora.
Pedro coça a cabeça e responde:
- Eu peneirei as minhocas. Gerson não reage à resposta.
- Eu peneirei tudo, verdade mesmo.

Gerson volta-se para a TV que está ligada. Pedro permanece parado segurando a colher de pau e eles riem da gargalhada emitida num programa de culinária. Ele repara o fone na mão de seu irmão.

- Gerson, você me chamou? - diz apontando para o telefone.
- Ah... você sabe desossar alguma coisa? Pedro pensa um pouco.
- Não sei. Não tenho certeza.
- O Edgar quer saber.
- Você quer dizer, separar as tripas, o fígado, o...
- A carne do osso... essas coisas.

Pedro pensa mais um pouco. Volta para a cozinha sem
dizer nada. Retorna em seguida.

- Lembra do cachorro da Matilda, o Tinho?

Gerson parece um tanto perdido, mas de estalo responde
com um aceno positivo da cabeça. A toalha cai da
cintura de Pedro.

- Essa cueca é minha - diz Gerson. Pedro não responde e volta à cozinha.
- Edgar, lembra o Tinho, da Matilda?
- Lembro.
- Foi o Pedro.
- Então avisa a ele que o carregamento já chegou.
- Tá certo.
- E o teu rim? Eu tô falando do bom, daquele que tá lá com a tua irmã.
- Acho que vai bem.
- Você não pensa em pegar de volta? Quer dizer, quando você deu pra ela, não estava precisando, ele não te fazia falta, mas agora é diferente.
- É, eu sei. Parece que ela tá com câncer.
- Então, ela não vai precisar dele por muito tempo.
- Acho que não. Escuta, eu deixei aquele vídeo do Chuck Norris na sua casa?
- Braddock?
- O resgate.
- Só estou com o Braddock II. O resgate, esse não está, não.
- Acho que perdi meu vídeo. É um desfalque e tanto na minha coleção. Silêncio.
- Você vai deixar seu rim jovem e saudável ser comido pelo câncer da tua irmã?
- Parece que ela vai começar a fazer aquele troço que deixa careca.
- Sei... então a radiação vai matar o teu rim.
- Você acha mesmo?
- Acho que o teu rim já era.

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