Leia a seguir as primeiras páginas de "O Belo Sexo dos Homens", de Florence Ehnuel, publicado no Brasil pela editora Objetiva.
Durante muito tempo me perguntei por que gostava dos homens, já que, para mim, apenas o desejo pelo corpo feminino poderia ser verdadeiramente justificado. A beleza feminina era uma evidência; somente ela, incontestável. Mas isso não me tornava uma homossexual, embora achasse minha atração pelos homens um enigma. Alguns me atraíam, sobretudo pelo rosto, pela postura, pela conversa ou pela cortesia, mas nenhum conseguiu abolir meu preconceito: continuava convencida de que só o desejo pelo corpo da mulher se justifica verdadeiramente. No entanto, por volta dos 35 anos, circunstâncias estimularam em mim um novo apetite pelos encontros amorosos e pela sexualidade. De repente, tive vontade de olhar com mais determinação para o corpo masculino. Então, fui tomada por um deslumbramento que não se apagou e que desejo cuidadosamente cultivar. Um deslumbramento que se tornou uma das alegrias de minha vida. Uma boa notícia para os decênios de minha maturidade: muitos homens, encantadores, desejáveis, circulam ao meu redor. Contemplá-los encanta! Examiná-los fascina! A mim se apresenta todo um festival de novos prazeres a saborear. É desse deslumbramento, de seu atraso, de sua instalação progressiva e de sua legitimidade que quero falar neste livro.
*
Meninos inacessíveis,
homens inquietantes
Todas as noites, estou de pé, pequenina e nua na banheira. Minha mãe me ensaboa e, todas as noites, chega o momento doloroso em que, com a luva de toalete um pouco áspera apesar da espuma, ela tem de lavar sexo e nádegas. Com a voz tensa de uma censura velada, o rosto mal disfarçando o constrangimento e a aversão, ela emprega sempre o mesmo imperativo que até hoje me dói no peito: "Afasta!" Afasta o quê? Para se referir ao sexo jamais pronuncia palavra alguma, nem familiar, nem infantil. Deixa em suspenso aquele enorme vazio. Já é tão difícil para ela ter de pedir que eu a afaste.
Ela preferiria não ter nada a ver com aquela parte do meu corpo, nem com qualquer das partes que o compõem. Não chego a formular, mas minha pele, meus músculos, meu esqueleto entendem: imponho a minha mãe um pesado fardo em conseqüência de minha encarnação, ainda mais porque essa encarnação é sexuada. Ter de lavar a filha entre as pernas dá nojo de ser mãe. Lamento ter de lhe impor isso. Sinceramente envergonhada. Sou culpada de um pecado original. Prometo, sem uma palavra, de todos os modos possíveis, calar a respeito de meu sexo, de meu corpo.
Quando chego aos 5 anos, sem qualquer premeditação, tenho a idéia de livrar minha mãe daquele doloroso castigo higiênico. Uma noite, com desenvoltura, altruísta, proponho a minha mãe, ocupada na cozinha, tomar banho e lavar-me sem ajuda. Uma imensa alegria transparece em sua resposta: vai ser muito bom, pois assim ela poderá preparar mais depressa o jantar. Sou uma menina crescida, ela acrescenta, e muito boazinha. Sinto-me, como ela, incrivelmente liberta. Nesse caso, como é freqüente, calamos a verdade do que vivemos; ficamos na aparência, nas conveniências. Não creio que minha mãe percebesse o significado de sua própria satisfação. Quanto a mim, embora não o soubesse, não me deixava enganar.
Fico profundamente aliviada: não vou mais ter de suportar diretamente seu nojo camuflado. Fica, porém, uma marca indelével: que meu corpo e meu sexo não têm direito de existir.
O corpo: o que é preciso afastar do dizer, do ver, da existência.
No centro do corpo, o sexo concentra, como um núcleo duro, esse imperativo.
De onde poderiam jorrar a vida, a alegria, a identidade e a beleza, devem prevalecer o silêncio, o interdito, a vergonha.
São essas as tribulações do meu sexo; quanto ao sexo do menino, nem se fala! Sua inexistência é ainda mais densa. Enquanto meu próprio sexo seria um zero, o dos meninos seria negativo. Meu sexo é um vazio; o do menino, um buraco negro. Uma antimatéria.
Quando criança, não tive acesso a nenhum corpo masculino. Meu irmão é oito anos mais velho que eu e, fisicamente, está sempre fora de alcance (creio até que nunca nos tocamos). Aliás, sempre que nos mudamos, a organização se repete em torno do princípio segundo o qual se houver no apartamento um chuveiro independente do banheiro principal, será reservado para o único menino da família. Levei anos para compreender por que era assim, pois não explicavam. Foi a mãe de outra família que um dia, por acaso, me deu a chave da distribuição dos cômodos, na brecha de uma conversa sobre nosso apartamento: "Bem, o chuveiro independente é para o menino, é claro." O fato é que jamais tive companhia durante o banho. É mais do que natural que, para mim, a nudez de meu irmão estivesse absolutamente fora de minhas vistas, como, aliás, das de todos os membros da família, minha mãe, minha irmã e, evidentemente, meu pai, que não vivia conosco (meus pais se separaram quando eu tinha 3 anos). Não acredito estar recalcando nada ao dizer que não me lembro de nunca ter visto o corpo de um menino. No jardim-de-infância, porém, os banheiros deviam ser mistos, mas não me recordo de ter prestado qualquer atenção a isso. É normal que nenhuma marca de tal experiência tenha ficado impressa: aquilo de que não se fala não aconteceu.
Um dia, com uma menina vizinha e seu irmão, pouco mais velho, fechei-me no banheiro deles para jogar cartas com toda a privacidade. Apesar das suspeitas - sem nenhuma discrição e com muita excitação - dos pais e dos meus colegas mais velhos, não guardei lembrança de calças arriadas e acredito que a partida aconteceu com todos vestidos. Não me lembro de ter ficado nua com outras crianças na praia. Em resumo, parece-me que até as primeiras experiências amorosas não houve nudez em meu universo e muito menos nudez masculina. Todos os corpos são cobertos, embalados; não se pode vê-los. Essa regra provoca um desejo que tenho a impressão de ser intenso, mas profundamente enterrado. Ver um corpo; vê-lo de verdade. Ver um corpo inteiro: esse desejo devia se situar a anos-luz de minhas preocupações conscientes, mas pressinto que, muito alto em meu céu, devia ter o brilho, o poder de energia de uma estrela. Não estou mais certa disso. Talvez reinvente. Adivinho-o, contudo.
No centro da imagem de meu corpo se encontra, em algum lugar, o fantasma de um corpo ideal que seria talhado a foice por um Deus-Procusto: um corpo do qual nada excedesse ou invaginasse; um corpo sem nenhuma aspereza ou cavidade interna. Totalmente homogêneo, ele não seria atravessado por fluido algum, não produziria nenhuma secreção, não seria dotado de nenhum orifício, pois não teria necessidade alguma disso. Essa imagem de um corpo inteiriço circula ou circulou por muito tempo, em algum ponto que não localizo exatamente em meu imaginário, como um fantasma que ronda um castelo, assombrando os numerosos quartos sem se instalar em nenhum.
Conseqüentemente, por muito tempo considerei o sexo masculino como um acréscimo feio ao resto do corpo, molenga, sem jeito, sem graça, ainda por cima duplo, já que o pênis se superpõe ao escroto. Não apenas excede, mas também se duplica! Além disso, é mal delimitado, com os testículos um pouco vagos, confusos. Aliás, ele pende, o que prova que não tem firmeza. Pender assim é feio e, além do mais, sem graça. Ou então ele se levanta o que é, ou curioso, ou pretensioso, ou brutal. Se pudesse dizer qualquer coisa a respeito desse órgão, certamente teria caçoado dele como de um gancho ridículo e malacabado. Do ponto de vista estético, do ponto de vista moral, o sexo masculino seria em si vulgar (o pior erro de acordo com o código que me foi ensinado). Como ousar carregá-lo? Como ousar deixar que ele fosse percebido mesmo sob as calças? Eu achava inconveniente a simples protuberância que ele desenhava sobre o púbis coberto. Não podia compreender como ele se permitia semelhante visibilidade. Essencialmente exibicionista. Indiscreto por natureza. Irredutivelmente obsceno.
Lembro-me de que, quando eu tinha uns 5 anos, elaborei um mito pessoal para explicar a vinda ao mundo dos seres humanos. Um Deus, mais do tipo artesão padeiro, os tinha confeccionado com farinha, água e outros ingredientes, mas não me lembro mais exatamente da receita. Gostava de expô-la, no pátio do recreio, às colegas que ficavam perto de mim, no banco. Achava aquela fabricação apaixonante, sobretudo porque minhas colegas me ouviam no início com olhos espantados e depois, convencidos. Essa história original me convinha muitíssimo, já que os homenzinhos assim constituídos eram inteiriços e tinham contornos muito simples.
Depois esse mito desapareceu de minhas preocupações, até o dia em que, quando eu estava com 8 anos, minha mãe me deu um livro de educação sexual, sem que eu tivesse pedido absolutamente nada, sem uma palavra (talvez "Toma" ou "Olha", mas não tenho certeza), e no mesmo tom de tensão latente de quando tinha de cuidar de minha higiene. Lembrome de tê-lo folheado na solidão de meu quarto, sem compreendê-lo e sem ter apetite de lê-lo do princípio ao fim, colocando-me fora de mim para não sentir o abatimento a que o livro me lançava. Entretanto, alguns dias depois, pedi que minha irmã, nove anos mais velha que eu, o explicasse. Ela trancou a porta e interpretou as imagens com palavras e comentários: "Veja, é desse jeito que eles fazem; olha, é assim." A leitura se tornava possível com ela (apesar de todas as mórbidas dimensões do deserto afetivo e lingüístico que constituía nossa sorte comum, minha irmã me salvou). A sexualidade requer a transmissão daquele que tem mais experiência para o que tem menos. Nesse campo, nenhum livro substitui uma palavra plena e intencional.
Daquelas páginas, só me lembro do desenho de um homem nu, deitado sobre uma mulher nua, que estava com as pernas juntas. Via-se, por intermédio de sei lá que corte transversal, o sexo do homem introduzido na vagina da mulher. Ao conhecer o procedimento, caí das nuvens. Ele estava fora do lugar em relação às minhas representações. Tomei conhecimento dele, mas como de uma resposta a uma pergunta que eu não tinha feito; como de um saber em superposição, que não encontrava função numa ordem em condições de acolhê-la. Apesar do desenho da relação se xual, apesar da lembrança bastante precisa que guardo dele, apesar do caráter irreversível dessa informação que se imprimiu naquele dia em minha consciência, parece-me que tudo continuou vago. Talvez eu não soubesse o que fazer daquele segredo revelado sem que eu tivesse formulado o pedido. Talvez eu não soubesse onde me colocar diante daquele casal superposto e imóvel. O caso ficou em suspenso. E, em especial, a forma do sexo masculino me pareceu totalmente inesperada.
A descoberta exata do sexo masculino sobreveio, portanto, nesse contexto de coisa fora do lugar.
Contudo, aos 12 anos, tive a oportunidade de sentir um entre minhas coxas. Tinha ido acampar. Durante uma semana nos Vosges com três amigos, entre os quais um menino, Joseph, de 14 anos, por quem eu estava apaixonada, e que dizia estar também apaixonado por mim. Na volta do passeio, ficamos sozinhos uma noite na casa dos pais dele, que tinham saído de férias. Naquela noite, dividimos a mesma cama, nus, acariciando-nos, saboreando o calor dos corpos aconchegados. E Joseph decidiu me penetrar, o que não foi possível porque eu sentia dor, não estando nem aberta nem lubrificada (ainda não era púbere). É assim que me lembro hoje, mas na hora não soube absolutamente até que grau de profundidade ou de realização nós chegamos. Senti um sexo duro que tentava penetrar o meu, que tinha tentado vencer a resistência do meu, e eu não sabia se ele tinha conseguido ou não. Depois que nos separamos, Joseph nunca mais deu sinal de vida, provavelmente roído pelo sentimento de culpa. Quase não nos vimos mais e, em todo caso, nunca mais nos tocamos.
De volta dessa experiência, na extrema solidão que a seguiu, fiquei, por minha vez, obcecada pela lembrança daquela noite tão inesperada, pela nostalgia ardente das carícias e do prazer que tinha sentido e que achava desconhecido e insubstituível. Perdia-me também em conjecturas para saber se tinha ou não sido deflorada, e se devia concluir dessa primeira relação sexual que fazer amor é delicioso no corpo superficial, mas doloroso no sexo, pelo menos para uma mocinha. Uma das perguntas que me perseguiam era saber se senti aquela dor porque não afastei as pernas. A moça deve afastar, ou até mesmo levantar as pernas quando o rapaz vem por cima dela? Essa pergunta me dava gastura durante as muitas horas que passava revivendo aquela noite extraordinária. Teria gostado tanto de perguntar a um adulto e também de contar a alguém a história da felicidade que senti para fazer com que ela acontecesse outra vez, mas não sabia a quem me dirigir (acabei contando à minha irmã, mas não senti o alívio que esperava. Aquela noite tinha ficado desesperadamente para trás. Contudo, ela me tranqüilizou a respeito da dor, e disse que, ao contrário, era "muito agradável"). Nas estantes do corredor, eu procurava a resposta para a posição da mulher nos poucos livros sobre amor e sexualidade que mofavam ali, evidentemente pouco folheados, álibis do total silêncio que reinava a respeito do assunto. Lia especialmente o livro de educação sexual para adolescentes que minha mãe tinha dado ao meu irmão e à minha irmã no dia em que me deu o volume da mesma coleção adaptado à minha idade. Mas eu não conseguia encontrar a informação sobre o modo de posicionar as pernas. Essa pergunta provavelmente concretizou todas as interrogações e toda a vontade de recomeçar que me perseguiam desde aquela noite de descoberta. Descoberta de um mundo, o do corpo nu encostado ao de um rapaz, feito de modo tão diferente, para se ligar ao meu e despertar em mim prazeres muito mais intensos que todos os que eu conhecia até então. Durante meses, fiquei com a cabeça cheia desses pensamentos extenuantes. Depois, eles desbotaram diante de outras questões mais cotidianas, escolares, intelectuais.
Durante as horas que passei nos braços de Joseph, só tive impressões muito confusas e embaralhadas de seu sexo, embora de manhã tenhamos tomado banho juntos (meu Deus! Como isso me pareceu livre e extraordinário!). Não cheguei a ter uma idéia nítida de sua forma ereta; limitei-me a sentir, num ponto escolhido por ele entre minhas pernas, um corpo duro que procurava com insistência mergulhar dentro de mim. O fato é que não me lembro absolutamente de ter olhado Joseph por inteiro, nem de tê-lo acariciado, a não ser às cegas, somente nas partes mais acessíveis às minhas mãos: costas, ombros, nuca, cabelos. Em todo caso, não olhei para seu sexo; creio que não tive nem vontade, nem desejo. Já tinha com certeza bastante coisa a fazer com o simples aparecimento em meu universo de um carinho de corpo inteiro, de pele com pele, de bocas que se roçam e depois dialogam com lábios e línguas, de calor partilhado. Não guardei nenhuma lembrança visual, mas tantas sensações táteis incrivelmente compensadoras. Sinto-me cheia de compaixão pela jovem adolescente que fui durante aqueles meses, tão triste por não ter experimentado novamente aquelas sensações e aqueles prazeres, tão insegura a respeito do que efetivamente vivera. Ela teria gostado de pelo menos saber, compreender, nomear e, além disso, com certeza... recomeçar!
Felizmente, depois de Joseph, outros amantes apareceram para tocar minha pele e, mais tarde, por mais de dez anos, partilhei com um marido o leito conjugal. Experimentei prazeres dos quais ainda me alegro e que sempre considerei prioritários quando se apresentavam. Contudo, o território do corpo masculino, que eu olhava, que passava por mim, continuava limitado a algumas sensações. Particularmente, eu não mergulhava nem no cheiro, nem na contemplação total e detalhada do homem que tinha a gentileza de me dar prazer. Ficava na superfície; não entrava com todos os meus sentidos na totalidade de seu corpo. O deslumbramento verdadeiro, o deslumbramento completo ainda estava por vir. Não digo que durante todos esses anos não tenha tido muito prazer com os poucos homens que se interessaram por mim. Não digo que durante todos esses anos não tenha sentido a textura da pele ou o gosto do sexo deles. Não é isso que digo. Digo que eles não eram mundos completos. Digo que eles não eram esplendores. Digo que seus corpos de homens não me emocionavam como um desses incríveis presentes da vida. Digo que meus sentidos tinham limitações que me impediam de conhecê-los. Digo que ainda não tinha embarcado de fato no deslumbramento. Digo que ver um homem ainda não me "deixava de quatro". Não digo que não fosse insensível; digo que eu era um pouco santinha, no sentido de que eu ficava no limiar da experiência plena do corpo a corpo.
Eu tocava em fragmentos, formas, linhas, mas não admirava o todo. Passava pouco tempo olhando o homem com o qual eu saboreava o masculino (o todo é dado pela visão). No entanto, em relação ao corpo dele, eu ficava numa globalidade indeterminada; me demorava muito pouco nos detalhes. Do sexo masculino propriamente dito eu preferia o periférico, o contexto, a situação mais ou menos imediata. Não mergulhava longa e apaixonadamente em seu conhecimento. Não me entregava nem às sensações, nem aos pensamentos que sua apresentação e representação oferecem. Eu aproveitava, se ouso dizer, "pelas beiras", mas não com total encantamento como faço agora. Eu ainda não possuía esse espanto, essa admiração que tenho hoje, embora, com certeza, estivesse presa e ligada a esse sexo em particular pelo prazer que ele me oferecia. Mas não via nele a apo teose do conjunto, o cume da serra, seu ponto culminante. Via nele um instrumento muito útil e de resultados eficazes, mas não um verdadeiro tema para contemplação e meditação. Não lhe oferecia atenção profunda. Enfim, não sentia infinito prazer em olhar o homem que queria se mostrar a mim, tampouco os que passavam por mim. Em outras palavras, não sabia comer com os olhos, me empanturrar com ele. Talvez porque, por natureza, ou por hábito social, me concentrasse apenas num companheiro de cada vez e me deixasse distrair olhando os passantes, os homens eventuais, o fluxo dos que circulam e cuja presença só se pode ter por uns momentos, por poucas horas. Não me colocava ao alcance deles, não aproveitava a proximidade deles. Ficava mais segura se convivesse com um único exemplar que, para mim, representava a pluralidade.
Na adolescência e na juventude, sem confessar a mim mesma, achava o corpo masculino um todo opaco, até sem graça. Não gostava dos pêlos que com freqüência os cobrem e sonhava com homens sem pêlos que só se vêem em filmes e publicidades. Mas na vida há poucas possibilidades de se topar com um deles (gostar apenas de corpos sarados é uma maneira velada de não gostar do corpo). O volume e a curva dos músculos poderiam equilibrar essa impressão de opacidade e monotonia, mas eu não ousava contemplá- los, convencida de que gostar dos músculos dos homens era comum, vulgar e convencional, indigno da intelectual que eu era. Essa impressão de que o corpo masculino é um corpo ingrato ficou por muito tempo presa à minha pele e à minha mente, e adulta ainda a carregava.
Eu disse que não olhava abertamente o sexo de um amante. Observar seu membro me intimidava. Não ousava fitá-lo. No fundo, pensando bem, acho que não era propriamente o pênis que eu considerava obsceno, mas sim o desejo de abordá-lo. Olhar para ele, nada além dele, detalhadamente, com todo o respeito que lhe é devido, aprender de fato a conhecê- lo, analisá-lo com olhos e dedos, com boca e língua, para melhor senti-lo depois na vagina ou no reto, exigiu que eu me livrasse especialmente da culpa de ter semelhante vontade. Achava esse membro inquietador somente porque minha vontade de me familiarizar com ele me ameaçava: tornava-me, a meus próprios olhos, voyeuse, indiscreta, obscena, "obsedada".
Observar francamente o sexo de um homem, isso, sim, era incongruente, desagradável, indiscreto. Acredito que essa regra, vinda não sei de onde, era tanto mais impregnante quanto nunca me foi explicitamente imposta por ninguém, e eu a interiorizei sem conhecer-lhe a origem. Ousar olhá-lo era de uma audácia louca, se comparado à simplicidade do ato. É justamente por esse motivo que, freqüentemente, na estatuária grega apresentada em slides em nossos cursos de história, ou, é claro, na intimidade com um amante, bastava prestar atenção para ver que eu vigiava atentamente meus olhos e jamais insistia. Decididamente, os interditos penetram os mais estreitos espaços de nossa intimidade. Eu apertava contra mim um homem nu, cobrindo-o de carícias, e o recebia na minha vagina, mas não me permitia aclamar ou conhecer plenamente o mais precioso e belo de seus atributos. Ficava na reserva, pudica, inquieta, insegura, pelo menos em parte; pelo menos de maneira inconsciente meu desejo não era totalmente livre ou liberado; ele era atrelado ainda, abarrotado de desconfortos, freado.
Dois sonhos, que datam de mais de dez anos, ficaram presentes em mim.
No primeiro, que tive aos 23 anos, eu acho, estou com minha irmã sentada a uma mesa. Devo ter por volta dos 7 anos e minha irmã deve ter alguns anos mais que eu. Sou ao mesmo tempo atriz e espectadora da cena e vejo nitidamente nós duas. Apenas a parte superior dos nossos corpos ultrapassa a mesa que está de esguelha. O conjunto lembra a atmosfera de um quadro de Bonnard, um desses interiores protegidos e imóveis. Sobre a mesa, há um patê, no formato de bola de rúgbi inflada, mas cheia de matéria, e não de ar; essa matéria é negra, um pouco brilhante e lisa. Trata-se, evidentemente, de uma borracha semelhante à das câmaras-de-ar das rodas de bicicleta. Minha irmã e eu sabemos que temos de fatiar aquele grande patê. No sonho, tenho certeza de que minha irmã o fará melhor do que eu porque é mais experiente nessa arte: ela sabe manejar melhor. No entanto, a faca não se encontra na cena. Sabemos também, vagamente, que se trata de um rato. Nem por isso estamos horrorizadas, mas o nojo paira, e eu acho até que sentimos medo, certamente eu mais do que minha irmã. Ficamos paralisadas; não fazemos nada. Contudo, sabemos que conseguiremos, que faremos o que está previsto para nós; não podemos "dar um corte naquilo".
Em outro sonho - que tive vários anos depois, por volta dos 28 anos, quando eu desejava muito uma segunda gravidez e achava a espera longa demais -, estou com meu marido num quarto que se parece muito com o que meu irmão usou durante muitos anos com sua namorada quando ele saiu de casa (a namorada com quem ele não teve filhos). Esse quarto era meio subterrâneo. Meu marido e eu estamos no fundo do quarto. Cada um de nós usa um paletó de pijama. O meu é rosa, o dele, azul. Evidentemente, são pijamas de Nicolas e Pimprenelle, personagens do famoso programa de televisão Boa noite, crianças, no qual Ursinho, todas as noites, desejava um bom sono às crianças. Na entrada do quarto, uma mulher, impressionante pelas formas generosas, que é nitidamente a combinação de minha mãe e da tia com quem eu passava os invernos quando estava no jardim-deinfância, desce alguns degraus e vai até nós. Meu marido e eu estamos absortos numa operação delicada: introduzir num vidro muito estreito um ratinho que parece morto, segurando-o pela cauda. Mas tememos principalmente que a mulher nos considere desajeitados e incompetentes.
Há, com certeza, muito a dizer sobre esses dois sonhos que me fascinaram quando, ao despertar, interessei- me em analisá-los. Nunca tive a menor dúvida de que, nos dois casos, o pênis é representado por um rato, animal que me provoca horror quando estou acordada, mas cujo nojo venço no sonho porque, evidentemente, é preciso manipulá-lo para alcançar meus objetivos. No primeiro sonho, ele é maciço, fechado, homogêneo, quase brilhante. No entanto, não tem graça alguma; nada que provoque desejo; é, sobretudo, objetivo e incontornável; é para se pegar ou largar, é o que se tem de enfrentar. Embora se trate de fatiá-lo, e até de comê-lo, não consigo me conscientizar de que essas ações traduzam uma vontade de reduzi-lo, picá-lo (o jogo de palavras é tentador) para destruí-lo. Acho mais pertinente entender que o objeto é tão grosso, tão duro de engolir que não se pode ter a pretensão de assimilá-lo de uma só vez. É melhor retalhá-lo antes e abordá-lo gradualmente, fatia por fatia. O sonho põe em perspectiva na cena apenas uma penetração oral. Não sei se se deve entender que, na época, eu temia o sexo oral, mas é algo de que não me lembro. Ou, então, que a via oral dá margem a simbolizar melhor qualquer penetração. Uma coisa é certa: aquela massa estufada, sem sabor ou cheiro, repugnante mesmo, tem de passar para o meu ventre, e essa ação, que nem minha irmã nem eu pensamos em evitar, não é agradável, mas impressionante.
Ao segundo sonho, associo uma recordação. Por volta dos meus 11 anos, na sexta série, falo do ato sexual com uma amiguinha, Christelle. Ela me conta as palavras da mãe, que deixam claramente entender que se pode fazer sexo de pijama. Digo-lhe que estou surpresa, já que, depois da leitura do livro de que falei há pouco, compreendi que fazer amor consiste em encaixar os sexos. Acabamos decidindo perguntar diretamente à mãe de Christelle, que afirma que, com certeza, ela aceitará responder francamente à pergunta. De fato, a resposta é clara. A mãe explica, um pouquinho constrangida, que se pode ficar de pijama, sem a "parte de baixo". Lembro-me de ter ficado muito aliviada com essa resposta, pois já via que teria de rever todo o meu saber sobre a questão, e só de pensar fiquei cansada. Por isso, no sonho, meu marido e eu estamos vestidos. Nesse sonho, estamos evidentemente infantilizados porque não conseguimos ter filhos, o que nos impede o acesso à condição de adultos. Mas o que me impressiona ainda mais é o símbolo sob o qual o pênis se apresenta: aquele animal de cauda longa, que a gente segura com a ponta dos dedos, de tal forma é pouco atraente, mas ao qual se é obrigado a recorrer. Nós o pegamos com pinças, como um rato de laboratório, para enfiá-lo num bocal estreito, sem nenhum prazer. Quase fazemos uma obrigação sob o olhar desconfiado de um adulto poderoso que vigia a operação. Nada disso é agradável, ou... a-pe-ti-to-so. (Que coincidência! O primeiro rapaz que me penetrou chamava-se Racho, nome curdo que em francês significa raquítico. Aliás, não tenho nada a dizer nem sobre esse primeiro amante, nem sobre a iniciação que tive com ele. Ele entrou na minha história sem marcá-la, pois, se interveio em meu corpo, não fez progredir nem meu imaginário, nem minha imagem dos homens. Prova de que não foi um verdadeiro encontro.)
Esses dois sonhos ilustram uma aversão obscura e pegajosa que por muito tempo recobriu um canto qualquer do meu inconsciente, mais ou menos extenso, mas sem chegar a impedir o caminho da aventura amorosa. O desejo de encontrar o masculino venceu isso com facilidade, mas o medo mesclado de repugnância certamente me atrapalhou por muito tempo. Eu disse que, quando era pequena, não havia pai em casa (encontrava-o eventualmente para curtos passeios, quase sempre desagradáveis), que meu irmão me parecia inacessível e pouco familiar (afinal, ele me dava medo, e com freqüência eu temia suas reações), e que só me sentia à vontade com minha irmã. Creio que todos os homens que conheci na infância, na realidade, me provocavam medo e aversão. Um amante de minha mãe, que por vários anos freqüentou nossa casa, não diminuiu esse medo. Ele era terrivelmente peludo, o que aumentava minha inquietação, sobretudo porque às vezes eu encontrava a cama de minha mãe cheia deles. Ele possuía também, sob todos os aspectos, algo de maciço, de grosseiro, o que, para mim, não tinha nada de atraente. É o mínimo que posso dizer. Sem charme, sem delicadeza, sem sensibilidade ou grande cortesia. Uma espécie de ser pesado, volumoso, ocupando lugar demais, para o meu gosto, na vida de minha mãe, e que diziam que era "pé-preto" (francês argelino). Eu não sabia o que isso queria dizer, mas era algo que acrescentava uma sombra espessa ao quadro. Aliás, ele largou covardemente minha mãe, sem preveni-la ou dar-lhe a menor explicação, o que não fez a reputação dos homens subir no meu conceito.
O único homem com quem convivi um pouco mais foi meu tio, marido daquela tia na casa de quem eu passava os invernos; aquela tia que aparece implicitamente no sonho que contei. Mas esse tio, ele também, me assustava por causa da voz, das palavras cortantes, da pele áspera cheia de buracos, da feiúra consumada. E também me causava aversão pelo que deixava transparecer de uma libido para a qual eu não estava absolutamente preparada. Ele falava abertamente diante da mulher - que nessas ocasiões sempre fazia uma expressão tranqüila - das dançarinas ou atrizes que apareciam na televisão e que o impressionavam. Ele me perguntou se minha irmã tinha muito peito (ao que talvez eu tenha respondido: "Ué! Dois como todo mundo"). Na mesinha da sala, ele acumulava exemplares de Lui (revista erótica), que eu folheava às vezes com minha prima, com um misto de excitação e incompreensão. Mais uma vez, nenhum charme, nenhuma ternura, uma tendência pronunciada para a vulgaridade.
Apesar dessas representações e dessas experiências, pressionada por um corpo que queria a todo custo conhecer um parceiro, almejei um encontro prazeroso com um homem que se ajustasse aos meus desejos. Às vezes o apetite pela vida nos obriga a passar por cima de nossos limites e medos, mas eles vêm atrás de nós, e nos alcançam. É preciso tempo para vencê-los e dissolvê-los no fluxo do desejo e do prazer. Felizmente, a vida me ofereceu um marido adorável, doce e atencioso, e meu casamento foi o primeiro ato de minha reconciliação com a virilidade. Conheci de perto uma delicadeza masculina verdadeira, e essa união modificou a geografia de minhas imagens interiores. Meu corpo e minha consciência souberam aproveitar a ternura generosa das carícias que experimentei com ele. Sua doçura, paciência e fervor apagaram muitos dos meus medos. Elas apararam as asperezas de minhas dúvidas. Fizeram de mim uma tabula rasa pronta para um dia acolher um novo e decidido gosto pelos homens.
Desde esse casamento, hoje completamente desfeito, ainda chamo o homem que amo de "meu bem", ou de "meu carinho". E lhe digo com freqüência: "Você é bonito!"
"O BELO SEXO DOS HOMENS"Autor: Florence Ehnuel
Tradução: Véra Lucia dos Reis
Editora: Objetiva
Número de páginas: 112
Preço sugerido: R$ 39,90