Pierre Arthens é o mais temido crítico gastronômico de Paris. Ou seja, ele pode mesmo se sentir o homem mais importante do mundo, responsável pelo sucesso e pela decorrada de uma porção de restaurantes. No livro de estréia de Muriel Barbery, a mesma autora de "A Elegância do Ouriço" (lançado no Brasil pela editora Companhia das Letras), Pierre está em seu leito de morte. E mesmo ali ele se mantém fiel a suas obsessões. A principal delas, que ocupa suas últimas horas de vida, é relembrar (e reviver) o sabor que seria o instrumento de sua libertação.
Com esse enredo curioso, e muita sensibilidade para descrever os prazeres da mesa, Muriel faz de "A Morte do Gourmet" (Companhia das Letras, tradução de Rosa Freire D'Aguiar) um livro delicioso. Tanto que com ele a escritora marroquina, ex-professora de filosofia da École Normale Supérieur de Paris, ganhou o prêmio de "Melhor Livro de Literatura Gourmande", em 2000.
Pierre é morador do elegante número 7 da Rue de Grenelle, na capital francesa, cenário de "A Elegância do Ouriço". Quem leu este, lançado primeiro aqui no Brasil, reconhecerá o crítico mal humorado, de poucos amigos e que mantém uma relação conflituosa com a família. Para ele, filhos são "monstruosas excrescências de nós mesmos, lamentáveis substitutos de nossos desejos não realizados".
A riqueza do livro está no tratamento dado à comida. É um romance feito para gourmets. Ou no mínimo para quem gosta de comer - o que inclui quase todo mundo. A procura pelo sabor primário, aquele que saciaria a fome de uma vida, Pierre chega aos primórdios da boa comida. Uma ótima passagem é a que o personagem discute um velho jargão do mundo da gastronomia: por que nenhum chef, por mais estrelado que seja, é capaz de cozinhar melhor que nossas avós?
A autora aproveita o espaço para lançar mão de uma interessante tese que explicaria muita coisa na pré-revolução sexual. Vê na comida a principal arma de sedução das mulheres. Preparar o alimento com o coração, empreendendo num prato um grau de emoção difícil de ver numa cozinha profissional, seria a forma de prender seus homens "não pelos cordões da administração doméstica, pelos filhos, pela respeitabilidade ou mesmo pela cama - mas pelas papilas".
As excelentes descrições dos prazeres que uma comida é capaz de suscitar tiveram a consultoria mais que providencial do chef Pierre Gagnaire, este sim um estrelado nome da gastronomia francesa. A procura desse sabor escondido e sem controle faz de "A morte do gourmet" um livro sobre o desejo - e sobre a obsessão que o desejo nos causa. O estado de hipnose que torna o mais equilibrado dos seres parecer um demente, um possesso, "disposto a tudo por uma pequena migalha".
A descrição sensorial de um pedaço de peixe cru na boca é tão fascinante que nos leva a repensar a relatividade absoluta da existência humana. Sardinhas grelhadas rusticamente alcançam tal estado de êxtase capaz de evocar "a virtude dormitiva do ópio". O caráter supérfluo do doce, que só pode ser apreciado em toda sua sutileza se não for devorado para matar a fome, resume toda a história da humanidade.
E assim, do pequeno, a autora constrói o grande. O crítico comilão que procura o gosto final se vê diante do seu maior exercício de desapego. E simplifica seu desejo, sua memória de gourmet e sua própria personalidade. Um livro instigante e que, sim, abre o apetite.
"A Morte do Gourmet"
Autora: Muriel Barbery
Tradução: Rosa Freire D'Aguiar
Editora: Companhia das Letras
Preço sugerido: R$ 34