Quando Philip Roth lançou "Indignação", no ano passado, a crítica se dividiu em duas leituras. Uma dizia que, com essa novela curta, o autor se distanciava dos temas de seus livros anteriores. Outros leitores relatavam justo o contrário: que as obsessões de sempre estavam de volta, embora em nova roupagem.
De fato, "Indignação" (Companhia das Letras, tradução de Jorio Dauster) não parece uma continuação das obras passadas de Roth, como "Homem Comum" ou "O Fantasma Sai de Cena". Nathan Zuckerman, personagem-narrador e alter ego do escritor presente em nove livros (cinco com tradução ao português), não está lá. Mas é o mesmo Philip Roth, obcecado pelas relações humanas fracassadas, a começar pela estabelecida no berço de uma típica família judaico norte-americana.
Marcus Messler é o narrador dessa história. O ano é 1951. Os Estados Unidos estão mergulhados no clima de repressão que antecedeu a revolução sexual, sem perder de vista a Guerra da Coréia, então no seu segundo ano. A palavra em voga então é conflito. Nesse ambiente, um garoto de pouco menos que 19 anos narra sua trajetória que vai culminar (e aqui está o ponto alto do enredo) com a sua morte. Impossível não relacioná-lo à Brás Cubas.
Estudioso, bom filho, exemplo de disciplina, Marcus acredita que a tranquilidade na vida depende, acima de qualquer coisa, do seu desempenho na Universidade de Winesburg. O que significa, além de todo empenho com as notas, manter-se em equilíbrio no meio mais conservador de Ohio. Para Marcus, a lógica é muito simples. A universidade é a única forma de manter-se distante de dois pesadelos do destino: voltar a ajudar os pais no negócio da família (um açougue kosher em Newark) ou a guerra, onde a morte é algo certo. São duas maneiras de morrer.
O talento descritivo de Roth não é novidade, mas sempre surpreende. Uma passagem exemplar é a que o personagem-narrador descreve sua experiência numa família de açougueiros. "Cresci cercado de sangue - sangue e sebo, afiadores de facas, máquinas de fatiar e dedos amputados em parte ou por inteiro", diz Marcus, para em seguida reconhecer que jamais gostou, ou sequer se acostumou com isso.
A imagem dos pais sempre cobertos de sangue; a memória de um avô que ele não conheceu, mas de quem herdou o nome, e que tinha metade de um dedo amputado; o cheiro das carcaças de animais abatidos - é a fuga disso tudo que motiva o personagem de Roth. E nesse contexto, a relação de superproteção da família ganha um peso difícil de suportar. Marcus aceita aprender o ofício de açougueiro como quem aceita uma fatalidade, sem se deixar levar pelo "prazer" que pode existir ali. Não aprende a gostar, nem mesmo a ser indiferente ao seu meio.
O pai de Marcus é um personagem importante na trama. Se é possível dizer que "Indignação" é um livro sobre o inevitável, muito desse fado parece antevisto pelo patriarca. O homem beira a loucura com sensações premonitórias. Não consegue conter uma preocupação sem limites com o despreparo do único filho para os perigos da vida. E nem enxerga que o menino cresceu.
Dessa forma, a ambição de Marcus é motivada pelo desejo de liberdade. "De ficar livre de um pai forte e pacato de repente acometido de um medo incontrolável com respeito ao bem-estar do filho adulto." De ficar longe de um avental coberto de sangue e da guerra, igualmente sanguinária e fatal.
Em "Indignação", Roth retoma seus fantasmas de sempre, dessa vez com o peso do imponderável, daquilo do qual não se pode fugir, nem evitar. O destino é o ponto de conflito. E a incrível inabilidade humana para lidar com ele.
"INDIGNAÇÃO"Autor: Philip Roth
Tradução: Jorio Dauster
Editora: Companhia das Letras
176 páginas
Preço sugerido: R$ 36