UOL Entretenimento Resenhas

04/05/2009 - 18h38

Contos de Mia Couto recriam a linguagem de Guimarães Rosa

DANIEL BENEVIDES
Colaboração para o UOL
A primeira impressão quando se abre "O Fio das Missangas", mais recente livro de contos do moçambicano Mia Couto, é que se trata de um livro leve e despretensioso. São, afinal, 29 narrativas bem curtas, de tênue estrutura narrativa, montadas muito sobre não-ditos. Á medida que se avança pelas páginas no entanto, descobre-se uma linguagem de alta voltagem poética e densidade dramática.

  • Reprodução

    Capa de "O Fio das Missangas", livro de contos do escritor moçambicano Mia Couto

A magreza aparente dos contos -- cada qual uma missanga -- traz embutidas paixões humanas das mais universais: amores desfeitos, vinganças, suicídios, loucura, traições, incesto, a melancolia da perda, violência.

Algumas histórias têm um certo clima de realismo fantástico, que se confunde um pouco com as lendas populares de Moçambique. Em "Peixe para Eulália", por exemplo, há barcos que se remam no ar e olhos que saem de suas órbitas. Florinha, mulher desejada em "O Caçador de Ausências", transforma-se em leopardo. E em "Inundação" há um rio que invade as casas num piscar de olhos, como se tivesse vida própria.

Muitas, mais terrenas, dão conta de desamores e desconfianças. Meia culpa, meia própria culpa é a confissão da mulher que matou o marido: "O meu Seis estava todo pronunciado no chão. Decorado com sangue, aos ímpetos, mapeando o soalho." História que se repete, de outra maneira, na "cruel dança do tempo" de "Os Olhos dos Mortos". Uma questão de honra, por sua vez, narra as desavenças de dois velhos amigos jogadores de damas.

A unir as narrativas há não apenas finais inesperados, como no divertido conto inicial, "As Três Irmãs", mas principalmente o gosto de recriar a língua, de inventar palavras (como de resto nos demais livros do autor). Muito influenciado por Guimarães Rosa, Mia Couto -- para quem a reforma de unificação ortográfica é uma bobagem -- descobre caminhos entre a oralidade do sudeste pobre da África e a liberdade poética. Em suas páginas encontramos "homosensuais", "a "acutilância dos dedos", um "vizinho anoitrevido", uma "saia almarrotada" e uma "moça pteridófita", além de verbos como "soslaiar" e "cinzentear", e nomes como "Isadorangela" (tão gorda que tem dois nomes em um).

Um gosto por metáforas sobre o próprio ato de narrar também se faz presente, como na fábula "A Infinita Fiadeira", em que uma aranha tece teias "inúteis", não para enredar presas, mas por pura arte. Já em "O Menino que Escrevia Versos" a metáfora ganha ares de auto-ironia: por gostar de escrever -- atividade tão estranha --, o miúdo do título é levado ao médico, pois sua família acha que se trata de doença grave.

  • Reprodução

    "Terra Sonâmbula", de Mia Couto, tido como um dos doze melhores livros africanos do século 20

Terra Sonâmbula

Conhecendo-se a história do autor, jornalista e biólogo, humanista radical, que escreveu uma notória carta ao então presidente Bush criticando sua política externa de violência e opressão, pressente-se em todas as histórias-missangas a sombra da guerra que arrasou o país entre 1965 e 1975, quando finalmente obteve a independência de Portugal. Mesmo sem pegar em armas, Couto participou ativamente do conflito como integrante do Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), o grupo marxista que acabou no poder, e trabalhou no governo durante a guerra civil que se estendeu até 1992 -- curiosamente, é um dos autores do hino nacional.

Em seu romance mais conhecido, "A Terra Sonâmbula", tido como um dos doze melhores livros africanos do século 20, Couto, que hoje dirige um empresa de impacto ambiental, descreve a paisagem desolada da guerra, com cadáveres espalhados pelos campos e estradas. Logo no começo, uma de suas frases antológicas dá bem a medida do clima local, que permeia toda sua (premiada) obra: "E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte".

Compartilhe:

    GUIA DE RESTAURANTES

    Mais Guias

    Hospedagem: UOL Host