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26/04/2009 - 09h00

Século 20 é explicado via música clássica por crítico da "New Yorker"

MARTA BARBOSA
Colaboração para o UOL
A música (qualquer música) causa efeito sobre seu público em virtude de uma série de fenômenos acústicos, que "agita o ar" causando as sensações. Seria simples assim se as notas de uma canção não abrangessem esferas tão subjetivas quanto gosto e desgosto. Certamente, basta uma vista pela história para perceber o quanto essa relação entre música e público pode ser complexa. Um excelente registro (e guia) dessa complexidade é o livro "O Resto é Ruído", de Alex Ross (tradução de Claudio Carina e Ivan Weisz Kuck, lançado pela Companhia das Letras), crítico da revista "New Yorker". Numa narrativa contínua de quase 700 páginas, o crítico musical explica o século 20 pelo universo da música clássica.

  • Reprodução

    Cara de "O Resto é Ruído", de Alex Ross, crítico da "New Yorker", presença confirmada na Flip 2009

Mais do que um cuidadoso e bem planejado levantamento histórico, "O Resto é Ruído" é marcado pela defesa de uma tese. Alex Ross defende a ideia de que a música clássica, embora sofrendo uma perda gradual de público com o passar dos anos, nunca esteve distante dos temas atuais da sociedade. Mais: que a música clássica não apenas espelhou, mas alguns momentos anteviu importantes acontecimentos políticos e sociais de sua época.

Em defesa de sua tese, o crítico enumera dezenas de passagens históricas em que música e vida real se aproximam ou mesmo se interceptam. Uma aula e tanto para quem pensa que música clássica é a "arte dos mortos, um repertório que começa em Bach e termina em Mahler e Puccini". Pensamentos assim são alimentados, na opinião de Alex, pelo ritmo desafinado que a produção musical vem ganhando ao longo dos anos. Por isso, o autor dedica o livro não apenas aos artistas, mas principalmente aos "diretores de empresa que tentaram determinar que música seria escrita; os intelectuais que tentaram prescrever um estilo (...) e as tecnologias que mudaram o modo de fazer e ouvir música".

A história da música desde 1900 tem como ponto de partida a apresentação de "Salomé", adaptação de Richard Strauss para a obra de Oscar Wilde, ocorrida em 16 de maio de 1906, na cidade austríaca de Graz. Ali estiveram as principais cabeças coroadas da Europa. Desde a premiére, cinco meses antes, corria o boato que "Strauss passara dos limites com essa criação". A descrição do acento político da regência é realmente instigante, com um texto rico em detalhes -- digno de um trabalho incansável de pesquisa.

A obra de Oscar Wilde é de 1891. Isso explica o entusiasmo (e a surpresa) da plateia diante uma Salomé que erotiza sem pudor o corpo de João Batista, numa quase necrofilia. Traduzido à música, Strauss compõe uma abertura perturbadora, para dizer o mínimo. "As primeiras notas no clarinete são uma simples escala ascendente, esta, porém, se divide ao meio: a primeira metade pertence ao dó sustenido maior; a segunda, ao sol maior". Entre as notas, um intervalo conhecido como trítono, capaz de produzir vibrações incômodas aos ouvidos de qualquer ser humano. Foi assim que Strauss pôs a rica sociedade européia diante do assustador, porém inevitável novo século. A Salomé de Strauss personifica a sexualidade descortinada por Freud e o conflito entre burguesia e vanguarda, que marcaram a Viena do século 20.

Dizem, o jovem Adolf Hitler esteve na plateia dessa noite. Foi, aliás, a partir dessa informação, escrita quase sem importância no rodapé de um livro publicado no final dos anos 1980 sobre a ópera de Strauss que Alex Ross (na época estudante de música) viu nascer o projeto de "O Resto é Ruído".

Outra passagem instigante do livro é a que Alex desvenda a música transformada em propaganda nos idos da Segunda Guerra Mundial. O autor apresenta, por exemplo, o plano de Stalin segundo qual artistas com uma pegada otimista ascendiam, enquanto músicos cujas obras chamavam para uma realidade sem perspectivas tendiam à sombra, e ao esquecimento. O mesmo se repete nos Estados Unidos de Roosevelt.

O autor
Americano nascido em Washington, Alex Ross é crítico musical da revista "New Yorker". Antes, escreveu sobre música clássica para o New York Times e até teve um programa de rádio dedicado apenas às canções eruditas contemporâneas. Seu "O Resto é Ruído" foi indicado ao prêmio Pulitzer de 2008 e figurou nas listas dos melhores livros de 2007 do New York Times, Washington Post e da revista "The Economist". O melhor é que o público brasileiro terá oportunidade de trocar impressões pessoalmente com o autor, e muito em breve. Alex é presença confirmada na FLIP -- Feira Literária Internacional de Paraty, que ocorre entre os dias 1 e 5 de julho na cidade fluminense.



"O RESTO É RUÍDO: ESCUTANDO O SÉCULO XX"
Autor: Alex Ross
Editora: Cia. das Letras
646 páginas

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