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12/04/2009 - 08h47

A maternidade pelo avesso no novo romance de Bernardo Carvalho

MARTA BARBOSA
Colaboração para o UOL
O novo livro de Bernardo Carvalho, "O Filho da Mãe" (ed. Companhia das Letras, 199 páginas), periga ser um dos melhores títulos brasileiros do ano, sem nenhum exagero. Com uma trama complexa e muito bem construída, o autor consegue manter a tensão na leitura até a última das 199 páginas de texto. Dramática, a história transita pela guerra da Tchetchênia, por uma São Petersburgo em obras, pelo alto mar do Japão. E tudo se converge no tema da vulnerabilidade natural a todo e qualquer ser humano, em especial às mães.

Sim, os dramas da maternidade estão no epicentro do livro. Em alguns momentos, chega a ser patética a imagem de mãe criada por Bernardo, seja na figura da personagem incapaz de proteger o filho, seja na imagem da mulher desesperada em manter um não-sentimento pelo filho que abandonou. As mães são caóticas. Estão bem distante do pedestal aonde usualmente costumam ser elevadas. E a maternidade é apresentada em seu avesso: pelo abandono, desamparo e culpa.

  • Reprodução

    "O Filho da Mãe", livro de Bernardo Carvalho, parte da coleção Amores Expressos

Em um dos dramas, Olga deixa vencer-se pelo marido que quer a todo custo ver o enteado repetir suas pesadas experiências de juventude -- o que significa sobretudo entrar para o exército russo. Em sua defesa, Olga mente, "por condicionamento e inércia". Finge acreditar que só os homens que passam pelas forças armadas são capazes de sobreviver à Rússia. Dissimula que todos os horrores aos quais o filho é submetido são necessários. Tenta não enxergar a inquietação do padrasto ao ver que o enteado pode ter uma juventude diferente da sua, longe das humilhações e superações desnecessárias da guerra. Nikolai, o padrasto, encontra na submissão da mulher o aliado para fazer com que o jovem Andrei repita sua vida trágica, como se de repetições fosse o ciclo da vida.

Em outra ponta da trama, Anna é a mãe surpreendida pelo encontro com o filho que abandonou recém-nascido. Ela foge do passado porque está certa que ninguém ama por obrigação. E fica em pânico diante da mínima possibilidade de experimentar um sentimento qualquer dessa relação borrada. Não há inocência na imaturidade de Anna, nem nas dores de Olga, Nikolai, nem do próprio Andrei. Aliás, ingenuidade é algo que não existe nos personagens conflituosos desse romance.

Entre diálogos interrompidos e frases não-ditas, chama atenção no modo de narrar do autor a escolha do tempo verbal. Bernardo é fiel ao presente, o que traz um imediatismo jornalístico ao texto. Merece destaque as passagens de perseguição que atravessam as ruas da cidade "construída para ninguém escapar". A geografia de São Petersburgo moldura toda a trama, num exercício de descrição espacial muito bem executado. Os personagens de Bernardo estão sufocados pela poeira da cidade em obras, na véspera do seu tricentenário.

Amores expressos
"O Filho da Mãe" é o segundo volume da coleção Amores Expressos, pela qual 16 autores foram para alguma parte do mundo (de Nova Iorque, Lisboa a Xangai) em busca de inspiração para escrever uma história de amor. O processo de seleção dos autores e o quase financiamento do governo à iniciativa (a polêmica foi tanto que os organizadores desistiram de inscrever o projeto na Lei Rouanet) causaram críticas. Controversas a parte, é bom ver que de São Petersburgo, Bernardo Carvalho trouxe um bom livro.

O carioca Bernardo Carvalho é apontado como um dos mais criativos entre a atual leva de escritores brasileiros. É dele o excelente "O Sol se Põe em São Paulo", além de duas premiadas publicações de ficção: "Nove Noites" (prêmio Portugal Telecom) e "Mongólia" (prêmio Jabuti), todos lançados pela Companhia das Letras.




"O Filho da Mãe"
Autor: Bernardo Carvalho
Editora:Companhia das Letras
199 páginas

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