UOL Entretenimento Resenhas

21/02/2009 - 19h05

Tezza, Pontiggia e Oe fazem de filhos com deficiências material para literatura

DANIEL BENEVIDES

Colaboração para o UOL
Reprodução
Capa de "O Filho Eterno", de Cristovão Tezza (ed. Record)
LEIA TRECHO DO LIVRO
2008, O ANO DE TEZZA
Três livros lançados em tempos diferentes tratam da mesma questão: a paternidade de crianças nascidas com algum tipo de deficiência. E o fazem também do mesmo modo, não como reportagem ou depoimento pessoal, mas como romance.

:: LEIA TRECHO DE "O FILHO ETERNO" ::

No mais recente deles, o bastante (e merecidamente) premiado "O Filho Eterno", de Cristóvão Tezza (ed. Record), o personagem principal é um escritor fracassado, "alguém provisório", cujo primeiro filho nasce com Síndrome de Down. Escrito em terceira pessoa, depois de 20 anos de gestação (ou compreensível relutância), o livro impressiona pela franqueza quase cruel de alguns momentos. Franqueza essa que, no entanto, tem permanentemente sob si um rio subterrâneo de ternura, que vai desembocar nas últimas páginas.

"Nascer Duas Vezes" (Cia. das Letras), do italiano Giuseppe Pontiggia, e "Uma Questão Pessoal" (Cia. das Letras), de Kenzaburo Oe, escritor japonês agraciado com o Nobel, são, sintomaticamente, perpassados pela mesma sinceridade autodestrutiva, outro lado da moeda de um amor incontornável.

O primeiro é narrado por um professor com elegante e frágil distanciamento. Seu filho sofre de tetraparesia espástica distônica, o que faz com que tenha sérias dificuldades motoras. Logo no começo, ele cai num shopping e diz ao pai: "Se tem vergonha de mim, pode andar afastado. Não se preocupe comigo".

Por mais que se aferre a um egoísmo escapista, o pai, tal como os personagens também autobiográficos nos livros de Tezza e Oe, preocupa-se e muito: o filho torna-se sua razão principal de vida e até mesmo um impulso inconsciente para a criatividade, proporcionando um tipo de redenção.

No caso do romance de Oe, essa dualidade é tratada de modo mais feroz. O pai de "Uma Questão Pessoal" se desespera diante da grave enfermidade no cérebro de seu filho e se refugia nos braços de uma amante, virando-lhe as costas e sonhando em fugir para a África. (O filho real de Oe revelaria uma sensibilidade especial para a música e se tornaria pianista e compositor, com pleno apoio do pai.)

Tezza se aproxima mais de Oe na intensidade com que revela suas hesitações, dúvidas existenciais e perplexidade. O momento em que o médico anuncia a enfermidade de Felipe, nome escolhido por ser "nítido como um cavaleiro recortado contra o horizonte" é um dos pontos altos de nossa literatura recente (leia trecho).

Com angústia temperada por humor - um humor de proteção, de resistência -, Tezza (ou seu alterego) tenta encaixar aquela "criança (que) é a idéia de uma criança" no mundo concreto em que vive, escrevendo livros que são sistematicamente recusados pelas editoras, tentando, ele mesmo, sair das "gaiolas metafísicas" em que foi colocado/se colocou, na medida dos insucessos.

Assim, o narrador intercala suas claudicantes tentativas de erguer-se por si mesmo, como marinheiro, como faxineiro num hospital na Alemanha, como revisor de teses acadêmicas, com a dura progressão de seu filho nos primeiros ensinamentos: o caminhar, o falar, o entender.

É a busca de uma autenticidade, e também de uma suposta "normalidade", o que implica na recusa de qualquer "piedade, o alimento da pieguice, que é a forma grudenta, caramelizada da mentira".

Nesse processo, o narrador se aproxima tanto de seu tema, se mistura tanto a ele, em uma relação visceral, que o distanciamento inicialmente pretendido se desfaz e temos assim um caso híbrido de terceira pessoa que soa mais como primeira. O escritor Cristóvão Tezza, nascido em Florianópolis e criado em Curitiba, onde vive, está, assim, inteiro nas 222 páginas desse livro magnífico, com suas cicatrizes vertidas em memoráveis digressões, em aforismos latentes, prontos para serem usados em possíveis filosofias de vida.

Está o escritor e está Felipe, orgulhoso torcedor do Atlético Paranaense, exibindo seu contagiante sorriso de "campeão" (não de um campeonato de futebol, mas de um torneio bem mais difícil).



"O FILHO ETERNO", de Cristovão Tezza
Editora:
Record
Páginas: 224
Preço sugerido: R$23

"NASCER DUAS VEZES", de Giuseppe Pontiggia
Editora:
Cia. das Letras
Tradução: Roberta Barni
Páginas: 208
Preço sugerido: R$41,50

"UMA QUESTÃO PESSOAL", de Kenzaburo Oe
Editora:
Record
Tradução: Shintaro Hayashi
Páginas: 224
Preço sugerido: R$45,50

Compartilhe:

    RECEBA NOTÍCIAS

    GUIA DE RESTAURANTES

    Mais Guias

    Hospedagem: UOL Host