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29/06/2008 - 12h00

Convidado da Flip, Martin Kohan traz a nova narrativa argentina ao Brasil

DANIEL BENEVIDES
Colaboração para o UOL
Reprodução
Capa de "Ciências Morais", do argentino Matin Kohan, que participa da Flip 2008
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"Ciências Morais", novo romance do argentino Martin Kohan, agora lançado no Brasil, se passa no período final da ditadura argentina, quando a aventura insana da Guerra das Malvinas mobilizava o país, em meados de 1982.

Maria Teresa é inspetora no super tradicional Colégio Nacional de Buenos Aires, referência cívica e dos "bons costumes". Tímida, sem atrativos e com pouca personalidade, ela se guia pelo extremo rigor das regras do colégio.

Para ela, é Deus no céu e o diretor na Terra. Sua mãe, a própria imagem da alienação, vê a televisão no modo "mudo", e espera os postais lacônicos do filho Francisco, enviado para a Guerra das Malvinas.

Bisugatto, o chefe dos inspetores, é um sujeito decididamente desagradável. No passado recente ele foi responsável por fazer listas com nomes de alunos do colégio e entregá-las às autoridades militares. Um delator, com todas as letras. Mas, aos olhos admiradores de Maria Teresa, um defensor dos interesses magnos da Pátria.

Todo excesso de zelo esconde um desejo inconfessável, e é o que mostra Kohan em sua alegoria, colocando cada gesto de Maria Teresa nas lâminas de seu microscópio literário. Ansiosa por fazer-se notar positivamente pelo chefe e seu bigode severo, a pobre decide esconder-se no banheiro masculino para ver se flagra algum comportamento impróprio.

Sua obsessão é o aluno Baragli, que ela intui ser um "subversivo" pelo modo ousado como apóia a ponta dos dedos no ombro da colega da frente na hora da fila, ou pelo jeito provocante com que mostra a perna para provar que está com as meias corretas.

Tem certeza de que ele se aproveita das idas ao banheiro para fumar escondido. Chega a descobrir qual loção masculina ele usa, para melhor identificá-lo quando fechada no cubículo, com as pernas encolhidas e as costas apoiadas nos frios ladrilhos.

Divulgação
O escritor argentino Martin Kohan, que participa da Flip 2008
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O livro é todo construído com o olhar isento da terceira pessoa, como se Kohan tentasse, por meio desse expediente, exorcizar o espírito opressor da ditadura, que aqui aparece na sua forma mais comezinha. Mas é tão grande o envolvimento do leitor com a intimidade da personagem que é como se o romance estivesse narrado em primeira pessoa.

Perto do final, a leitura ganha densidade psicológica e suspense com uma violenta reviravolta. Kohan consegue, com os poucos elementos de que dispõe, a intensidade de que é feita toda grande obra de literatura.

"Ciências Morais" é seu mais recente romance. Recebeu no ano passado o prestigiado prêmio Herralde da Espanha. Para se ter uma idéia da importância do prêmio, entre os últimos vencedores estão o também argentino Alan Pauls, com "O Passado" (em 2003), o espanhol Enrique Vila-Matas, com "O Mal de Montano" (em 2002), e o chileno Roberto Bolaño, com "Os Detetives Selvagens" (em 1998), todos do primeiríssimo time.

Nascido em 1967, Martin Kohan agora faz parte dessa verdadeira seleção de escritores. Já publicou sete romances, dois livros de contos e três livros de ensaios, sempre com boa recepção crítica e de público. É também professor de teoria literária na Universidade de Buenos Aires e da Patagônia.

Mais novo do que Pauls e Bolaño, Kohan viveu como criança e adolescente a sangrenta ditadura em seu país. Foi o suficiente para que ficasse bastante marcado pela experiência. Em seus livros, ele sempre trata, direta ou indiretamente, do horror do período militar, que se estendeu de 1976 a 1983. São textos em que a objetividade histórica se mistura a um minucioso olhar subjetivo, com resultados por vezes perturbadores.

Reprodução
"Duas Vezes Junho", livro de 2001 do escritor argentino Martin Kohan
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Em "Duas Vezes Junho", de 2001 (Amauta Editorial), por exemplo, romance também lançado no Brasil, o resgate da memória dos anos de chumbo é explícito. A frase de abertura é quase indizível: "Até quando um feto suporta a tortura na barriga da mãe?".

Quem se faz a pergunta é um médico responsável pelos interrogatórios violentos realizados no quartel a poucos metros do estádio que servia de palco para a Copa do Mundo de 1978. Num contraste cruel, a torcida apoiava ruidosamente a Argentina, totalmente alheia ao que se passava logo ali ao lado.

Kohan estará na Flip - Festa Literária Internacional de Parati - no dia 4 de julho, sexta-feira, debatendo a Estética do Frio, com o jovem americano Nathan Englander, outra revelação da literatura mais recente, e o gaúcho Vitor Ramil.



"CIÊNCIAS MORAIS"
Editora: Cia. das Letras
Tradução: Eduardo Brandão
Preço médio: R$ 30

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