Dois anos depois de ser tachado de o grande mentiroso americano pela poderosa Oprah Winfrey, James Frey, autor de "Um Milhão de Pedacinhos", lança um novo livro, desta vez declaradamente fictício. "Bright Shiny Morning" (numa tradução livre, Manhã Brilhante) é um romance que tem como protagonista a cidade de Los Angeles, onde se desenvolvem quatro histórias paralelas e pela qual passam uma série de tipos urbanos.
Mas a volta de Frey às livrarias também acrescentou um novo capítulo à polêmica sobre suas memórias inventadas em "Um Milhão de Pedacinhos".
 As falsas memórias de James Frey foram publicadas em "Um Milhão de Pedacinhos", história que depois foi comprovada fictícia |
No final de 2005, o livro foi selecionado para o "Book Club" de Oprah, arrancou para o topo da lista dos mais vendidos e passou a ser recomendado aos quatro ventos como a história inspiradora, emocionante e real de um homem que vencera o vício e o crime.
Até que o site "Smoking Gun" preparou um extenso relatório provando que muito do que Frey alegava ter acontecido era ficção. E Oprah teve de pedir desculpas ao público, depois de despejar uma saraivada de acusações cara a cara com o escritor em seu programa de televisão.
Agora, o autor deu uma longa entrevista à revista "Vanity Fair" contando, em parte, seu lado da história. Embora não possa revelar detalhes por conta de um acordo judicial com a editora Random House, Frey insinua que "Um Milhão de Pedacinhos" foi primeiro beneficiado e depois vítima dos esquemas de divulgação.
A evidência mais significativa seria um questionário do autor à editora, preenchido meses antes do lançamento, no qual teve que afirmar ver o livro mais como uma "obra de arte ou literatura" do que como "memórias e autobiografia".
Mas o livro foi vendido como um relato de fatos verídicos, e Frey abraçou tal versão em suas aparições públicas.
As dimensões que o caso tomou, mobilizando os maiores jornais e TVs do país, expõe a fixação norte-americana pelos exemplos de vida e superação pessoal, que a literatura de ficção, ao que parece, não consegue mais superar.
 O norte-americano James Frey lança novo livro, desta vez uma ficção passada na cidade de Los Angeles |
Mas a história de Frey também pertence à grande galeria de obras que questionam e põe em xeque a avidez dos leitores por esse tipo de livro. Entre os exemplos recentes, é possível não lembrar J. T. Leroy, cujo livro "Sarah" foi vendido como relato autobiográfico sobre prostituição e abuso sexual sofrido por um garoto de 12 anos. Na verdade, Leroy era a persona criada pela escritora Laura Albert.
No outro lado da moeda, alguns autores de ficção enfrentam outra dimensão do problema. Há pouco mais de uma semana, a Folha de S.Paulo noticiou os ataques contra os escritores Michel Houellebecq e Hanif Hureishi, respectivamente pela mãe e pela irmã, por retratarem parentes reais em suas obras fictícias. "Minha vida foi assassinada pela causa da arte", disse Yasmin, irmã de Kureishi.
O fenômeno, para o qual não há resposta ou solução fácil, tem um belo retrato em "Zuckerman Unbound", de Philip Roth, no qual ficção e realidade são convidadas a passear por uma sala de espelhos. Na obra, o personagem escritor Nathan Zuckerman, considerado o alter ego de Roth, narra os problemas que ele e sua família enfrentam por serem confundidos com personagens do livro que o catapultou para a fama: a obra fictícia "Carnovksy" - num paralelo explícito da experiência pessoal de Roth após o sucesso de "O Complexo de Portnoy". A ironia de Roth é uma faca afiada diante de um nó que não há como desatar.
"Bright Shiny Mornig"
Autor: James Frey
Editora: Harper
Preço: US$ 26,95
"Um Milhão de Pedacinhos"
Autor: James Frey
Editora: Objetiva
Preço: 56,90
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