Para os italianos, o importante é "fare bella figura" ou, dito de outro modo, não fazer feio. Certo exibicionismo estético caracteriza esse povo, que prefere um gesto bonito a uma boa ação. Pelo menos, é o que sustenta o jornalista Beppe Severgnini, autor de "A Cabeça do Italiano".
O livro se apresenta como uma visita guiada à mentalidade do país, em dez dias. O itinerário tem partida e chegada no aeroporto Malpensa, passa por Milão, Toscana, Roma, Nápoles, Sardenha e Crema, com paradas no restaurante, na loja, na "piazza", no banco, no escritório, no barbeiro, na praia e no estádio de futebol, entre outros. Cada parada é pretexto para um breve tratado, um instantâneo de como pensa e funciona a Itália no século 21.
 Livro "A Cabeça do Italiano" dialoga com os relatos modernos sobre a Itália |
Severgnini conhece tanto os italianos quanto a imagem do país no exterior, sobretudo nos Estados Unidos e na Inglaterra. Atualmente um dos colunistas mais populares dos jornais Corriere della Sera e Gazetta dello Sport, ele já foi correspondente em Londres e Washington. Também foi o correspondente da revista "The Economist" na Itália entre 1996 e 2003.
Seu livro dialoga com os relatos modernos sobre a Itália, que o autor divide em "crônicas de um caso de amor" e "diários de uma decepção". As primeiras em geral são de mulheres americanas, encantadas com o clima e a gente. Os últimos costumam vir de homens ingleses que vêem o povo com desconfiança e o governo com horror. Severgnini diz que o país não corresponde nem a um, nem ao outro.
Ele busca desfazer a imagem idílica da Itália como um lugar de colinas, ciprestes e pores-do-sol, associada à Toscana. Para o autor, a região é "a síntese das principais concepções errôneas sobre a Itália" e traz consigo "uma filosofia e uma estratégia de marketing". Mas não deixa de falar das características mais pitorescas da cultura italiana, entre elas o museu, a piazza, a janela.
Lembra que os rostos nos quadros podem ser vistos praticamente em qualquer esquina ― a diferença é que no museu eles não estão gritando ao celular. E de como os meninos jogam futebol vigiados por afrescos antigos nos pátios das paróquias.
O livro é divertido, repleto de tiradas espirituosas do tipo "nos restaurantes italianos, o mau gosto é marca de autenticidade" e "a família italiana é uma agência de empregos, uma enfermaria e uma fonte de notícias". Mas não deixa de refletir sobre temas mais sérios, como o efeito dos governos Berlusconi e as dificuldades econômicas após a conversão da lira em euro.
Para o leitor brasileiro, é impossível não traçar paralelos com a própria cultura, a começar pelo trânsito. Segundo Severgnini, na Itália, um sinal vermelho não é uma ordem, é uma oportunidade para refletir: "Que vermelho é esse? Vermelho para permitir a passagem de pedestre? Mas são sete da manhã. Pedestres não circulam tão cedo. Isso quer dizer que é um vermelho negociável; é 'um não-tão-vermelho-assim'".
É difícil definir em que medida o "jeitinho brasileiro" é tributário da imigração, mas há quem considere que a sociedade italiana vem passando por um processo de "abrasileiramento". Com alguma melancolia, Severgnini prefere outro exemplo, e compara a Itália do século 21 à Veneza de fins do século 18: "uma festa contínua, um interminável carnaval em episódios", em que "os prazeres compensam a opressão e contribuem para suportá-la".
"A CABEÇA DO ITALIANO"Autor: Beppe Severgnini
Tradução: Sérgio Mauro
Editora: Record
Preço: R$ 39
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