Em 1923, Franz Kafka foi morar em Berlim para se concentrar em seu trabalho de escritor. Uma tarde, passeando no parque Steglitz, se deparou com uma menina chorando. Ela tinha perdido sua boneca, explicou. O criador de Gregor Samsa e Josef K inventou, então, mais uma ficção: a boneca estava viajando e havia mandado uma carta para a ex-dona. A correspondência durou três semanas e compõe a única obra infantil do autor, escrita para uma só leitora.
A história foi contada por Dora Dymant, que viveu com Kafka em Berlim, à crítica francesa Marthe Robert e ao escritor Max Brod. Kafka morreu um ano mais tarde, porém nem as cartas nem a menina jamais foram encontradas.
 No livro, o autor Fabra transforma Kafka em um "carteiro de bonecas" terno e comovido |
Mais de 80 anos se passaram até que a história ganhasse corpo pelas palavras do espanhol Jordi Sierra i Fabra no livro "Kafka e a Boneca Viajante", com ilustrações de Pep Montserrat. Vencedor do Premio Nacional de Literatura Infantil y Juvenil do Ministério da Cultura da Espanha em 2007, ele acaba de ser lançado no Brasil pela editora Martins Fontes.
Fabra transforma Kafka em um "carteiro de bonecas" terno e comovido - embora ainda ansioso e angustiado -, que demonstra um tipo de afeto raro (para não dizer ausente) em seus livros. O tom esperançoso, quase redentor, predomina no relato. "Salvar uma menina não era salvar o mundo? [...] Pelo menos teria cumprido sua tarefa, impedindo que uma enorme ferida marcasse a vida de Elsi [a menina] por causa da perda de Brígida [a boneca]."
Por outro lado, a doença e a morte de Kafka, bem como a consciência sobre o conjunto de sua obra, se insinuam aqui e ali. O livro de Fabra se equilibra entre a mágica da fábula e o desconforto do indivíduo do século XX, que está " [...] num mundo sempre pronta a naufragar, que se movia no fio do egoísmo, da incerteza e da crueldade humana", e no qual "uma criança tanto podia matar com sua sinceridade como atravessar com seu desembaraço os espessos muros da consciência".
A tentativa de revelar o menino em Kafka adquire assim sabor agridoce. Afinal, o leitor de qualquer idade saberá que a fuga é apenas ilusão, enquanto a perda, inevitável, faz parte da vida.
Tim Burton Publicado em 2007, obra traz poemas e ilustrações de autoria de Tim Burton |
Na seção infanto-juvenil da livraria, bem ao lado de "Kafka e a Boneca Viajante", um pequeno volume amarelo chamou minha atenção. Era o livro do cineasta Tim Burton, "O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra e Outras Histórias", publicado em meados de 2007.
De modo mais radical do que Fabra, Burton borra todas as delimitações entre o infantil e o adulto com seus poemas e ilustrações, feitas de mão própria. Como escreve Philippe Barcinski na orelha, "o livro não se enquadra em nenhum nicho. É triste, mas engraçado. É infantil, mas adulto".
Seus protagonistas, quase todos crianças, são anti-heróis desajustados e grotescos que, com uma inocência infantil, vivem num mundo tingido pela morte, a incompreensão e o trágico.
Breno, o Menino Veneno, encontra seu triste fim quando o colocam para respirar ar livre num lindo dia de verão. O menino múmia acaba com o crânio partido quando é confundido com uma piñata. A menina trash, que tinha "a cara suja de carvão/ A pele de puro cascão/ E uma catinga de gambá" foge do casamento com o gari pulando num triturador de lixo.
E o pobre menino ostra é devorado pelo pai, que procura um afrodisíaco. Após o enterro do filho: "Já em casa, na cama quentinha/ Papai beija mamãe, se abraçam/ de conchinha:/ 'Vem, meu bem, hoje estou com toda a/ adrenalina!'// 'Ok', ela sussura, 'só que desta vez/ tem de ser uma menina'."
Imprescindível para quem gosta da obra de Burton cineasta.
KAFKA E A BONECA VIAJANTEAutor: Jordi Sierra i Fabra
Editora: Martins Fontes
Preço: R$ 25,00
O TRISTE FIM DO PEQUENO MENINO OSTRA E OUTRAS HISTÓRIASAutor: Tim Burton
Editora: Girafinha
Preço: R$ 27,00
- Mais
- Clássico sobre a Alemanha nazista, "Ascensão e Queda do Terceiro Reich" ganha nova edição
- Livro conta a verdade sobre a medicina do seriado "House"
- Relançamentos de Jorge Amado são enriquecidos com eventos e comentários de escritores
- Livro ironiza a moda mais equivocada de Hollywood
- "Desejo & Reparação" é convite para ler mais Ian McEwan
- Seis livros para conhecer melhor Bob Dylan
- 200 anos depois, D. João 6º invade bibliotecas brasileiras
- Professor francês ensina "como falar dos livros que não lemos"
- "Beijo," traz o humor negro do autor de "Fantástica Fábrica de Chocolate"
- Hillary Clinton e Barack Obama disputam até mercado editorial
- Versões "pocket" de livros de arte e fotografia cabem no bolso
- Livro "O Falecido Mattia Pascal", do italiano Luigi Pirandello, ganha nova tradução brasileira
- Retrospectiva 2007: livros premiados e listas de melhores do ano
- Com vocação pop, guias "Rough Guide" e "Time Out" saem em português
- Livro "Julie & Julia" mostra o lado mais imperfeito, humano e divertido da culinária
- Editoras "encaixotam" lançamentos de livros e apostam no apelo visual