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21/02/2008 - 21h20

"Desejo & Reparação" é convite para ler mais Ian McEwan

PATRICIA DE CIA
Colaboração para o UOL
Ele é um dos maiores nomes da literatura britânica e sua obra vem sendo lançada no Brasil há mais de uma década. Ainda assim, um novo público de leitores veio conhecer Ian McEwan graças à bem-sucedida adaptação cinematográfica "Desejo e Reparação".

O filme, com Keira Knightley, James McAvoy e Vanessa Redgrave, ganhou o Globo de Ouro, recebeu 14 indicações e dois prêmios Bafta e concorre, no próximo domingo, 24, a sete Oscar.

Reprodução
Capa da edição brasileira de "Reparação", romance de Ian McEwan que virou filme
AUTOR NÃO QUER SER CELEBRIDADE
TRAILER DE "DESEJO & REPARAÇÃO"
MAIS SOBRE O OSCAR 2008
Autor de dez romances, vários já transpostos para o cinema (nenhum com tamanho sucesso), McEwan estreou com duas coletâneas de contos, em 1976 e 1978. A edição brasileira uniu ambas em "Primeiro Amor, Último Sacramento & Entre Lençóis". Nessas histórias predominam personagens adolescentes e os ingredientes que renderiam a ele o apelido de Ian Macabro: sexo, violência e morte, sem meias palavras.

Embora o tom sinistro tenha esmaecido com o passar dos anos, os temas dos contos ― perda da inocência, sexualidade e perversão, crime e culpa ― podem ser estendidos a quase toda a obra do autor, que certamente vale a pena conhecer.

O macabro
O primeiro romance, "O Jardim de Cimento" (1978), é a história de quatro irmãos, três deles adolescentes, que perdem pai e mãe num curto intervalo. Para evitar a adoção, enterram com cimento o cadáver da mãe no porão de casa e passam a viver sem qualquer influência adulta. O livro foi adaptado para o cinema em 1993, estrelando Charlotte Gainsbourg, e um trecho do roteiro virou introdução da música "What it Feels Like for a Girl", de Madonna.

Em "Ao Deus-Dará" (1981), considerado um dos livros mais tenebrosos do autor, um entediado casal britânico em férias acaba envolvido em práticas extremas de sadomasoquismo. Novamente o livro deu origem a um filme, "Uma Estranha Passagem em Veneza", com roteiro do prêmio Nobel de literatura Harold Pinter e direção de Paul Schrader.

O romance seguinte só viria seis anos mais tarde com "A Criança no Tempo", no qual um pai, escritor de livros infantis, "perde" sua filha de cinco anos num supermercado de Londres. Em 1989, sai "O Inocente", ficção histórica ambientada na Alemanha dos anos 1950, em que um jovem britânico tem sua iniciação sexual e política em meio a circunstâncias bizarras. Foi levado às telas por John Schlesinger.

"Cães Negros" (1992) tem como pano de fundo a queda do muro de Berlim e coloca em primeiro plano o embate entre misticismo e racionalismo, outro dos temas marcantes do autor.

Reprodução

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Capa de "Amor para Sempre", considerado um dos melhores trabalhos de Ian McEwan

Humor negro
"Amor para Sempre" (1997) assinala uma nova fase para McEwan, que vai progressivamente se distanciando do flerte com a literatura de terror das primeiras obras, embora se mantenha extremamente perturbador. Considerado um de seus melhores livros pela crítica, tem na cena inicial - na qual ocorre um acidente de balão - um dos pontos altos da narrativa.

O livro também ficou famoso por enganar a comunidade científica britânica. Ao final, o escritor incluiu um apêndice supostamente "extraído da Revista Britânica de Psiquiatria" sobre a síndrome de Clérambault, uma espécie de erotomania. Era tudo ficção, mas ele não contou a ninguém. Foi transposto para o cinema em 2004, com o James Bond Daniel Craig no papel principal. No Brasil, o filme se chama "Amor Obsessivo".

Com "Amsterdam" (1998), McEwan finalmente entrou para o rol de vencedores do Booker Prize, o prêmio literário mais importante do Reino Unido. É a vez de o humor negro ditar o tom do romance, que se desenvolve em torno da relação de dois velhos amigos. Um é editor na imprensa marrom britânica e o outro, um compositor obcecado com a criação de uma sinfonia que será executada na virada do milênio. A questão central do livro é a morte, e não por acaso ele se inicia no velório de Molly Lane, ex-amante de ambos, vítima do mal de Alzheimer.

Maturidade
McEwan atinge a maturidade como escritor em "Reparação" (2001). Além de uma bela e delicada história de época, o livro é um elaborado diálogo com a tradição do romance inglês - e alguns críticos chegaram até a compará-lo a Henry James. A formação da Briony escritora se reflete no texto, que muda estilisticamente com o passar do romance e do tempo.

Não se trata somente do amadurecimento da narradora, e sim das transformações da literatura e do modo pelo qual ela enxerga e expressa a história, o mundo e o homem ― tudo isso sem que o autor estabeleça um jogo de referências e citações cujo entendimento fique restrito aos especialistas.

Brainpix

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O autor britânico Ian McEwan, que rejeita o "culto à celebridade"

Com "Sábado" (2005), ele faz um extenso comentário sobre o impacto do 11 de Setembro. O livro narra os eventos de um único dia, 15 de fevereiro de 2003, na vida do neurocirurgião inglês Henry Perowne. O protagonista se envolve num acidente de carro enquanto Londres se prepara para uma grande manifestação contra a invasão do Iraque. Está em jogo o embate de um homem de ciências que se defronta com o irracional.

No ano passado, McEwan publicou "Na Praia", seu romance mais recente. São 128 páginas descrevendo a noite de núpcias de um casal de "jovens, educados e ambos virgens", últimos remanescentes da repressão vitoriana num mundo prestes a mergulhar na revolução sexual. McEwan fala de uma época em que ser jovem não era ainda uma virtude, uma bênção, e na qual o casamento correspondia ao início da vida adulta e livre.

A certa altura, relembrando do dia em que ficou sabendo dos problemas mentais da mãe, Edward, o marido, chega à conclusão de que "a contradição agora estava resolvida pela simples denominação, pelo poder das palavras em tornar visível o invisível". Mas "Na Praia" retrata exatamente um mundo em que as palavras são incapazes de desfazer as contradições e tensões latentes do sexo.

Embora nem todos os livros estejam em catálogo, com sorte ainda é relativamente fácil encontrar exemplares em sebos, "físicos" ou virtuais.



Primeiro Amor, Último Sacramento & Entre Lençóis
Tradução:
Roberto Grey
Editora: Rocco
Preço: R$ 31,00

O Jardim de Cimento
Tradução:
Luiza Lobo
Editora: Rocco
Preço: R$ 19,00

Ao Deus-Dará
Tradução:
Waldéa Barcellos
Editora: Rocco
Preço: R$ 18,00

A Criança no Tempo
Tradução:
Geni Hirata
Editora: Rocco
Preço: R$ 28,00

O Inocente
Tradução:
Alexandre Hubner
Editora: Companhia das Letras
Preço: R$ 55,50

Cães Negros
Tradução:
Aulyde Soares Rodrigues
Editora: Rocco
Preço: R$ 18,00

Amor para Sempre
Tradução:
Paulo Reis
Editora: Rocco
Preço: R$ 26,00

Amsterdam
Tradução:
Paulo Reis
Editora: Rocco
Preço: R$ 23,50

Reparação
Tradução:
Paulo Henriques Britto
Editora: Companhia das Letras
reço: R$ 56,50

Sábado
Tradução:
Rubens Figueiredo
Editora: Companhia das Letras
Preço: R$ 52,00

Na Praia
Tradução:
Bernardo Carvalho
Editora: Companhia das Letras
Preço: R$ 33,00
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