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02/01/2008 - 10h01

Nova tradução de "As Mil e Uma Noites" revela faceta diferente da obra

Concha Barrigós - Madri, 2 jan (EFE) - O arabista René R. Khawam dedicou 20 anos de sua vida a devolver "As Mil e uma Noites" a seu estado original, no qual sobram, entre outros, Aladdin e Simbad, o marinheiro, e faltam a crítica à teocracia islâmica, ao vinho, às mulheres fortes e à lascívia.

A nova edição da coletânea de contos árabes acaba de ser publicada na Espanha.

Na obra, o francês de origem síria René Khawam esclarece muitas coisas, apesar da dificuldade que foi "limpar" os relatos de contribuições ilegítimas, impregnadas do orientalismo que tanto reinou na Europa entre os séculos XVIII e XIX, e retirar o "açúcar" para devolver a essência onde houver a esta "agitadora obra prima".

Independente do que a mitologia ocidental diz, "As Mil e uma Noites" não é uma compilação dos contos que Sherazade contava a seu marido sanguinário, o sultão Shahriyar, para distraí-lo de seu "costume" de cortar a cabeça de cada mulher com a qual se casava na manhã seguinte ao casamento.

Segundo o arabista, estas histórias podem apenas servir de marco para o desenvolvimento do conjunto da obra.

O responsável da tradução para o castelhano da edição de Khawam, Gregorio Cantera, disse que o livro é mais uma coletânea de relatos sem fio condutor ou homogeneidade, mas com o propósito comum de entreter todos os que passavam suas noites no deserto, seja na Rota da Seda, seja em qualquer tenda do Egito.

As "descobertas" mais notáveis de Khawam, um dos arabistas mais importantes da Europa e o grande tradutor do Corão ao francês, "não são do ponto de vista da lascívia, pois apesar de emergir já sem a amenização e/ou a censura de séculos passados, este comportamento licencioso não vai escandalizar ninguém a esta altura".

O inovador, afirma Cantera, se centra mais nos festejos em torno do álcool, do papel das mulheres e da sua influência, uma crítica "bastante séria" do poder adotado pelo grande califado de Bagdá.

São temas desconexos, mas comuns à lascívia, ao gosto pelo vinho e pelo prazer, "e à 'cana' (crítica) que se dá à teocracia islâmica, mas sempre deixando à margem Alá e Maomé", enfatiza o tradutor.

Os relatos procedem da tradição oral nascida em muitos lugares diferentes, mas que "cristalizaram" por escrito no século XIII
graças a Boulaq, especificamente na cidade-oásis de Kashgar, uma das fortificações da Rota da Seda, situada em pleno deserto.

Neste trabalho de tradução de "longo incentivo", ao qual Cantera dedicou mais de 180 dias e noites, fica patente que Sherazade é "a apresentadora de noites" que protagoniza só o primeiro relato e não a narradora de todos os contos compilados na versão censurada que chegou à França no século XVII.

Apenas no século XIX, por exemplo, começam a ser incorporados os relatos relativos a Simbad, o marinheiro, Aladdin, Ali Babá e os 40 ladrões, histórias "muito maravilhosas" para terem sido escritas na mesma época que as demais, afirma Cantera.

Como lembrou recentemente o escritor espanhol Juan Goytisolo, "As Mil e uma Noites" é, "ao contrário do dogma, um texto aberto e recomposto" no qual se encontram chaves que explicam, entre outros grandes "mistérios", o problema da imigração atual, pois, como diz um dos relatos, "o mundo é a casa dos que não a têm".

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