 |
23/09/2007 - 10h47
Amigos de Gabriel García Márquez revelam o espírito "mafioso" de sua amizade
Ana Gerez
Rio de Janeiro, 23 set (EFE).- Gabriel García Márquez é um homem
de uma "lealdade profunda", uma "generosidade sem limites" e com um
sentido da amizade com um quê de "mafioso", segundo a definição dos
seus amigos brasileiros Eric Nepomuceno e Ruy Guerra.
Nepomuceno é escritor e tradutor da obra de García Márquez para o
português, e Guerra é considerado um dos mais versáteis cineastas
brasileiros.
Ambos compartilham uma velha amizade com o jornalista e escritor
colombiano, que na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, que termina no
domingo, foi homenageado por ocasião do 40º aniversário da
publicação de sua obra "Cem Anos de Solidão".
A relação de Guerra com o criador da lendária Macondo remonta à
Barcelona dos anos 70, quando o cineasta trabalhava com o peruano
Mario Vargas Llosa, por cuja mediação se conheceram, antes do
distanciamento dos escritores.
Na ocasião, o Prêmio Nobel de Literatura disse a Guerra que tinha
visto um filme seu "tirado de uma história minha (Marquéz), antes
que escrevesse a história", e deu um livro ao brasileiro, "El
ahogado más hermoso del mundo".
No mesmo dia, assegurou que os dois fariam um filme juntos,
restando apenas decidir a história, e durante dez anos se viram em
todas as partes do mundo sem decidir qual usar.
"Hoje tenho a satisfação de ser o cineasta que mais filmes" tem
com García Márquez, disse.
Guerra se inspirou ou se baseou em suas obras literárias para
quatro trabalhos: a minissérie "Me Alugo para Sonhar", feita para a
televisão espanhola, "Fábula da Bela Palomera", "Eréndira", dirigida
por Guerra e com roteiro do escritor, e "O veneno da madrugada",
título da tradução para o português do romance "La Mala Hora".
Neste caso, o filme é uma adaptação "completamente diferente" do
livro, que fez o diretor de cinema temer o descontentamento do
autor, por isso preparou um discurso para dizer: "Gabo, não fui fiel
ao livro, mas fui fiel a você".
Antes de poder se explicar, conta o escritor, Garcia Márquez o
chamou e disse: "Ruy, você destroçou o meu livro, mas é um filme
maravilhoso".
O primeiro contato de Nepomuceno com quem é hoje considerado
pelos críticos o maior escritor vivo foi por telefone, há mais de 30
anos, quando o brasileiro tinha 25 anos e vivia em Buenos Aires.
Gabo, nome afetuoso dado a Garcia Márquez tanto por seus amigos
como pelos admiradores anônimos de sua obra, chamou o brasileiro
porque tinha feito um texto sobre a morte de Salvador Allende no
Chile e o fim da democracia chilena e queria um jovem escritor
latino-americano para fazer entrevistas e falar com jovens chilenos.
O trabalho conjunto foi também um dos fatores que aproximaram
García Márquez e Nepomuceno, para quem o escritor tem um sentido
"mafioso" da amizade, no sentido de uma forte união na qual não cabe
a deslealdade.
O escritor brasileiro, que também traduziu para o português
autores como Jorge Luis Borges, Juan Rulfo, Eduardo Galeano e Julio
Cortázar e escreveu romances, contos e ensaios, afirma que a
publicação de "Cem Anos de Solidão" mudou a vida de Gabo para sempre
e a transformou em "um inferno", porque não podia ir a nenhum lugar
sem que falassem com ele.
"Acho que é o único escritor vivo, não me lembro de escritores
anteriores que tivessem esse poder, essa popularidade. Talvez ( o
americano Ernest) Hemingway em seu tempo", comenta o brasileiro, que
alerta contra qualquer tentativa de "usar" ou "trair" García
Márquez.
"Uma vez me disse que escrevia para que os amigos o quisessem
mais", lembra Nepomuceno, mas, na sua opinião, "é um autor que
escreve para gostar mais dos amigos, e consegue fazer com que os
amigos gostem mais uns dos outros".
Com o mesmo tom afetuoso, Guerra recorda de uma lembrança
parecida. Alguém perguntou a García Márquez, enquanto assinava um
autógrafo após o outro, por que escrevia e, "com a sinceridade de um
bêbado", respondeu: "Para que me amem". Depois se voltou para ele,
pensou um pouco, e acrescentou: "Mas não precisavam me amar tanto".
Segundo o cineasta brasileiro, García Márquez comentou uma vez
que as pessoas pensavam que seus livros eram muito cinematográficos,
mas o escritor discordava porque "as metáforas visuais que utiliza
são metáforas literárias, não cinematográficas".
Para Nepomuceno, a obra do escritor colombiano é "extremamente
política, extremamente humana, uma obra que tem uma carga desaforada
de poesia, e que, com a intenção de fazer seus amigos gostarem,
escreveu uma história descomunal, que é nossa história".
|
|