UOL Entretenimento Notícias

02/10/2008 - 19h28

Vencedor do prêmio Eisner, Rafael Grampá lança "Mesmo Delivery" no Brasil

GUSTAVO MARTINS
Da Redação
Reprodução
Uma das páginas de "Mesmo Delivery", primeira graphic novel do quadrinhista gaúcho Rafael Grampá
VEJA FOTOS DO ÁLBUM
UOL JOVEM RESENHA "MESMO DELIVERY"
BLOG DOS QUADRINHOS COMENTA
O quadrinhista gaúcho Rafael Grampá, recém-premiado no Eisner Awards por sua participação na coletânea "5", lançou nesta quinta (2) em São Paulo sua primeira graphic novel, "Mesmo Delivery". O álbum, que levou dois anos para ficar pronto e já teve os direitos vendidos para o cinema americano, conta a história de uma empresa de entregas que transporta qualquer tipo de carga, sem fazer perguntas - até porque o preço da curiosidade pode ser uma cabeça cortada.

Antes de dedicar-se exclusivamente aos quadrinhos, Rafael Grampá trabalhou com televisão e design em publicidade. Atualmente, está encerrando sua participação como desenhista de produção de "O Dobro de Cinco", adaptação para o cinema da graphic novel de Lourenço Mutarelli.

Leia abaixo entrevista com o autor de "Mesmo Delivery":

UOL - Como foi o processo de criação dessa graphic novel?
Rafael Grampá -
Eu não costumo fazer histórias muito curtas, mas resolvi fazer uma assim porque ainda não tinha feito muitas páginas autorais. Acho que antes de publicar o "Mesmo" só tinha feito umas 60, no máximo, eram histórias de quatro páginas, e ninguém sai de quatro páginas para duzentas ["Mesmo Delivery" tem 52]. Pensei no roteiro uns dois anos atrás, mas tive que parar o processo no meio pra fazer o design de produção de "O Dobro de 5", isso no meio do ano passado. Trabalhei até novembro nisso, retomei o álbum em janeiro e fiquei nele até abril.

UOL - Você teve alguma inspiração consciente para essa história?
Grampá -
Não, comigo não funciona muito assim, com referências diretas. Só a cena do chefe da transportadora, que não aparece de frente, que eu pensei na primeira cena de "O Poderoso Chefão" como referência. Mas em geral o ponto de partida da história foram coisas de quando eu era moleque, meu pai era gerente de uma transportadora e eu brincava nos caminhões, fingindo que fossem naves espaciais e tal. E na época também teve o filme "Comboio", do Sam Peckimpah, que me impressionou muito. Eu já tinha criado o visual do personagem Rufo para uma história anterior que não rolou, de caminhoneiro, e reaproveitei nessa.

UOL - A história dá muito a impressão que terá uma continuação, você tem planos para isso?
Grampá -
Isso é bom, é essa sensação que eu queria que as pessoas tivessem, um gosto de quero mais. Todas as coisas que eu gostava na minha época de criança eu peguei, anotei e usei na história, o que inclui também o seriado "Além da Imaginação", que tinha isso de histórias que não acabavam. Sem falar que nessa época eu achava que os comerciais faziam parte da história, então incluí um "intervalo comercial" no meio também - que não é gratuito, tem uma função de respiro na história. E vai ter uma continuação sim, só não está definido o roteirista ainda, mas os direitos foram vendidos para o cinema, está sendo negociado com uns estúdios grandes.

UOL - Então a continuação do álbum vai acontecer no cinema?
Grampá -
Exatamente! Eu estou louco para contar quem vai estar no projeto, mas ainda não posso. Só digo que se você gosta de quadrinhos, vai gostar de quem está envolvido. Não tem data para sair ainda, mas foi assinado o contrato, já tem gente trabalhando no elenco e tudo. Eu vendi os direitos e não tenho nenhuma influência direta no processo, mas vou acabar indo lá palpitar, com certeza.

UOL - Você tem gostado dessas adaptações recentes de quadrinhos para o cinema?
Grampá -
Quando o filme é bom eu gosto, gostei do "Homem de Ferro", desse último "Batman"... Mas eu gosto quando é meio diferente dos quadrinhos, não sou um fã "típico", desses que quer que tudo seja exatamente igual. Gostei de "Sin City" também, mas não acho que tenha que ser daquele jeito, quadro a quadro.

UOL - Por falar nisso, em que pé está "O Dobro de Cinco"? É verdade que você ainda não liberou o trailer?
Grampá -
Pois é, não liberei o trailer ainda, ainda não tivemos a finalização que a gente queria. É live action com fundo verde, uma coisa que é muito comum aqui em publicidade, mas ainda foi pouco utilizada para fazer coisas legais mesmo. Eu ainda não estou satisfeito com o resultado do trailer, mas acho que esse ano a gente consegue acabar tudo, incluindo as negociações.

UOL - Quais seus desenhistas preferidos de graphic novel?
Grampá -
Ultimamente, os que eu mais gosto são o [Cyril] Pedrosa, do "Three Shadows", publicado pela First Second; o Jason, que publica pela Fantagraphics; e gosto do Paul Pope também. A primeira graphic novel que eu li foi uma escrita pelo Jim Starlin para o Homem-Aranha, e a segunda já foi "O Cavaleiro das Trevas", do Frank Miller.

UOL - No que mais você está trabalhando atualmente?
Grampá -
Nesse momento estou fazendo uma história do Constantine escrita pelo Brian Azarello. Eu peguei porque eles vieram até mim por causa do meu trabalho, e assim me interessa, me dá liberdade para fazer alguma coisa legal. Meu outro projeto é fazer o "Água Peluda", "Furry Water" em inglês, mas estamos decidindo ainda o formato e a editora. O Daniel Pelizari vai escrever.

UOL - Após o Eisner Award pela coletânea "5" e o prêmio Harvey dado para o Fabio Moon e Gabriel Bá, você acha que é certo dizer que o quandrinho brasileiro autoral finalmente está sendo reconhecido no exterior?
Grampá -
Sim, mas também acho que se houvessem mais projetos autorais rolando o reconhecimento aconteceria antes. É muito difícil fazer quadrinho autoral no Brasil, eu tive que abrir mão do meu emprego, ninguém te paga, você não sabe como vai publicar... É um investimento, e eu resolvi investir. Para o cara que mora no Brasil, o que acontece normalmente é pegar um trampo de desenhista para algum título grande, mas ele acaba sendo mais reconhecido pelos fãs do título mesmo. As editoras mandam os artistas se adaptarem ao mercado deles, você é reconhecido não como autor, mas como um bom reprodutor do que se faz lá. Vê quantos imitadores do Jim Lee a gente tem no mercado hoje. Não quero ofender ninguém, tem gente muito talentosa no mercado, mas acredito que se mais autores brasileiros tivessem ido para lá mostrar o trabalho, como os gêmeos [Fábio Moon e Gabriel Ba] fizeram e eu estou fazendo agora, o reconhecimento teria chegado bem antes.

Compartilhe:

    RECEBA NOTÍCIAS

    GUIA DE RESTAURANTES

    Mais Guias

    Hospedagem: UOL Host