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23/09/2008 - 23h59

Marília Pêra dirige reestréia de "O Mistério de Irma Vap" com novos atores; veja e ouça

GUSTAVO MARTINS
Da Redação
Marília Pêra está prestes a reviver um marco do teatro brasileiro. "O Mistério de Irma Vap", de Charles Ludlam, ganha nova encenação dirigida pela atriz a partir desta quinta (25), no Teatro Frei Caneca, em São Paulo. Revezando-se nos oito papéis da peça, que tem frenéticas trocas de figurino escondidas atrás do cenário, estão agora os atores Cássio Scapin e Marcelo Médici.

:: Veja fotos da peça ::

O status de "marco" da peça pode ser medido pelos números da primeira montagem: com Marco Nanini e Ney Latorraca no palco e a mesma Marília na direção, "O Mistério de Irma Vap" ficou em cartaz de 1986 a 1997 (ganhando menção no "Guiness Book" brasileiro como maior temporada teatral sem alterações no elenco) e teve mais de 2,5 milhões de espectadores, em cerca de 1.500 apresentações.

Onze anos depois de uma temporada que durou 11 anos, Marília Pêra diz finalmente ter encontrado atores à altura do desafio de interpretar tantos papéis em uma mesma peça. "Além de bons comediantes, os atores precisam ser atletas, porque as trocas de figurino são muito rápidas", afirma.

Da parte dos atores, a pressão de suceder Nanini e Latorraca em papéis tão marcantes não parece incomodar muito. Marcelo Médici, vindo de uma bem-sucedida temporada do espetáculo cômico "Cada um Com Seus Pobrema", até brincou com a expectativa: "Eu não tinha, mas estou quase ficando com medo de encenar, de tanto as pessoas falarem que é uma responsabilidade". Seu colega de elenco, Cássio Scapin, explica: "Eu acho que faz parte da nossa profissão reviver personagens. O trabalho que os dois fizeram foi maravilhoso, mas em geral os personagens é que se tornam donos dos atores, e não o contrário".



Novo humor
A peça acompanha as agruras da delicada Lady Enid (Marcelo Médici) no castelo do novo marido, Lord Edgard (Cássio Scapin), em uma província nos confins da Inglaterra. Perseguida pelo fantasma da primeira mulher, Enid tem que lidar também com a má vontade de uma sinistra governanta. Além da inovadora "matemática" do cenário, que tem uma medida certa para que os atores possam entrar por uma porta e sair por outra a tempo, "O Mistério de Irma Vap" inovou por trazer um novo tipo de humor para o teatro brasileiro, que Marília Pêra define como "besteiríssimas ditas como verdades absolutas". O autor do texto, Charles Ludlam, chegou a escrever um manifesto para sua Ridiculous Theatrical Company chamado "Teatro Ridículo, Flagelo da Loucura Humana", com lemas como "Você é um deboche dos seus ideais. Se não é, seus ideais são baixos demais".

Para o ator Cássio Scapin, a influência de "Irma Vap" para a geração de humoristas formada nos anos 80 e 90 é "total". "É um marco, trouxe uma jocosidade diferente para o teatro, mais rigorosa, misturada ao humor 'camp' [estilo relacionado ao exagero, ostentação e postura homossexual] que estava em voga na época." Ludlam apresentou "The Mystery of Irma Vep" pela primeira vez em 1984, em Nova York, ao lado de seu companheiro, Everett Quinton.

Improviso
Assim como na montagem anterior, a diretora Marília Pêra manteve um espaço para "cacos", pequenas intervenções humorísticas criadas pelos atores no texto. "Mas ainda não tem muito improviso", afirma Scapin, "tudo o que colocamos foi discutido para ver se valia a pena". A idéia é que, conforme o espetáculo fique mais "seguro", mais espaço seja aberto para interação com a platéia --como já acontece em outra montagem dirigida por Marília Pêra, "Doce Deleite", em cartaz em São Paulo com Reynaldo Gianechinni e Camila Morgado.

Marília Pêra fala sobre improviso em "Irma Vap"


Outras alterações feitas por Marília em "Irma Vap" são o corte de algumas cenas (a montagem original de Ludlam tinha três horas, a atual tem menos de duas) e cenas de dança pré-coreografadas pela diretora, para as quais foi criada uma trilha sonora por Aline Meyer.

A cenografia e figurinos ficaram por conta de Fábio Namatame, que também assina a assistência de direção. De acordo com Namatame, a idéia foi manter a estética clássica e de certa forma gótica da peça, no interior de um castelo, mas a evolução dos materiais permitiu criar figurinos mais leves e resistentes que os originais.

Para realizar as dezenas de trocas de figurino, três camareiros e dois contra-regras trabalham nas coxias trocando os atores. "Eles seguram a gente e trocam a roupa num instante, você fica como um boneco de Olinda", diverte-se Marcelo Médici. "Quanto menos você se mexer, melhor."

Marcelo Médici e Cássio Scapin falam sobre a montagem


Marcelo Médici comenta a preparação física


Sem apoio
O ator Marcelo Médici ressaltou que a atual montagem de "O Mistério de Irma Vap", ao contrário de quase todas as grandes produções em cartaz, não conta com leis de incentivo fiscal. Para Cássio Scapin, isso pode ser considerado algo bom, já que mostra que é possível uma peça se sustentar sem dinheiro público. "Mas é um caso muito específico, uma comédia consagrada, com apenas dois atores no elenco, que tem grandes chances de cair no gosto da platéia", diz o ator. "Para uma produção mais elaborada, com muitos atores envolvidos, realmente é impossível sair do papel, porque você precisa de um fôlego inicial muito grande."

Curiosamente, a primeira montagem de "Irma Vap", com Marco Nanini e Ney Latorraca, também começou de maneira, digamos, humilde. Todo o figurino era reaproveitado de outras peças, as perucas eram emprestadas e os móveis no cenário eram os da própria equipe. "Era uma coisa de quintal, jovem", relembra Marília Pêra. "E é assim que se faz teatro. Eu gosto muito de reciclar dessa maneira, criando novos espetáculos."

Marília Pêra fala sobre a recepção de "Irma Vap" hoje




"O MISTÉRIO DE IRMA VAP"
Onde:
Teatro do Shopping Frei Caneca - r. Frei Caneca, 569, São Paulo - tel. (11) 3472-2229
Quando: de 25/09 a 07/12; quintas e sextas às 21h30, sábados às 21h e domingos às 19h
Quanto: de R$ 60 a R$ 70
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