O que significa de fato dizer que se leu um livro? Percorrer da primeira à última linha, sem pular trechos ou páginas? Mas será que ao chegar à frase final esse leitor exemplar será capaz de lembrar de tudo que leu? E ainda, quem pode dizer que não conhece um livro como "Hamlet", mesmo nunca tendo aberto as páginas de um volume de Shakespeare? Dúvidas como essas, que vão contra uma idéia totalizante do ato de leitura, são o estofo de "Como Falar dos Livros que Não Lemos?", do professor de literatura francês Pierre Bayard, que acaba de ser publicado no Brasil.
Divulgação  Com ironia, o escritor francês Pierre Bayard cria categorias para os livros não lidos |
Sem nunca abrir mão da ironia, Bayard ― que afirma ter "nascido em um meio onde se lia pouco" e ensina literatura francesa na Universidade de Paris ― constrói o ensaio usando exemplos e trechos tirados da mais alta literatura, incluindo "O Homem sem Qualidades", de Robert Musil, "Ilusões Perdidas", de Balzac, e "Ensaios", de Montaigne, e de obras pop, como o filme "O Feitiço do Tempo" e o best-seller "O Nome da Rosa", de Umberto Eco.
Para cada livro citado, ele indica em notas de rodapé seu grau de conhecimento e sua opinião sobre a obra. E aqui está uma das estratégias mais interessantes do autor: não separar os livros entre lidos e não lidos. Em lugar disso, os categoriza como livro folheado, livro de que ouvi falar, livro esquecido e livro desconhecido. Assim, um livro folheado é aquele que de fato o autor abriu e cujas páginas percorreu, mas sem nos dar a certeza de tê-lo lido integralmente. Já os livros esquecidos são aqueles que foram folheados, mas cujo conteúdo não está mais presente na memória do autor.
O ensaio está dividido em três partes: "Maneiras de Não Ler", em que Bayard analisa as peculiaridades da leitura; "Situações de Discurso", elencando possíveis eventos em que alguém pode ser instado a ter de falar sobre uma obra que não leu; e "Condutas a Adotar", na qual sugere estratégias para se sair bem nas situações demonstradas anteriormente. Essas últimas são "não ter vergonha", "impor as próprias idéias", "inventar os livros" e "falar de si". Nada mais ultrajante vindo da boca de um professor, certo?
Por essas e outras, o ensaio foi alvo de alguns ataques indignados, vários deles escritos por pessoas que não leram o livro. Tal ironia já justificaria uma das teses de Bayard: mesmo sem conhecer por completo o conteúdo de um livro, o não-leitor capaz de situá-lo em relação a outros livros poderia, a partir daí, expressar uma opinião.
Mas a proposição polêmica, que faz muita gente torcer o nariz, implica que é preciso ter lido ― ao menos trechos ou livros sobre livros ― e sobretudo que é preciso ter interesse nos livros para participar do mundo da cultura. Mas que é praticamente irrealizável a "obrigação de ler tudo" para ser julgado digno de falar sobre livros.
Mais do que um manual cheio de dicas espertas para trapacear na aula de literatura ou sair por cima numa rodinha cabeça, o ensaio de Bayard mostra que o livro não precisa ser uma esfinge ameaçadora bradando "decifra-me ou te devoro" para o leitor incauto, a quem restaria apenas fugir, negando a própria literatura, ou gabar-se aos quatro ventos de ter dominado o monstro.
Para o caso de alguém ter ficado em dúvida: eu acho que li "Como Falar dos Livros que Não Lemos", da primeira à última página.
"Como Falar dos Livros Que Não Lemos?"
Autor: Pierre Bayard
Editora: Objetiva
Quanto: R$ 29,90